CANÇÃO DE PROTESTO E EXÍLIO | Tino, um outro estilo

SF | 20-09-2020 | Dossiê Canção de protesto e exílio | Hugo Castro e Ricardo Andrade compõem a duas mãos uma síntese do percurso e das opções estético-musicais de Tino Flores associando a produção musical a um comprometimento político e partidário claramente assumido pelo cantautor.

por Hugo Castro e Ricardo Andrade

O início da Guerra Colonial em 1961 intensificou o fluxo migratório de portugueses para França e para outros países europeus. Tal fenómeno deriva da recusa, por parte de vários jovens, em cumprir o serviço militar obrigatório, o qual implicava a possibilidade de mobilização para a guerra.

Este fator motiva o exílio de músicos como Luís Cília, José Mário Branco, Sérgio Godinho e Tino Flores, entre outros agentes culturais e artísticos, os quais exerceram uma parte substancial da sua atividade musical no âmbito da atividade de organizações que visavam a consciencialização política das comunidades de emigrantes portugueses na Europa, e principalmente em França.

Um reportório marcado pela diversidade

Participando na dinâmica contestatária que marcara a sociedade francesa na década de 1960 e que teve nos acontecimentos do Maio de 68 o seu período de maior expressão, os cantores portugueses em França assumiriam a partir desse momento um papel ainda mais ativo de intervenção cultural e política. Estimulados tanto pelas canções de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, entre outros, como pelo ambiente político e cultural que encontraram em França, a atividade destes músicos manifestou-se na criação de repertório assumidamente político e com várias referências diretas de denúncia e oposição ao regime ditatorial português e à Guerra Colonial. Este repertório espelhava igualmente a diversidade de usos de várias expressões musicais populares/tradicionais na sua configuração.

O percurso do Tino

A atração pelo maoísmo, decorrente do conflito sino-soviético, que teve em França uma expressão bastante evidente, foi percetível no percurso de músicos como Tino Flores, exilado em França desde 1967.

Envolvido em coletivos marxistas-leninistas que fervilhavam entre a comunidade portuguesa, Tino Flores participa ativamente nas atividades de organizações com forte empenho na ação cultural e política, tais como os núcleos de O Comunista e a Liga Portuguesa do Ensino e da Cultura Popular. Flores participa ainda em grupos de Teatro Operário que visavam encenar peças teatrais de explícito significado social e político dirigidas à emigração portuguesa.

Instrumentos panfletários

Toda a produção musical de Tino Flores no exílio acompanha progressivamente a atividade política e cultural destas organizações, e é neste contexto que vai criando canções que visavam ser instrumentos panfletários na luta contra o fascismo e a Guerra Colonial. Este aspeto é evidenciado nos seus fonogramas gravados no início da década de 1970,

três EPs de edição de autor intitulados Viva a revolução (1971), Organizado o povo é invencível (1972) e O povo em armas esmagará a burguesia (1973), os dois últimos gravados com o grupo Os Camaradas.

Para Tino Flores, a atividade musical seria uma extensão das formas de luta política que se iam desenvolvendo nas organizações a que pertencia, sendo as canções uma das faces visíveis dessa luta.

Um estilo próprio

As razões que motivam esta postura prendem-se com o seu descomprometimento em relação a expectativas de carreira artística e comercialização discográfica, e, simultaneamente, por considerar que estando radicado em França, as hipóteses de ser alvo da censura ou da perseguição policial estariam reduzidas. Esta perspetiva levou a que Flores se tivesse distanciado das características estilísticas da balada popularizada por José Afonso em prol de “soluções mais radicais”, segundo o próprio. De acordo com o músico, Flores procurou desenvolver um estilo próprio baseado na reconfiguração estilística de géneros musicais populares/tradicionais, em particular a chula e o malhão, enquanto expressões musicais por ele qualificadas como mais “alegres” e mais sintonizadas com o que entende ser a sensibilidade do povo. Para Flores, esta seria a forma mais eficaz para a comunicação da mensagem antifascista e de denúncia da ditadura e do colonialismo, apelando igualmente à insurreição armada e evocando a necessidade de construção do socialismo.

Hugo Castro e Ricardo Andrade

© foto CR-Caixamédia