ACOLHIMENTO | Em tempos de crise, o Outro como expiação.

SEM FRONTEIRAS | 4 de novembro 2020 | Acolhimento | Decidimos percorrer tempos e territórios para caraterizar e eventualmente avaliar os processos de acolhimento de migrantes no passado e no presente, tenham eles sido exilados, desertores, refratários ou imigrantes nos anos 60-70 ou refugiados, exilados ou novos imigrantes nos tempos atuais.

Fazer incidir o foco em Portugal e de forma mais fina sobre um grupo específico de migrantes, como é o caso da migração feminina brasileira, constitui um esforço de aprofundamento particularmente meritório. A sorte é ter quem o faça, neste caso a Camila Craveiro Queiroz, a partir dos referenciais da academia mas também de ângulos e olhares ainda mais finos e acutilantes habilitados pelo arsenal analítico da Comunicação.

Em tempos de crise, o Outro como expiação.

por Camila Craveiro Queiroz*

Recordo-me de um artigo de opinião que redigi, ainda em 2016, acerca da inserção das migrantes brasileiras no mercado laboral português. Eu era recém-chegada à Lisboa, onde investigava a migração feminina brasileira em Portugal, e lembro-me de ficar surpresa com a maneira com que as qualificações e competências desse grupo eram constantemente postas à prova – parecia que o que sabíamos fazer profissionalmente ou nosso conhecimento científico eram questionados e mesmo invalidados pela nossa nacionalidade.

Na minha percepção, aquele que, no imaginário social, se configurava como país-irmão do Brasil, abria, quando muito, as portas dos fundos para nos receber.

Munida dos estudos que caracterizam a perspectiva descolonial, dei-me conta de que o ranço colonial insistia (ou melhor, insiste) em nos qualificar a partir de uma diferença ontológica, que nos diz que somos menos civilizadas, culturalmente atrasadas, moralmente inferiores, cujos “corpos coloniais” (Gomes, 2013) estão disponíveis para o uso, seja em trabalhos pesados ou sexualmente. Pesam, sobremaneira, para o gênero feminino, neste contexto migratório, os estereótipos da submissão e da hipersexualização, que não raramente associam a brasileira à prostituição.

Os estranhos

A cisão entre os grupos, autóctones versus imigrantes, nos categoriza enquanto o Outro a ser vigiado, questionado, evitado, nos mais diversos espaços sociais. Em obra póstuma, Bauman (2017, posição 84) analisa o sentimento que migrantes e refugiados despertam nas sociedades de acolhida:

“Estranhos tendem a causar ansiedade por serem diferentes – e, assim, assustadoramente imprevisíveis, ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar. Pelo que conhecemos, o influxo maciço de estranhos pode ser o responsável pela destruição das coisas que apreciávamos, e sua intenção é desfigurar ou abolir nosso modo de vida confortavelmente convencional.”

Muros pichados com dizeres racistas

A recente onda de manifestações xenofóbicas em universidades e escolas portuguesas, que tiveram seus muros pichados com dizeres racistas, bem como os protestos de universitários/as brasileiros/as ofendidos/as em redes sociais por colegas e (pasmem!) professores/as, deixam claro que o agravamento da crise económica, potencializada pela pandemia que nos aflige, acirra o preconceito e vulnerabiliza ainda mais as minorias.

Infelizmente, esse é um fenómeno que está longe de ser circunscrito às relações portugueses/as-brasileiros/as, e que pode ser percebido nas interações entre o sul e o norte global (uma definição muito mais qualitativa do que geográfica). O Brasil, por exemplo, assolado por uma grave crise económica e social e governado pela extrema-direita, que não se escusa de apontar como inimigos migrantes indesejáveis, tem manifestado episódios recorrentes de discriminação aos migrantes venezuelanos e haitianos residentes no país.

Ainda, de acordo com Bauman:

“(…) Não admira que as sucessivas ondas de novos imigrantes sejam percebidas com ressentimento como (recordando Bertolt Brecht) precursores de más notícias. Eles são personificações do colapso da ordem (o que quer que consideremos a ordem: um estado de coisas em que as relações entre causas e efeitos são estáveis e, portanto, compreensíveis e previsíveis, permitindo aos que fazem parte dela saber como proceder), de uma ordem que perdeu sua força impositiva.” (Bauman, 2017, posição 145).

É justamente na atualidade do colapso da ordem que Brasil e Portugal se aproximam e podem, neste contexto, ressentidos e preconceituosos, ser considerados países-irmãos.

Camila Craveiro Queiroz.

Bauman, Z. (2017). Estranhos à nossa porta. [Kindle version]. Retirado de http://www.amazon.com

Gomes, M. (2013). O Imaginário Social <Mulher Brasileira> em Portugal: Uma Análise da Construção de Saberes, das Relações de Poder e dos Modos de Subjetivação. Tese de Doutoramento em Sociologia, ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa. Retirado de https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/6077

*Nota biográfica:

Camila Craveiro Queiroz.

Publicitária, professora e investigadora da área de Comunicação Social. Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, tendo feito parte do Programa de Doutorado Pleno no Exterior da CAPES, onde defendeu a tese “Os estereótipos também envelhecem? Uma análise descolonial das intersecções entre racismo, sexismo e idadismo, a partir das vivências de migrantes brasileiras em Portugal”.