EXÍLIOS | Da Gueule de Bois à vivenda da modista, o périplo do exilado em Bruxelas

EXILADOS NA EUROPA | BÉLGICA

SEM FRONTEIRAS | 29 de dezembro de 2020 | Exílios – Narrativas na primeira pessoa.

Karl Marx, Victor Hugo, Prouhdon e muitos outros refugiados políticos escolheram a capital belga para se abrigarem de perseguições ao longo dos tempos desde o século XVIII. Também J.-M. Nobre Correia fez essa opção nos anos sessenta. Com o Diário de Lisboa debaixo do braço, chegou e deixou-se abraçar pela cidade. CR,SF

Primeiro dia de exílio

 J.-M. Nobre-Correia, segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Faz hoje 54 anos que cheguei ao meu destino de exílio. Era já noite escura e chovia em Bruxelas. Não conhecia ninguém, ninguém estava à minha espera e o meu francês era então menos que rudimentar. Logo à chegada, a pega da minha mala tinha resolvido rebentar! Quem me ajudou a repará-la perguntou-me se eu era belga. Disse-lhe que não. E eu respondeu-me: “eu também não, sou flamengo”. Compreendi assim logo nos primeiros instantes que havia um problema em Bruxelas com que eu nem sequer tinha sonhado!

Só, em terra desconhecida, a única referência de que dispunha era a de um artigo publicado duas semanas antes no Diário de Lisboa (Ver ilustração).

Sob pretexto de “indicações sobre a vida dos estudantes latino-americanos na Bélgica”, eram nomeadamente mencionadas instituições dotadas de alojamentos e os respetivos endereços.

O género típico de texto teoricamente desprovido de interesse num jornal português para leitores portugueses. Mas um texto que fornecia assim informações preciosas a quem queria sair do país. Texto em que os tacanhos serviços de Censura não tinham manifestamente percebido o verdadeiro objetivo…

No táxi, o condutor perguntou-me onde ficava a Rue de Parme que eu lhe indicara. “Perto da universidade”, disse-lhe eu. Mas não era. O condutor deve, no entanto, ter tido um arrebate de consciência e lá me levou direito ao Centre International des Étudiants. Problema: não havia quarto nenhum disponível! Mas estudantes do Haiti intervieram junto da diretora e eu pude finalmente passar lá a noite.

No dia seguinte, um desses mesmos haitianos, estudante em direito, aconselhou-me a ir até à Gueule de Bois, um café perto da Université Libre de Bruxelles, “muito frequentado por portugueses”. Gueule de Bois: o que significava este nome? Gueule: goela, dizia o dicionário. Bois: bosque, madeira, lenha. Uma formulação incompreensível: podia eu lá imaginar que queria de facto dizer ressaca?!

A espera foi longa. E só para o fim da tarde é que de facto ouvi falar português.

Dois jovens que, para passar o serão, estavam a pensar em copos e meninas no centro de Bruxelas! Mas que lá tiveram a amabilidade de me levar de carro até um hotelzito que eles conheciam na Place Albert Leemans, onde passei a noite.

No dia seguinte, uma sexta-feira, fui à universidade fazer a minha inscrição. Lá me indicaram o Service Logement, onde me assinalaram um quarto na Rue du Pacifique, em Uccle, na vivenda de uma modista, bastante longe da universidade. Aluguei-o, pois não tinha muita escolha possível, e logo no próprio dia pude lá dormir.

Sábado 31 de dezembro, almocei no restaurante da universidade que estava fechado nos sábados e domingos à hora de jantar. Era dia de passagem do ano e eu perguntei à modista, que tinha lá os filhos para o jantar, onde poderia eu encontrar um restaurante. Ela indicou-me dois ali perto, mas em todos eles me disseram que era preciso ter reservado antes e que não havia nenhum lugar livre. Voltei poucos momentos depois para casa. A modista desejou-me um “bom serão” e “uma boa noite”, sem me fazer qualquer pergunta ou me dizer o que quer que fosse mais.

Entrei pois no novo ano a dormir de estômago vazio…

Os meus primeiros dias de exílio não foram muito clementes comigo. Mas depois das férias de Natal-Ano Novo, com a frequência das aulas e do restaurante universitário, e com a minha mudança logo em meados de fevereiro para um quarto na Cité Universitaire, comecei lentamente a integrar-me na vida “ulbista” e bruxelesa que passaram de facto a ser os meus mundos durante exatamente 45 anos e três meses!

Hoje, como nos anos 1960, os portugueses têm tendência a pensar que tudo é maravilhoso, ou pelo menos bem melhor, para além das fronteiras nacionais e, em todo o caso, para além dos Pirenéus. Grave ilusão!

Para boa parte dos que quiseram libertar-se da chapa de chumbo salazarista, recusar a guerra colonial, conhecer mundo e viver em liberdade, o exílio não era escolha fácil.

A facilidade ou dificuldade de um exílio dependia, depende largamente das origens geográficas, culturais, económicas e sociais do exilado. Como depende muito da sua capacidade de resistência à solidão, à ausência da família e dos amigos de sempre, assim como da afirmação na nova sociedade em que vive e que passa, ou não, a ser a sua. O exílio não é nada fácil! Enquanto se vai esperando que o regresso não seja de facto um exílio interior!…

Fotos dos recortes de jornal e do Destaque © J.-M. Nobre Correia

1 Comment

  1. Obrigada e… calhou bem, infelizmente.
    Sabíamos o quê, a aprender História da Arte na Velha (e bafienta) Academia de Coimbra? Ainda hoje… Se sei apreciar o Mestre da Escultura João Cutileiro que hoje faleceu, devo-o aos mestres que tive na Bélgica. Aqui, só aprendi o que o obscurantismo fascista permitia.
    Na sua maioria, os Belgas são correctos e educados como a arrogância de certos outros europeus os impede de ser. E quanto aos nossos fugitivos e expatriados, nunca foram avaros. Quero país em que tenho, tantos anos mais tarde, dos melhores amigos e, culturalmente, as referências que me tornaram, para sempre, diferente. Quem esteve fora sabe do que falo.
    O único senão é que, na volta, passam a temer-nos e a invejar-nos e, por isso mesmo, a ostracizar-nos. Parece que vale mais pactuar com a corrupção.
    Manuela Almeida Ferreira

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