ACOLHIMENTO |Um trabalho horizontal, livre, solidário e benévolo.

SEM FRONTEIRAS | 28 de outubro 2020 |Dossiê ACOLHIMENTO | A chegada, a vida ao quotidiano, as relações com um contexto totalmente desconhecido, a sujeição às imposições, as dificuldades na revolta, mas também a abertura institucional local, a militância, a solidariedade. Isto tudo atravessa o desenho da comunidade portuguesa em Grenoble nos anos 50-70 do século passado produzido Manuel Branco com um lápis a carvão de um militante que não se cansa. Tempos vividos na primeira pessoa.

por Manuel Branco

Foi a partir dos anos 60 do século passado que um forte contingente de imigrantes portugueses chegou a Grenoble, nessa altura uma cidade de 80.000 habitantes. 

Em Janeiro de 1964 a cidade é escolhida para organizar os Jogos Olímpicos de Inverno de 1968 (de 6 a 18 de Fevereiro) e começa então uma maratona para realizar, entre outros, alojamentos, estádios, pistas e infra-estruturas. A tarefa é gigantesca e as empresas de construção civil tem muita falta de mão de obra. 

Informação circula nas aldeias

De início ainda começam por procurar na região, para os lados de Lyon e Saint Étienne, mas não chega. Foi preciso procurar em Portugal. A informação circula como um rasto de pólvora sobretudo nas aldeias. Criam-se autênticas redes informais, entre amigos e familiares. Em Portugal sabe-se que há muita necessidade de trabalhadores e que pagam bem, tendo por comparação os salários de miséria que as empresas portuguesas, no período do regime fascista, proporcionavam. 

Village Olympique em construção

Os portugueses começam a chegar vindos sobretudo das proximidades de Guimarães, Braga e Pevidém.

O governo francês precisa desta força de trabalho e fecha os olhos, o governo português abre os olhos para as divisas que pode recuperar e que tanto precisa para continuar o esforço da guerra colonial em Africa.

Começam por ser umas dezenas que passam a centenas e, muito rapidamente, a milhares. Na região Rhône-Alpes em 1968 já estavam recenseados 23.058 portugueses. 

Nos primeiros anos esta imigração clandestina era composta essencialmente por homens. As mulheres começam a chegar à medida que aqueles dispunham de um alojamento. A maior parte destes portugueses recém-chegados, em Portugal, trabalhava na agricultura. Muitos eram analfabetos. Importa não esquecer que em Portugal, esta era a situação de 25,7% da população com mais de 10 anos. Sem dificuldade adaptam-se às obras da construção civil.

Mulher de limpeza, foto © Aurora de Sousa

Muitos jovens depois de terem cumprido o serviço militar em Africa chegam à terra e não tendo trabalho são empurrados para terras de França. Começam a chegar também alguns jovens estudantes que se recusam a fazer a guerra em Africa. São estes que vão mais tarde impulsionar um trabalho associativo e um militantismo de consciencialização.  

Militantismo de conscientização

Nessa altura em Grenoble empresas como a Pascal, Dalberto, Reydel e outras  empregam todos quantos chegam. Começam a trabalhar sem papéis, como se dizia na altura, o que é sinónimo de não terem Carta de Séjour (autorização para residir em França). Esta situação dá origem a uma fragilidade e insegurança que vai de par com o aceitar tudo e não reivindicar nada.

Algumas empresas forneciam umas barracas onde estes trabalhadores eram alojados. Foi o caso das então chamadas barracas Pascal em Saint Martin d’Hères.(SMH) . Tive a oportunidade de ir várias vezes a estas barracas e posso afirmar que os trabalhadores viviam em péssimas condições, vários no mesmo quarto, raros chuveiros e sanitas onde era necessário esperar pela vez, uma bateria de lavatórios, lençóis e cobertores que eram mudados com pouca frequência.

Saiam cedo e chegavam tarde para dormir, trabalhavam aos sábados, não tinham tempo para outra coisa que não fosse trabalhar.

Um guarda vigiava as nossas entradas e saídas e tentava evitar o contacto com esses trabalhadores. Não longe destas barracas na avenida Gabriel Péri em SMH, onde hoje existe a Clínica Belledonne, um bidonville de barracas de madeira e materiais de recuperação oferecia ainda piores condições. Ainda em SMH (Saint Martin d’Hères), nas barracas Barraci, onde hoje é o Campus Universitário, os trabalhadores viviam sem condições sanitárias, por vezes à chuva e sempre ao frio. No final dos anos 60 Grenoble não era como hoje, nevava muito e os invernos eram mais frios.

