LIVROS 2020 | A Noite Mais Longa de Todas as Noites

SEM FRONTEIRAS | 17 de dezembro 2020 | Livros de dezembro 2020

A Noite Mais longa de Todas as Noites, Helena Pato. Editora Colibri, 3ª edição, Janeiro 2020.

Helena Pato

Resumo

Memórias do período da Ditadura do Estado Novo. Não se tratando de uma autobiografia, deixam aos leitores alguns elementos autobiográficos, decorrentes das descrições de situações vividas pela autora, na Resistência. O livro é construído à volta de «histórias» (em sequência numerada), narradas na primeira pessoa e continuamente contextualizadas por pequenos textos de cariz histórico, social e político.   

Olhar para o passado, a pensar no presente

 A preservação da memória do regime fascista, que continua tão descurada (e, não raramente, desprezada) pelas diversas entidades do Estado, é, a meu ver, uma questão cada vez mais oportuna na nossa cidadania. Desde logo, para impedir que se escamoteiem os progressos obtidos com a implantação da democracia. Custa-me ler frases como “agora o Tarrafal está entre nós” e ouvir referências a que actualmente se está pior do que dantes – o que reflecte um desconhecimento profundo do que era o país antes do 25 de Abril. Considero de extraordinária importância tudo o que seja produzido com o objectivo de carrear memória e memórias do período de 1926 a 1974 para a História que se desenha, se escreve e vai construindo nas Universidades. Importam, a meu ver, quer a divulgação de trabalhos dispersos de pesquisa, quer artigos, fotografias, documentários, biografias e, na área da ficção, romances, peças de teatro, vídeos, filmes. São valiosos contributos para a informação e a consciencialização de jovens e daqueles que não viveram esse período da História de Portugal, ou cujas vidas se desenvolveram, então, à margem ou na ignorância da realidade do regime. A história do regime de ditadura do Estado Novo, ainda demasiado circunscrita às academias, tem de ser levada às actuais gerações, com a objectividade possível. O tempo urge, pois que o seu desconhecimento se tem revelado factor de retrocesso no mundo.

1. Até ao aparecimento do Museu do Aljube, em 2010, a divulgação da Resistência ficou praticamente fechada no Partido Comunista. Foi por isso que, há 8 anos, abrimos uma página no Facebook para inclusão de biografias de resistentes antifascistas com ideologias diversas. «Antifascistas da Resistência» é um espaço de memória plural, que vimos alimentando com modestas notas biográficas, e cujo número se aproxima já do milhar. Ultimamente, a colaboração do historiador João Esteves, nessa Página, com uma lista infinda de dezenas e dezenas de biografias de cidadãos sem nome, mortos às mãos da PVDE e da PIDE ou vítimas das maiores torturas, tem vindo a revelar-nos uma resistência oculta, heróica, surpreendente. Criámos, também no Facebook, um grupo destinado a dar voz a resistentes anónimos e a divulgar testemunhos, lutas, e atrocidades do regime, evocando momentos duros e, também, momentos empolgantes da resistência: «Fascismo Nunca Mais».

2. Todavia, nesse contexto de memória que, com o apoio de amigos, incentivamos no Facebook, muito raramente tenho uma intervenção personalizada, aludindo ou escrevendo acerca da minha vivência, como vítima ou testemunha directa do fascismo. Talvez por isso – e também porque me fui apercebendo dos enormes buracos negros, que existem nas escolas sobre o regime em que a minha geração nasceu, cresceu e se tornou adulta – eu tive vontade de me lançar num passo diferente. Senti um outro dever de memória. Sem pretensões autobiográficas, mas pessoal. Em 2018, sentei-me em frente das teclas do computador, a correr atrás de lembranças, a desfiar nomes, datas e lugares; a ler cartas (com, e de, familiares) já esquecidas: umas inúteis, outras fúteis, outras apaixonadas, e tantas, tantas delas, em raiva ou em drama. Saltitava no Google, a confirmar acontecimentos históricos, que me ocorriam, entrelaçados com diversos factos pessoais adormecidos. O computador sempre aberto, enquanto eu via fotografias e consultava notas esquecidas/escondidas, dos anos secretos da minha vida. A folha “word” em branco e eu sem saber por que ponta puxar. Como começar. Foram meses de espera. Um dia, sem quê nem porquê, de repente, a primeira frase irrompeu: «Foram precisos muitos anos, muita vida, muitas vidas para vermos com clareza a razão de ser…». A partir dessa frase, saltaram-me das pontas dos dedos, as ideias, as recordações, os factos, tudo a atropelar-se numa escrita compulsiva, numa ânsia de não me perder de mim, nem da verdade. Queria que a minha história, que era a história de tantos homens e tantas mulheres da minha geração saísse, tanto quanto possível, rigorosa e rápida, agora que não me restava muito tempo de vida para falar do que vivi, do que muitos de nós vivemos. Desejava que a minha escrita pudesse não se tornar uma seca para os jovens, mas que o conteúdo do livro lhes fosse oferecido com o rigor de um testemunho, dado com seriedade e sem demagogia. O meu livro nasceu assim e é isto; ou eu gostaria que fosse isto.

3. Sobre ele, a escritora Maria Teresa Horta escreveu um longo prefácio, de que destacamos este generoso parágrafo: «A Noite Mais Longa de Todas as Noites é um livro que deve ser lido, degustado devagar com cuidados de saber, a tomarmos o travo do gosto à escrita luminosa de Helena Pato, que página após página nos vai contando-mostrando o longo e corajoso caminho da resistência portuguesa, de que fez parte activa, contra a ditadura fascista. Luta de tantos e tantos anos, que acabaria por nos levar até ao 25 de Abril… à liberdade. Obra de uma precisão exemplar e simultaneamente de uma beleza límpida no seu veio narrativo, enquanto tessitura de recordações assumidamente pessoais embora arreigadamente políticas, já que Helena Pato nelas se debruçou para narrá-las, quer através da sua própria experiência, quer da memória colectiva das últimas décadas do fascismo em Portugal. A Noite Mais Longa de Todas as Noites é pois uma obra tecida com o fio do júbilo dos ideais, mas igualmente com os acontecimentos vividos no nosso país, então asfixiado por uma longa, cruel e impiedosa ditadura».

Helena Pato

10/12/2020 | Editado 17/12/2020

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