ACOLHIMENTO | Holanda, o caçaroleiro do Hilton

SEM FRONTEIRAS | 14 de novembro de 2020 | ACOLHIMENTO | Holanda

Ir à descoberta dos processos e dos meios de acolhimento de exilados, desertores, refractários e imigrantes na Holanda, nos anos 60-70 do século passado, guiados pela mão do Carlos Neves que nos leva até Amsterdão, para o bem e para o mal, vale a pena segui-lo porque o périplo termina em Santa Apolónia.

por Carlos Neves*

O sonho holandês

A informação que tinha era de amigos que trabalhavam na TAP, viajavam com regularidade falavam-me da Holanda e diziam maravilhas. Bom sistema de saúde e de educação, fácil arranjar emprego, um bem-estar social consolidado e uma sociedade mais humana. Nas ruas holandesas grandes manifestações sobre os mais variados interesses. Uma liberdade que um jovem, que não a tinha no seu país, sonhava.

Não saí de Portugal a salto, fui de avião. Ao meu lado um jovem holandês tentou falar comigo em inglês e francês, mas eu não sabia línguas. O holandês tinha estado em Portugal durante 3 meses e conhecia o suficiente da língua portuguesa para mantermos uma conversa. Era um bom falante. Na conversa, disse-lhe inocentemente que estava a fugir da Guerra Colonial. Esta confissão salvou-me, foi graças ao meu amigo holandês que as portas da Holanda se abriram.

O holandês anónimo

Chegámos ao aeroporto de Schiphol. Na mochila levava 1.200$00, valor muito insuficiente para entrar na Holanda . Ainda por cima eu só tinha bilhete de ida. Não me carimbaram o passaporte. Sem falar línguas senti-me perdido. Tentei explicar que o regresso seria de comboio. A polícia estava inflexível. O amigo holandês veio em meu socorro. Dos seus quase 2 metros, abriu o vozeirão e disparou para os meus interlocutores várias afirmações categóricas. Mais tarde, ele traduziu-me o que lhas disse. Nunca soube o seu nome

O meu salvador nesta situação crítica declarou à polícia do aeroporto que estava a regressar de um país fascista onde nunca lhe levantaram problemas e que sempre andou livremente pelo país.

Adiantou, entre outras coisas, que não percebia que na Holanda, um baluarte das liberdades e da social-democracia, tivesse barreiras piores que o fascismo.

Sei que a conversa foi longa. Por fim, ele assinou um papel no qual declarava responsabilizar-se por mim. Entrámos os dois na Holanda. Pedi-lhe a morada. Era de Roterdão. Procurei-o mas nunca o encontrei.

A propaganda do Rui Alberto

Foi assim que entrei na Holanda. Inexperiente, sem saber línguas e quase sem dinheiro. Era filho único e tinha beneficiado de todos os cuidados da mãe. Tinha um saco e uma mochila e verti algumas lágrimas. Foi uma tropa sem farda e sem armas.

Em Amesterdão a primeira noite passei-a num albergue. No dia seguinte fui à única morada que levava de Lisboa onde uma família acolheu-me duas semanas. Conheci o Sr. Pereira, velho militante do PCP que por sua vez me apresentou ao Rui Alberto o seu líder local. Na casa do Rui Alberto vivi mais duas ou três semanas. Enchi-me de propaganda da URSS.

O esquema da Van Tiel

Na fábrica onde o Sr. Pereira trabalhava consegui um emprego. Tratava-se da fábrica de tecidos Van Tiel. Foram 2 meses de trabalho mas logo a seguir surgiu o despedimento. O esquema da empresa assentava num período à experiência de dois meses com o trabalhador contratado a ganhar metade do salário e a ser despedido para entrarem outros, também à experiência. Para manter a aparência a fabrica tinha ¼ de efectivos.

Entretanto já frequentava o ponto de encontro dos portugueses, Associação Resistência e Trabalho. Começo a conhecer gente nova, muitos emigrantes e alguns como eu, exilados. Conheci o Rui Mota e abriram-se outros caminhos.

Vida de esfregona

Tinha urgência em resolver os problemas da habitação e do trabalho, integrar a sociedade e aproximar-me das instituições. Mas as ilusões deste país maravilha, do sonho holandês iam caindo. Depois de ter autorização de permanência no país passada pela Polícia de Estrangeiros, fui ao Arbeidsbureau (Centro de Emprego).

Vaidoso com o meu diploma de um Curso Técnico de Serralheiro Mecânico estava convencido que um emprego nesta área estava garantido.

Tanta ingenuidade e ilusão. Arranjaram-me emprego nas limpezas, uma esfregona e um balde a começar às 5h da manhã até às 8h ou 9h. Companhias de seguros, bancos, empresas, todas eram passadas à esfregona. Estes eram os empregos para estrangeiros. Não era esta a social-democracia que eu ouvia falar.

À hora a que terminava o trabalho nada acontecia, o frio da manhã era duro, algumas vezes refugiava-me nas igrejas que estavam aquecidas, lia e dormitava, à espera da tarde para me juntar à malta.

