EXÍLIOS | O vizinho de Agatha Christie detido pela Rainha de Inglaterra

EXILADOS NA EUROPA | INGLATERRA

SEM FRONTEIRAS | 2 de janeiro 2021| Exílios – narrativas na primeira pessoa

Nunca saberemos se foi a qualidade duvidosa da obra que a Ópera de Paris apresentava em cartaz na altura ou se se terá sido a eficácia reduzida dos adesivos como método de integração em grupos radicais que levaram José Manuel Silva Melo a atravessar a Mancha, sem apelo nem agravo. Uma coisa é certa, para os ingleses 80 libras em vez de 18, fazem toda a diferença.

Primeiro dia de exílio

José Manuel Silva Melo, 2 de janeiro 2021

Parti de Portugal a 12 de Julho de 1968 rumo a Paris.

Tinha passaporte, não fui a salto, levava a minha roupa e pouco mais numa mochila que uns anos antes tinha palmado à Mocidade Portuguesa.

Marcellin à chegada

Cheguei a Paris a 14 de Julho, manifestações por todo o lado, liberdade a jorro para todos, juntei-me à primeira manif que vi, gritava como os outros Marcellin salaud le peuple aura ta peau! Marcellin era o ministro do interior na época. Insultar assim um ministro na via pública, sem ser preso, fez despertar um vulcão dentro de mim.

Sparadrap, integrador

Reparei que quase toda a gente que se manifestava tinha sinais de terem sido agredidos pela polícia, só eu é que estava direito, para me integrar entrei numa farmácia e comprei uns adesivos, adesivei-me para ser mais aceite pelo grupo.

Passei uma semana nisto, ainda deu tempo para ir à Ópera. Mas Paris não me inspirava para viver um exílio que eu sabia que ia ser longo, por isso optei por Londres cidade onde já tinha estado em 1966.

Os pounds de Lutton

Apanhei um avião para Londres, a viagem foi feita num Douglas DC3 bi motor. Aterrei no aeroporto de Lutton e, quando cheguei ao controlo de fronteira, vieram as perguntas do costume: quanto tempo pensava ficar no Reino Unido, e quanto dinheiro trazia. O meu inglês na época era péssimo, levava comigo 80 libras, mas em vez de dizer eighty pounds disse eigtheen pounds. Para estragar tudo disse que tencionava ficar algum tempo.

Uma cadeira real

Foi aí que me mandaram sentar numa cadeira de lona que dizia By order of Her Magesty the Queen you are not allowed to remove from this chair* Achei uma elegância ter sido detido pela rainha, fiquei descansado, entretanto já tinham contactado com Londres e passadas 2 horas apareceram dois funcionários da imigração, o equivalente ao SEF, que me interrogaram. Aí senti que não podia falhar no meu discurso. O que os tinha preocupado eram as 18 libras mas quando este equivoco foi esclarecido, deixaram-me entrar com visto turístico de estadia para 3 meses.

Fiquei 6 anos. Entretanto o passaporte expirou. Encontrei soluções, vivia num sítio fabuloso em Londres, a minha vizinha chamava-se Agatha Christie, mas essas são outras estórias.

  • Por ordem de Sua Majestade a Rainha, você não está autorizado a sair desta cadeira

Fotos © José Manuel Silva Melo

José Manuel Silva Melo

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