EXTREMA-DIREITA |Jogam em tantos tabuleiros

SF | 19-08-2020 | Helena Pato vem desde há muito tempo alertando para esta previsível situação do levantar de cabeça da extrema-direita. A sua experiência carrega de forma acutilante as palavras de alerta que nos deixa numa versão atualizada para o SF do seu texto inicial publicado há dias.

Por: Helena Pato, resistente antifascista.

A extrema direita em Portugal é mais do que um grupúsculo. Eles jogam na provocação parlamentar; jogam, com o rosto tapado ou em modo oculto, nas ameaças, na intimidação e nos actos de vandalismo; estão presentes em assassinatos; e dão voz a autarcas e a cronistas, na defesa do património salazarista. A figura é a mesma. O que muda é o fato. É urgente tomarmos consciência disso.

Não lhes deem palco

Eles aí estão! Desafiantes, já não se limitam a provocar a Assembleia da República com trejeitos apalhaçados e a desafiar a Constituição com propostas e palavras de ordem de cariz nazi. Eles aventuram-se para novas formas, internacionalizam-se. Agora, cometem crimes sem rosto. E nós? “Nós aguardamos. Cabe à Justiça investigar e punir” – dizem-nos, da bancada da tolerância democrática. Se bem entendo, vamos correr atrás do prejuízo, atirando para os tribunais um facto, a seguir a outro facto, na expectativa de que uma condenação possa trazer a extinção da espécie. Dar-lhes tempo a que se organizem melhor … – digo eu.

É ainda o não lhes deem palco?

Ou, nós, os antifascistas de uma ponta à outra do espectro partidário, que apoiam a Constituição, tomamos posição em apoio claro, inequívoco, de que

não há lugar na Democracia para esta gentalha

– quer eles venham de gravata, com esgares provocatórios, sob os holofotes do Parlamento, quer surjam pela noite com máscaras importadas – , ou tê-los-emos, em breve, a proporem-se, de cara destapada, acabar com a Democracia que os acolhe e lhes abre os microfones.

O combate de todas as forças democráticas deveria estar a decorrer aí, sem ambiguidades, numa destrinça clara entre o que é democrático e o que é anti-democrático. Mas são, afinal, eles quem começa a dar corpo à separação das águas. Provocam-na. Meia dúzia de fanáticos dá a cara por milhares de ressabiados e reaccionários do 24 de Abril. Tiveram e têm a cumplicidade, quer do silêncio dos cobardes, quer da táctica defensista do Não lhes dêem palco. Eles é que não se perdem na estratégia – e aí estão, com diversas faces, avançando contra quem não se tem poupado no combate contra o fascismo. Eles seguem impunes, a coberto de quem os alimenta pelo silêncio, ou lhes estende o tapete da liberdade expressão.

Dá-se-lhes a outra face para mais uma bofetada?

É tarde para eu me deixar convencer pela ideia de que o fascismo se combate virando-se-lhe as costas. Perante as ameaças veladas, os atropelos à Democracia e o jogo de intimidação aos cidadãos, (que já vêm muito de trás), o Estado Português não pode, em minha opinião, continuar a acobardar-se. Não há lugar a ódios – o ódio é imagem de marca d´«eles» – mas não pode haver a menor tolerância para com os obreiros de uma corrente de inconstitucionalidades.

Nas redes sociais

Eu fico de pé atrás sempre que, nestes dias, alguém rapa dos argumentos Então não há liberdade de expressão? ou Não apaguem a História!. É certo e sabido que é gente que acomoda em si, com maior ou menor consciência, uma queda para engrenar nos caminhos da extrema direita. É curioso como, para defenderem vozes ou actos pró-fascistas ou nazis, vêm adoptando tais palavras de ordem, tão caras à Democracia. Não nos surpreendemos ao ler comentários de quem sabemos que tem uma espécie de passe para circulação oportunista entre os partidos que sempre se estiveram nas tintas para a liberdade de expressão… Mas é penoso vermos alguns dos nossos a saltar a cerca, com o pezinho a puxá-los para o lado da tal liberdade de expressão para todos, ainda que seja para os fascistas destruírem a democracia…

Nas autarquias

Não duvido que valeu a pena lutar contra a ideia bizarra da edificação de um Centro Interpretativo do Estado Novo em Santa Comba Dão. Fomos dezenas de milhares a tomar posição pública, a interceder junto do Primeiro Ministro, e foram algumas personalidades a assumir a discordância, a fazer ouvir a sua voz na Comunicação Social e nas redes sociais: historiadores, sociólogos e intelectuais – daqueles que, de vários quadrantes políticos, sempre nos habituámos a respeitar. Constata-se que há regiões do País e autarcas, particularmente sensíveis à confusão que alguns espíritos têm vindo a lançar com a narrativa hiper-democrática e culta de que não se deve apagar a História. Como se houvesse um só antifascista que quisesse apagar factos, documentos, testemunhos, crimes, relacionados com o regime de Salazar e Marcelo Caetano. Por isso tantos têm investido tanto na sua divulgação e na reivindicação da edificação de museus. A investigação académica respeitante a esse período da História de Portugal não pára e a sua divulgação tem merecido grande atenção da parte de muitos grupos de antifascistas. Pessoalmente, tenho dedicado muito do meu tempo e das minhas energias à divulgação de biografias, factos e materiais desse tenebroso período [sempre com a preocupação de que seja objectiva e apartidária].

Mas a glorificação dos ditadores e seus comparsas, isso não!

Recentemente, houve um cidadão que tomou, a seu cargo pessoal, a iniciativa de dirigir o abaixo-assinado Retirar Salazar de nome de rua em 22 concelhos portugueses aos autarcas de Ansião, Armamar, Cadaval, Campo Maior, Castelo Branco, Carregal do Sal, Coimbra, Lages do Pico, Leiria, Lisboa, Melgaço, Odemira, Paredes, Penedono, Peniche, Santa Comba Dão, Santarém, Santo Tirso, Tomar, Vila Flor, Gaia e Viseu. Propunha-lhes somente uma reflexão sobre esse facto, mas alguns desses políticos fizeram-lhe saber que a resposta seria, em síntese: Nunca! Não apagamos a História.

Assim vai o país de Abril. Até quando nos manteremos emparedados, face a esta nova vaga emergente, com ligações internacionais?

Helena Pato

© foto cedida pela autora

18/08/2020