TRIBUNA SF |Cartas e malabarismos de promitentes informadores

Candidatos a informadores da PIDE em Portugal durante a ditadura

por Irene Pimentel, historiadora | Editado CR-SF, título e subtítulos

Ao longo dos anos, várias pessoas tentaram ser informadores da PIDE/DGS, que, porém, nem sempre aceitou essas candidaturas. Numa carta enviada à então PVDE, em 1945, um proprietário, residente em Olivais-Coimbra, ofereceu-se para ser «prestável à nação», «sem qualquer dispêndio à fazenda nacional», simplesmente para estar ocupado, pois aborrecia-se em casa. A PVDE de Coimbra informou, porém, em 26 de Fevereiro, que a «parte moral» desse indivíduo era «péssima» e que ele tinha sido ouvido a murmurar contra a situação, pelo que não merecia confiança.

Ex-padre de 72 anos

Anos, mais tarde, em Fevereiro de 1960, um «ex-padre de 72 anos, que abandonou por falta de vocação sacerdócio» e era então apontador de obras ao serviço no Comissariado do Desemprego, com subsídio mensal de 480$00, disse, junto do ministério do Interior, estar «disposto a cooperar com a PIDE», mas não foi aceite, devido à avançada idade e ao pouco interesse que representava.

To be or not to be

No ano seguinte, um indivíduo com 25 anos, de Torres Novas, escreveu ao Presidente da República e ao ministério do Interior a queixar-se de ser desprezado pelos conterrâneos, por querer defender a nação, tendo todos deixado de lhe falar e os patrões de lhe dar trabalho, ao saberem que «tratava de assuntos de querer defender o Estado». Acrescentou ainda que havia, na sua região, muitos comunistas, aos quais os patrões «faziam o jeito», enquanto, por seu turno, as pessoas da situação achavam estranho que nada recebesse, em troca dos serviços prestados à PIDE Houve que se diziam informadores da PIDE sem o serem.

Homero, o director

Por isso, em 12 de Março de 1962, o director da PIDE, Homero de Matos informou o ministério do Interior, de que muitos indivíduos eram «apodados de informadores desta polícia sem que na verdade a ela prestem qualquer colaboração». Acrescentou que qualquer indivíduo conhecido ou apontado como tal, deixava de «reunir condições de poder ser aproveitado para colaborador» da PIDE.

O desmascarado

Dois dias depois, esta polícia recusou os préstimos de um informador, que não guardava «a conveniência de se não desmascarar perante o inimigo» e «mostrava-se na presença de outros, como disse, elemento afecto ao Estado».

Servir Deus e a Pátria

Outro indivíduo também foi recusado como informador, por não estar relacionado, com os meios oposicionistas e um padre, de Barcelos, que queria, ao mesmo tempo, servir Deus e a Pátria e pedira para ingressar na PIDE, sem prejuízo das suas «obrigações de clérigo», também não foi aceite por ser demasiado novo e ter «temperamento arrebatado».

Legionários informadores

Em Abril de 1963, a PIDE respondeu ao ministério do Interior acerca de três trabalhadores desempregados de Aljustrel, «simpatizantes das instituições», que se haviam candidatado a servir essa polícia, considerando que eles não eram úteis, por serem considerados, «no meio oposicionista, como informadores desta Policia, pelo facto de serem legionários».

O inspector não gosta de mim

Em Junho, outro indivíduo de Lomba/Amarante escreveu, de novo, ao Presidente da República e ao ministério do Interior, a oferecer-se como informador da PIDE, esclarecendo que já prestava informações ao inspector Manuel Figueiredo do Porto, o qual, porém, não gostava dele. O chefe de gabinete do ministério do Interior, António Paisana, informou a Presidência da República que aquele indivíduo não oferecia qualquer interesse, pois era do tipo de colaboradores que pretendiam apenas exibir o crachat da polícia.

O cartão da autoridade

Este não foi, porém, caso único, como se pode ver por uma carta da PIDE, em 7 de Outubro, a denunciar «mais um dos que pretendem um cartão de autoridade, para exibição e actuação, o que não é possível atender, não só por ser ilegal como pelos inconvenientes que disso poderiam resultar». Dias antes, a PIDE queixara-se à tutela de que um operário que pedira para ser “colaborador” dessa polícia, até então não prestara qualquer informação.