Engraxador e bagageiro

Onde trabalhei mais tempo foi como Gevelreiniging (limpar com jatos de água à pressão as fachadas dos prédios). As paredes dos edifícios são em tijolos que ficam escuros com o tempo e com a poluição. Passei mais de um ano em cima de andaimes, vestido com grossos impermeáveis e botas de borracha, a esfregar com ácido e depois com água à pressão para deixar as tijoleiras dos prédios mais limpas. Em Amsterdão todas as casas são de tijoleiras.

Mas o meu último emprego foi no Hotel Hilton, fui engraxador e bagageiro em horário nocturno. Além de transportar bagagens também engraxava os sapatos dos clientes. Depois fui para a limpeza da cozinha e passei a caçaroleiro. Horário diurno, muito melhor. Panelas, cobres e caçarolas, tinha uma arte para os deixar a brilhar.

Começava a trabalhar às 7h da manhã e ouvia sempre as notícias em Francês vindas da Bélgica.

O Bureau do Blanke

Quando cheguei, em setembro de 1971, existiam organizações que nos apoiavam. O Angola Comité apoiava a luta dos movimentos MPLA, FRELIMO e PAIGC em ações na denúncia da Guerra Colonial. Desenvolvia uma grande ação no boicote aos produtos vinham das colónias, em especial o Café de Angola. Recebia e apoiava desertores e refractários, que chegavam para o exílio, na defesa dos seus direitos na sociedade holandesa. Ajudava na procura de alojamento e trabalho, apoio legal, idas à polícia de estrangeiros e apoios sociais.

Nunca conseguimos o estatuto de exilados políticos, mas sim autorização de permanência ao abrigo de razões humanitárias.

Também conhecido como o Bureau do Blanke (nome do funcionário), a Amnistia Internacional e outras organizações criaram um gabinete que dava grande apoio na legalização dos refugiados que chegavam. Apoio jurídico com a documentação enviada à polícia a justificar o pedido de permanência e apoiava com algum dinheiro até se conseguir trabalho.

Comité de desertores

Mas havia a necessidade de criar uma estrutura específica para a defesa dos desertores e refractários da Guerra Colonial. Foi então criado o Comité de Refugiados Portugueses na Holanda, o nosso Comité de Desertores com o boletim “DESERÇÃO”.

Aconteceu em 1972, tendo sido um primeiro grande apoio na Holanda para outros, como eu, que fugiam à guerra. Outros Comités já existiam na Suécia, Dinamarca, Bélgica e França.

O Comité de Desertores passou a ser um ponto de encontro, de debates, de visionamento de filmes, de convívios e de jantares. Foram organizadas várias ações, coordenadas com organizações holandesas, de denúncia da Guerra Colonial, sobre o assassinato de Amílcar Cabral e sobre os boicotes às empresas que comercializavam produtos das colónias. Quando equipas de futebol portuguesas jogavam e o jogo era transmitido para Portugal, fazíamos grandes cartazes que tentávamos colocar em pontos estratégicos para as câmaras apanharem e nossa mensagem e fazê-la chegar a Portugal. Todas as oportunidades eram espaço para fazer denúncia da Guerra Colonial e do fascismo.

Em 1974, com outros refratários falávamos em vir para Portugal, fazer o serviço militar e no momento do embarque para a Guerra Colonial, desertar e tentar fazê-lo com outros soldados. Era assim a nossa luta contra a Guerra e o fascismo: Agitar, Mobilizar e Desertar.

Rádio belga em Abril

Por ser em francês ouvia sempre a rádio belga quando me preparava para ir trabalhar.

No dia 25 de Abril de 1974, passava das 6h da manhã, ouvi, coup d’état au Portugal. Pareceu-me impossível. Mil dúvidas, outros tantos sorrisos. Quando cheguei ao hotel, já com os outros portugueses, questionei o que tinha ouvido. Ninguém sabia de nada. Fiquei ansioso para que o dia de trabalho terminasse e chegar ao Comité para saber o que se passava.

As primeiras imagens que vimos suscitaram grandes dúvidas. Achávamos que tinha sido um golpe de direita. Aqueles militares, alguns conhecidos por serem fascistas, com óculos escuros a recordarem-nos as Juntas Militares da América Latina. Também afirmavam que eram uma Junta. Bem, a coisa não podia ser boa. Sabíamos dos movimentos de militares ultraconservadores contra Marcelo Caetano por este ser muito liberal e as tentativas de Kaúlza e de Spínola quererem fazer uma guerra mais limpa com uma intensa tática de extermínio.

Ver Spínola naquela Junta só podia ser mais fascismo. Longe de mim pensar que o golpe tinha o sinal contrário.

À medida que fomos conhecendo a evolução da revolta sentimos que o nosso regresso a Portugal estava iminente. O povo estava na rua, os apelos da Junta Salvação Nacional foram rapidamente ultrapassados.

Felizmente estava errado e em Junho de 1974 cheguei a Santa Apolónia.

Foi o fim do exílio.

Carlos Neves

Ex-exilado na Holanda. Vice-Presidente da AEP61-74 – Associação de Exilados Políticos Portugueses

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