ACOLHIMENTO |As questões do exílio e do acolhimento solidário são intemporais.

SEM FRONTEIRAS | 26 de outubro 2020 | Projeto #ECOS | SF – Entrevista Sónia Ferreira |A concretização de mais uma etapa do projeto europeu #ECOS, através da Conferência que se realiza hoje em Aahrus na Dinamarca, justifica a entrevista que realizámos à coordenadora da parceria europeia Sónia Ferreira.

O projeto que envolve várias entidades nacionais, mas também francesas e dinamarquesas, tem no CRIA-Centro em Rede de Investigação em Antropologia o seu coordenador e nada melhor que a investigadora do Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais (IHC/FCSH-UNL) para nos facultar uma informação substancial e organizada sobre o estado atual do projeto.

SEM FRONTEIRAS | SF – Na timeline do projeto #ECOS que papel desempenha o evento de Aahrus na construção dos resultados esperados do projeto?

Sónia Ferreira | SFA – O evento de Aarhus é o primeiro evento público do projecto #ECOS na Dinamarca. Tivemos, em 2020, outros eventos agendados que tiveram de ser cancelados devido à pandemia. Nesse sentido, o evento de Aarhus assinala três momentos importantes para o projecto naquele contexto.

  • Em primeiro lugar, a concretização de um evento com público presencial (embora também online) e que resulta de uma parceria com uma instituição pública local, o Dokk1, a grande biblioteca municipal da cidade. O que nos permite chegar a um público vasto e heterogéneo, apesar de estarmos conscientes de que algumas restrições serão impeditivas ao alcance de um grande número de participações.
  • Em segundo lugar, Aahrus é a cidade mais importante para a história do exílio português na Dinamarca e, nesse sentido, é para nós não só importante como muito gratificante poder levar esta história até ao público dinamarquês. Porque esta história não é apenas nossa, é também dos dinamarqueses.
  • Por fim, iremos neste evento promover um debate que trás para a actualidade as questões que o projecto pretende discutir. Assim, para além do filme que iremos exibir sobre o exílio português na Dinamarca e dos testemunhos que iremos apresentar, promover-se-à um debate alargado sobre o acolhimento a refugiados hoje em dia na Dinamarca e as políticas de asilo europeias.

Com a presença de ex-exilados políticos portugueses e actuais refugiados no país, queremos promover um debate sobre o passado estabelecendo pontes para o presente porque as questões do exílio  – da fuga, do acolhimento, da solidariedade – são intemporais.

Conferência no Dokk1
SF – A opção de animar a sessão a partir principalmente da visualização de um documentário espelha uma metodologia própria do projeto aquando da reunião de pessoas e entidades ou é circunstancial e específico desta iniciativa na Dinamarca?

SFA – O visionamento de filmes e a visualidade em geral é uma das dimensões de trabalho do projecto desde sempre. Trabalhamos, por vezes, a partir do visionamento de filmes mas também oferecemos um workshop de cinema e fichas pedagógicas que partem da visualidade (fotografias, filmes, reportagens televisivas, cartoons, etc) para promover debates e actividades pedagógicas várias. Neste caso, o filme é realizado e produzido pelo próprio projecto e surge da necessidade de dar a conhecer uma história menos conhecida do exílio português que foi a da sua presença na Dinamarca. O que apresentaremos nesta sessão é uma primeira versão do filme, já que a pandemia nos impediu de o concretizar como gostaríamos e, portanto, é ainda uma versão de trabalho.

SF – A ligação entre o acolhimento de exilados, no passado e na atualidade, que consta no programa da sessão de Aahrus, indica um previsível maior envolvimento futuro das entidades parceiras do projeto nos temas críticos, dos migrantes, refugiados, exilados dos nossos dias?

SFA – O projecto tem desde o início inscrita na sua proposta a necessidade de estabelecimento de uma correlação entre o exemplo histórico português, a história da Europa e os actuais debates na área das migrações. A opção de ter o público escolar como público-alvo torna ainda mais premente esta abordagem porque queremos trabalhar com os jovens temas que os possam atrair para processos de construção de uma cidadania activa e crítica, queremos discutir com eles as causas que os movem também hoje, promover diálogos intergeracionais e mostrar que há aqui questões que, independentemente da sua ocorrência temporal, são importantes e devem ser debatidas.

Aahrus – Dinamarca
SF – Qual é a próxima etapa do #Ecos em termos de sessões públicas ou de acesso público e quais serão os objetivos dessa iniciativa a realizar?

SFA – O #ECOS terá sessões em escolas a decorrer em simultâneo nos três países (Portugal, França e Dinamarca) no decurso do próximo ano lectivo. Para além das sessões em escolas está previsto um evento público, em Copenhaga, em Abril de 2021 e a Conferência Final do projecto, em Paris, em Outubro de 2021.

Sónia Ferreira

Doutorada em Antropologia pela FCSH-UNL é investigadora integrada do CRIA, investigadora colaboradora do Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais (IHC/FCSH-UNL) e “membre associé” da Unité de Recherche Migrations et Société (Univ. Paris-Diderot) onde co-coordena o Groupe de Travail sur les Migrations Lusophones.