Candidato a “bufo”

A outra pessoa, de Santiago do Cacém, a PIDE também respondeu que não servia para informador. A mesma decisão também foi tomada relativamente a um candidato a “bufo”, da Caixa Geral de Depósito de Vila de Frades, e a um morador em Caxias, que tinha escrito a Salazar, dizendo que se poderia infiltrar no PCP. Acerca deste caso, a PIDE informou que a técnica «de penetração» no PCP era diferente da que ele «ingenuamente» imaginava, pelo que não oferecia possibilidade de qualquer colaboração útil.

Geografia (incompleta) da delação

No seu arquivo, a PIDE guardou, numa pasta, diversos cartas e postais, a maioria de autoria anónima, enviados aos vários ministérios, à Presidência do Conselho e ao Chefe do Estado, e depois remetidas para essa polícia, a oferecerem-se para colaboradores e informadores dessa polícia. Entre os locais de origem das cartas contaram-se, em 1965, o Fundão, Barreiro, Sesimbra, Cova da Piedade, Almada, Castelo Branco, Vila Franca de Xira, Cabeceiras de Basto, Macieira de Lixa, Lisboa, Lousada-Régua, Funchal e Marco de Canavezes. Desta localidade, refira-se também, entre as várias cartas enviadas ao ministério do Interior, uma, de 1 de Julho de 1965, de um indivíduo «pobre mas sincero», dirigida inicialmente ao Presidente da República, a pedir «um cartão da PIDE para prender aqueles que falam contra o governo».

O guarda-livros de Torres Novas

Em Janeiro desse ano, um ajudante de guarda-livros de Torres Novas, com a 4.ª classe, escreveu ao ministério do Interior a dizer que gostava muito de fazer parte «das autoridades da PIDE», embora pedisse para a resposta não ser remetida por essa polícia, pois ali todos o conheciam e tinham «uma raiva enorme a esta autoridade e à nossa Constituição política, e assim passava despercebido».

O casal de Vila Real de Santo António

Em Março, um jovem casal de Vila Real de Santo António, cuja mulher era professora do ensino primário oficial, pediu «mui respeitosamente», ao ministro, para os dois serem admitidos como informadores da PIDE, pois que o seu maior desejo era colaborarem «para a defesa do Estado Novo». Dado que a PIDE nada apurou em desabono dos dois, é possível que tenham sido recrutados.

O legionário de Cardal do Douro

Outros dois jovens, respectivamente de 18 e 23 anos, trabalhadores das OGMA, em Alverca, escreveram ao mesmo ministério a dizer que gostavam de ser «informadores civis» da PIDE, relativamente a «casos políticos». De novo, esta polícia considerou que nada constava em seu desabono. A mesma resposta foi dada pela PIDE a um pedido de um «legionário» de Cardal do Douro, que, em Julho, «vinha continuar a oferecer» os seus serviços e pedir o favor de ser auxiliado, pois tinha sido «muito perseguido pelos contrários», que o estavam a prejudicar e só não o tinham «liquidado, por medo».

O candidato do sanatório

Em Dezembro de 1965, a PIDE respondeu negativamente a um desempregado, internado, com silicose, no sanatório da Guarda, o qual pedira, numa carta muito mal escrita, para «ser um informador para a guarda Pide para ver se ao menos ganhava para comprar uma fogaça e pão» (sic).

O falso-amigo dos emigrantes

No ano seguinte, um operário da Base Aérea de Alverca escreveu ao Presidente da República, Américo Tomás, a oferecer-se para a PIDE ou para trabalhar a Companhia de Lapidação de Diamantes de Angola. Dois anos depois, um detido em Cantanhede declarou, em carta ao ministério do Interior, já ter prestado colaboração à PIDE, mas esta negou o facto, pois que se tratava de um delinquente, várias vezes preso, que inclusive tinha recebido indevidamente dinheiro de emigrantes invocando, para tal fim, a falsa qualidade de agente dessa polícia.

O operário do Amoníaco

Outro indivíduo, de Estarreja, escreveu, em 1967, ao ministro do Interior, a dizer que era membro da UN e informador da PIDE e, por isso, alvo de mal-intencionados dessa vila, pelo que pedia para ingressar como «auxiliar e vigilante na PIDE». Sobre este indivíduo, que tinha escrito, cinco anos antes, a pedir a intervenção da PIDE, em Estarreja, onde haveria «uma grande rede comunista», esta polícia informou a tutela que ele apenas era filiado na UN e um modesto operário do Amoníaco Português, que, em tempos, sofrera uma pancada na cabeça, que lhe provocara «perturbações mentais».

