CANÇÃO DE PROTESTO E EXÍLO | Canções no Luxemburgo

SF | 19 setembro 2020 | Dossiê Canção de protesto e exílio | São bem mais que meros apontamentos o que António L. Paiva nos relata sobre acontecimentos notáveis que tiveram por palco o Luxemburgo. O autor aproveita legitimamente para honrar a memória dos que já faleceram e encorajar a determinação daqueles continuam a utilizar a CANÇÃO DE PROTESTO como forma de intervenção em conflitos sociais.

Apontamentos sobre a CANÇÃO DE PROTESTO, no Luxemburgo, antes do 25 de Abril 1974,

por António L. Paiva

Paris, Outono de 1970. Notícia: o Zeca Afonso estava de passagem na capital francesa.

Nesse ano surgiu a oportunidade de uma deslocação ao Luxemburgo para, a convite da Federação dos Operários do Luxemburgo, apresentar um espectáculo para a imigração portuguesa residente naquele país.

Teatro Operário, Os Camaradas e o Zeca

O convite foi aceite e organizou-se a viagem. Do elenco faziam parte o Teatro Operário  criado e dirigido por Hélder Costa com a peça O Soldado. O grupo  Os Camaradas  criado e dirigido por Tino Flores que, com as suas canções de protesto e de intervenção, denunciava claramente a guerra colonial e a miséria do povo português obrigado a emigrar à procura de uma vida melhor. O Zeca foi convidado para nos acompanhar e honrar o espectáculo com a sua presença e participação.

Ninguém de nós conhecia o Luxemburgo. Na época a imigração portuguesa estava a chegar em massa ao país.

No CasinoSindical

No dia 17 de Outubro à noite realizou-se o primeiro espectáculo na Maison du Peuple em Esch-sur-Alzette (segunda cidade do País e com grande concentração de imigração portuguesa). A sala relativamente grande estava cheia. No dia 18 à tarde o mesmo espectáculo repetiu-se na cidade do Luxemburgo, no Casino Sindical de Bonnevoie (bairro da capital), também com a sala repleta.

Nesse Domingo à tarde tudo estava a correr bem. Mas eis que, inesperadamente, o espectáculo foi perturbado por um grupo de provocadores que, do fundo da sala, desafiaram o Zeca Afonso gritando “Eh Zeca, se tens tomates canta lá a Catarina”.

Chamava-se Catarina

Sem hesitar, o Zeca saltou para o palco e entoou “Chamava-se Catarina … …” e logo a agitação, no fundo da sala se desencadeou descontroladamente até que um assistente luxemburguês, talvez do comité de organização, ameaçou com a chegada da polícia, tendo os provocadores imediatamente abandonado o local. É sabido que os agentes e informadores da PIDE evitavam sempre as escaramuças com as autoridades locais.

Mais tarde, já no Luxemburgo, vim a saber que o Cônsul Português, Mendes Costa, foi visto no local, em visita relâmpago, certamente para controlar a situação.

Mendes Costa, defensor acérrimo do regime português, não suportava a difamação da ditadura fascista e ainda menos a condenação da guerra colonial. Activo colaborador da PIDE (senão membro), seguia atentamente tudo o que se fizesse no país e que, de perto ou de longe, tivesse a ver com Portugal.

Um exemplo, entre muitos

Em 1972 as Amizades Portugal-Luxembourg, associação de caracter social com tendência progressista religiosa que ajudava activamente os imigrantes  portugueses organizou, como em cada ano, a tradicional festa de Natal. O convidado de honra foi o padre Francisco Fanhais. O cantor da resistência antifascista apresentou-se vestido com uma camisa vermelha na qual estava imprimida a insígnia do Vietname do Norte e, entre outras, cantou algumas canções contra a guerra do Vietname.

Segundo informações, Portugal não estava directamente implicado, se bem que os textos fossem agressivos, mas generalizados. O Cônsul assistiu à festa e ouviu as canções de Francisco Fanhais sem emitir opiniões nem críticas. Pouco tempo depois os organizadores da festa receberam um protesto escrito da Embaixada de Bruxelas (na época o Luxemburgo não tinha Embaixada, mas unicamente Consulado). Alguns meses mais tarde soube-se que essa festa provocou muitos incómodos a Francisco Fanhais, em Potugal.

José Mário Branco e Gac

A cantiga é uma arma lançava José Mário Branco, em 1975 com o GAC. Só quem viveu e participou na luta pela liberdade poderá compreender o significado de uma tal canção.

Honrar a memória dos que já faleceram e encorajar a determinação daqueles que ainda, de voz bem alta, continuam a utilizar a CANÇÃO DE PROTESTO como forma de intervenção em conflitos sociais, reavivando a memória das lutas passadas, é o nosso dever de cidadãos, ávidos de paz e justiça social.

António L. Paiva

António L. Paiva na apresentação do livro Exílios