CANÇÃO DE PROTESTO E EXÍLIO |O que contam as páginas do Alarme?

SF | 22-09-2020 | Dossiê Canção de Protesto e Exílio | Com a colaboração de Manuel Branco.

Manuel está sentado com os cotovelos apoiados numa das mesas mesmo à entrada do Café Central. Grenoble, a esta hora, é uma cidade tranquila. É ali que passa algum do seu tempo ao fim da tarde antes de regressar a casa ou de passar pela associação. Leva sempre com ele o jornal que é como a sua segunda pele: O Alarme. Quando passa um português, no passeio da frente, larga alto e bom som “Oh! Pá já tens o último Alarme?”.

Todos os conhecem naquela zona. Desde os 19 anos, idade que tinha em maio 68, que dedica todo o seu tempo livre a contatar com portugueses e a articular com os movimentos franceses da região iniciativas locais. A sua ideia é clara e pragmática: organizar todos aqueles que poderão contribuir para derrubar o regime fascista em Portugal e influenciar todas as organizações francesas com ideias negativas sobre o regime salazarista instalado há décadas no seu país de origem, para que elas façam eco da contestação internacional.

Apresentação de O Alarme

O jornal O Alarme constituiu uma ferramenta central nessa operação antifascista a partir de territórios gauleses. A publicação foi apresentada e analisada num trabalho conjunto de Isabel Travancas (da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Sónia Ferreira (da Universidade Nova de Lisboa) com o tema “Alarme!.. e Portugal Democrático – a imprensa portuguesa no exílio” em História da Comunicação.

O jormal é apresentado de forma mais exaustiva mas reproduzimos aqui apenas um excerto particularmente representativo:

“O Alarme!..” é uma publicação que começará de forma modesta em Grenoble, apresentando quatro páginas no seu primeiro número de Agosto de 1972, embora vendendo já 302 exemplares. Estas quatro páginas estender-se-ão até doze ao longo da sua existência, num projeto editorial que se estenderá a outros locais em França (Paris) e na Europa (Suécia, Luxemburgo, etc). Ao longo da sua existência o jornal apresentará um conjunto de rubricas permanentes como: “Notícias Gerais”; “Tu Sabias…”; “O Povo Escreve. Cartas Recebidas”; “Notícias de Portugal”; “O Que É Preciso Saber”; “A Guerra Colonial”; “Notícias da Região”; “Um Grupo de Mulheres Continua a Escrever-nos”; “Os Leitores Escrevem”, “Desporto”; “O Silva, o Zé e os seus problemas”; “Notícias de Portugal. O Povo em Luta”.

Estas rubricas têm oscilações, algumas desaparecem, outras são intermitentes mas de maneira geral vão ao encontro dos temas dominantes da publicação que são:

  • 1) as condições de trabalho dos trabalhadores emigrantes portugueses;
  • 2) notícias sobre Portugal, em particular sobre as lutas, greves e notícias sobre a Guerra Colonial e a luta anticolonial
  • 3) notícias sobre a vida associativa portuguesa na França;
  • 4) cartas dos leitores, poemas e testemunhos enviados para o jornal;
  • 5) informações práticas para os emigrantes sobre legislação francesa em termos de direitos laborais e sociais.

Sartre, o director

O jornal tem ainda número de depósito legal e um director francês, Jean-Paul Sartre, situação que decorre de uma ligação prévia a um militante local responsável pelo jornal Verité Rhones 84 Alpes30 (VRA) que sugere que O Alarme!.., para efeitos legais, surja como suplemento deste que é já um suplemento regional (Rhônes-Alpes) do La Cause du Peuple. J’Accuse ligado à Gauche Proletarienne. Todos os procedimentos ligados à produção do jornal assumiam contudo uma forma semiclandestina porque os seus produtores temiam a polícia política portuguesa que se encontrava bem implantada em França. Em termos de redação, esta era constituída no início por cinco pessoas (três mulheres e dois homens) sendo ampliada mais tarde. A identidade e o funcionamento da redação eram clandestinos, existindo uma compartimentação entre os seus membros. Nem todos sabiam, por exemplo, a localização da tipografia ou a identidade de outros colaboradores.