Os 36 anos sem receitas

Quase à beira do 25 de Abril de 1974, dois desempregados pediram ao ministro do Interior, que olhasse por eles. O primeiro disse ter passado «36 anos na vida de informações e sem nunca receber qualquer receita do Estado», enquanto o outro, de Lousada-Godim-Régua ofereceu-se para ingressar na DGS, mas esta respondeu que não oferecia «condições a esta Polícia com vista a qualquer colaboração remunerada».

O padre de Chaves

Após 25 de Abril de 1974, os jornais denunciaram diversos indivíduos que se tinham oferecido para colaborar com a PIDE/DGS, sem serem aceites por esta polícia. Dois dos casos foram, por exemplo, o de um elemento da Direcção Geral do Serviços Pecuários, e de um comerciante de Felgueiras. Entre outros candidatos a informadores da PIDE/DGS, cujas idades oscilaram entre os 32 e os 59 anos, contaram-se ainda um padre de Chaves, que se propôs denunciar emigrantes clandestinos, um jornaleiro de Amarante, um caixeiro-viajante do Porto, que se ofereceu em 1963, e um oficial de diligências do tribunal de Vila do Conde, que se propôs trabalhar para a PIDE/DGS em 1969.

Caracterização dos informadores

Através de uma recolha feita na imprensa portuguesa nos meses após o 25 de Abril de 1974, sobre os informadores da DGS presos, recolheu-se um pequeníssimo universo de 361 elementos, dos quais 8 mulheres.

Idade dos informadores

  • Idades Indivíduos
  • Entre os 20 e 30 anos 21
  • Entre os 31 e 40 anos 34
  • Entre os 41 e 50 anos 50
  • Entre os 51 e 60 anos 43
  • Entre os 61 e 75 anos 28
  • Total 176

Naturalidade dos informadores

  • Minho 16
  • Trás-os-Montes 2
  • Douro litoral 37
  • Beira Alta 3
  • Beira Baixa 9
  • Beira Litoral 61
  • Estremadura 83
  • Ribatejo 7
  • Alto Alentejo 4
  • Baixo Alentejo 1
  • Algarve 4

Algumas profissões de informadores

  • Comerciantes 4
  • Ajudantes e aprendizes 4
  • Vendedores de automóveis 4
  • Contínuos e porteiros 5
  • Outros (empregados comércio) 5
  • Chefes de secção, serviço, oficina 7
  • Operários não especializados 7
  • Professores do secundário e universitário 8
  • Padres 8Administradores de empresas 8
  • Soldados, cabos e sargentos das FA 9
  • Estudantes 9
  • Médicos, advogados, engenheiros 10
  • Guardas, fiscais e agentes da polícia 11
  • Oficiais superiores das FA 12
  • Funcionários transportes público 13
  • Operários especializados 15
  • Funcionários CTT e TLP 16
  • Funcionários públicos médios 26
  • Empregados comércio, escritório e bancários 35

Fontes

  • Arquivo do Ministério da Administração Interna Gabinete do ministro
  • Arquivo do ministério do Interior no ANTT, Gabinete do ministro, maço 535, caixa 93
  • Arquivo da PIDE/DGS no ANTT,
  • Diário de Notícias, de 22/5/1975Jornal de Noticias, 17/12/74, 22/12, 8/3/75, 5/4, 12/4, 17/5 e 19/5/75
  • Diário Popular, 18/6/74, 26/4/78, p. 11, 15/5/75, 26/7/75, 8/1, 20/7/75, 20/2/75, 1/3/75, 30/10/74, 19/3/75, 24/3/75, 20/3/75, 15/3/75, 9/4/75, 12/4/75, 16/4/75 e 5/6/75;
  • O Diário, 25/11/78 e 1/8/79; A Luta, 13/5/77 e 28/10/77; O Século, 10/9/74; Diário de Lisboa, 10/2/77.

Irene Pimentel, transposição autorizada pela autora | 6 de dezembro 2020

Foto Destaque Marinha e Exército junto à sede da PIDE/DGS. © Foto de E. Gageiro.

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