César vende no Mercado da Abbaye foto © Aurora de Sousa

Uma situação precária

E assim as construções e infraestruturas para os Jogos Olímpicos iam avançando. Muitos horas extras assim como sábados trabalhados não eram pagos. A situação era precária mas, ao mesmo tempo, era difícil fazer compreender a alguém que vinha duma situação de miséria e obscurantismo que era necessário revoltar-se.

Na comunidade portuguesa entre membros da mesma família e da mesma aldeia pratica-se uma solidariedade que substitui a ajuda administrativa que não encontram. Muitos vão dormindo e comendo em casa de familiares ou amigos enquanto procuram um alojamento.

  “Vai apontando num papel que eu logo que arranje trabalho e casa pago tudo”

dizia um amigo que comia em casa do Pedrinhas, uma família com 11 filhos mas sempre solidária. Eram tempos de solidariedade não só entre portugueses mas também entre comunidades. 

Mais tarde já com os trabalhos dos Jogos Olímpicos acabados, Hubert Dubedout Presidente da Câmara de Grenoble compreendeu que era necessário receber com dignidade todos quantos vinham trabalhar e enriquecer Grenoble e a sua região. Apoiado por homens e mulheres progressistas com visão, espirito solidário e humanismo como, Denise Belot, Albano Cordeiro, Bernard Gilmain, Lucienne Laurens, Raymond Gensburger, Georges Boulloud, Jean Verlhac, Bernard Montergnole, Laforêt, Brigitte Lefebvre, Monique Mignotte, entre outros, decide criar um organismo para apoiar os trabalhadores imigrados.  Estamos em 1970 e é criada a ODTI (Office Dauphinois des Travailleurs Immigrés).

Hubert Dubedout, ex-Maire de Grenoble

ODTI abriu portas aos militantes

Esta associação tem um Conselho de Administração composto por cidadãos franceses mas decide aplicar as sugestões de um Conselho de Gestão formado por imigrantes ou representantes do mundo associativo imigrante. Este tipo de funcionamento, talvez único em França nesta altura, abre grandes perspectivas para os militantes mais activos e os jovens desertores portugueses decidem investir-se neste trabalho.

Na ODTI passam portugueses, argelinos, marroquinos, turcos, tunisinos, espanhóis, a solidariedade é total e varias iniciativas vão respondendo ao pedido dos trabalhadores ;

  • permanências em varias línguas, 
  • ajuda para procurar trabalho e casa,
  • ajuda para procurar resolver problemas amigavelmente ou junto dos tribunais de trabalho (Tribunal des Prud’hommes) quando necessário, com juristas a apoiar este trabalho,
  • tradução de documentos para obter a autorização de residência (Carte de Séjour) e de trabalho (Carte de Travail), uma convenção entre o Governo Civil (Préfecture) e a ODTI permite legalizar estas traduções,
  • acompanhamento com tradutores junto dos serviços como a Segurança Social, a Caixa do Abono de Família, os médicos, as agências de aluguer de casas, entre outros.
  • um grupo de assistentes sociais oferece toda a sua competência e disponibilidade.

O que havia de melhor de homens e mulheres nas diferentes comunidades desenvolve um trabalho horizontal completamente livre, solidário e benévolo.

José Pereira, militante activo, foto © Aurora de Sousa

Pouco a pouco os trabalhadores em dificuldade, ou que iam chegando, são informados que na rua Très Cloîtres alguém os pode receber e ajudar. 

Nova vaga de imigração

Hoje Grenoble tem 160.000 habitantes e a região não possui uma oferta de trabalho como teve nos anos 60/70. Conflitos militares em Africa e no Médio Oriente estão na origem de um importante número de migrantes sírios, turcos, libaneses, iraquianos, costa-marfinenses, malianos e senegaleses que vão chegando a par de  albaneses e romenos. Continuam a chegar alguns Portugueses, agora com uma maior formação profissional.

Em Grenoble continuam a existir boas vontades e associações que procuram dar apoio a estes migrantes mas sem trabalho é difícil pagar um aluguer de casa e um mínimo de sustentação. A maioria dos apoios são institucionais, mas estes apoios não permitem completamente uma integração na vida social, económica, associativa, laboral. 

A ODTI fez este ano 50 anos e continuará a existir respeitando o artigo 4 dos seus estatutos iniciais ” a associação acabará as suas actividades quando a igualdade entre os trabalhadores imigrantes e os trabalhadores franceses for efectiva”.

Manuel Branco, Grenoble

Fotos ©Aurora de Sousa e publicações locais não-identificadas. Ilustração, Migrante com casa ás costas de Manuel Branco