A venda e distribuição da publicação era feita em Grenoble e seus arredores (Chambery, Annecy, Moirans), em Lyon e Paris e mais tarde em Portugal, na Suíça, na Suécia, Dinamarca, Holanda e Luxemburgo e em toda a rede internacional ligada aos comités de desertores. Para além da venda direta, o custo do jornal era de um franco, existia ainda um sistema de assinaturas mas não existem dados oficiais quanto à tiragem.

Festas e eventos culturais

Manuel Branco recuperou dos conteúdos do jornal os eventos nele noticiados que se relacionam com a Canção de Protesto e o Exílio e adiantou-nos o seguinte:

“Nos inícios dos anos 70, Tino Flores veio a Grenoble várias vezes para animar a malta. As suas intervenções davam fôlego para continuar na luta contra a miséria, o analfabetismo, a ditadura e a guerra colonial. 

Assistência, Teatro e Tino Flores , 1972, sala Paul Bert , Grenoble

Mas o Tino animou a malta por toda a Europa. Ė  interessante ir buscar aos arquivos do jornal  « O Alarme » algumas notícias da época para percebermos melhor hoje, o que foi esse tempo de ontem.

Certamente estas datas vão avivar a memória de muita boa gente que assistiu a estas festas. Seria interessante que peguem nisto, digam “eu estava lá” e relatem o que viveram :

  • Maio de  1972  festa na Sala Paul Bert com umas 400 pessoas depois da apresentação da peça de teatro « Todos unidos tiramos o João da cadeia » realizada pelo Zé Carlos Godinho e Zé Carlos Perdigão, a partir de uma luta local. O Tino pede à malta para vir cantar e recordo a intervenção de uma avózinha que acabou com uns palavrões próprios à gente do norte, e um jovem que cantou uma canção sobre a deserção.
  • 13 de Janeiro de 1973 de novo uma festa em Saint Martin d’Hères e outra em  Annecy a 14 de Janeiro
  • 1 de julho de 1973 a Associação Portuguesa de Gentilly-Arcueil organiza com « Os camaradas » , grupo do Tino Flores uma festa para angariar fundos de apoio à luta dos pescadores de Matosinhos, a noticia diz que foram recolhidos 185,00 Frs
  • 2 de Novembro de 1973 o « Teatro Operário » do Helder Costa e o grupo « Os camaradas » do Tino Flores fazem uma festa na  na Dinamarca
  • 3 de Novembro de 1973 de novo « O teatro Operário » e « os camaradas » reúnem 300 pessoas numa festa na Suécia.
  • em Janeiro de 1974 , 400 pessoas assistem a uma festa organizada em Belleville de novo com o « Teatro Operário » e « Os camaradas »
  • 23 de Dezembro de 1973 é a inauguração  do Clube dos Trabalhadores do Centro de Paris com a presença de Carlos Nazaré, Zé Mario Branco e Tino Flores « Os camaradas » , assistem á festa 300 pessoas
  • 31 de Dezembro A Associação dos trabalhadores de Gentilly-Arcueil organiza uma festa com o « Teatro operário » de Issy les Moulineux
  • 2 de Fevereiro de 1974 , 250 pessoas assistem a uma festa organizada pelo Clube dos Trabalhadores do centro de Paris com o rancho folclórico de Francoville
  • 2 de Fevereiro de 1974 a sala Paul Bert em Saint Martin d’Hères foi pequena de mais para acolher 400 pessoas , o « Teatro Operário » « Os Pioneiros » e o Tino Flores com o seu grupo « Os camaradas ».                    

De Paris veio um grupo de mais de 20 pessoas e a solidariedade deu dormida e comida a toda essa gente que também foram solidários com  as deslocações e intervenções. Era assim nesses tempos de luta contra o fascismo e a guerra colonial .

Tino Flores, princípio dos anos 70, Sala Paul Bert, Grenoble

Fonte: Informação Alarme, Manuel Branco. Fotos © cedidas por Manuel Branco

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