História-H | Urso Boby e maleta de Duret, património da resistência

SEM FRONTEIRAS | 1 de fevereiro 2021 | História-H | Manuel Branco de Grenoble

O tema da recolha de objetos associados a histórias de vida e a acontecimentos relevantes do passado tem vindo a percorrer as últimas décadas da investigação etnológica e, principalmente desde a lúcida interpretação do seu simbolismo por Jean Baudrillard (os simulacros, a genealogia do valor), a museologia tem vindo a apropriar-se do seu potencial simbólico e afetivo para construir uma relação mais próxima com as comunidades locais. Editado CR-SF | 01fev2021

por Manuel Branco, Grenoble

É o caso do Museu da Resistência e da Deportação do Isére cuja diretora Alice Buffet lançou uma campanha para recuperar objectos da vida quotidiana dos anos 1939-1945. Segundo ela, as testemunhas deste período vão morrendo e é urgente recuperar tanto quanto possível este património. Alice Buffet afirma “nos últimos dois anos, temos tido uma afluência de ofertas após o falecimento de um familiar ou de um avô”.

Video da campanha Collecte Participative

O urso Boby

Para ilustrar esta dinâmica no território do Isére vamos contar a historia do Urso (Boby). Mireille Mialot, hoje com 78 anos, decidiu oferecer ao Museu o Boby. No período da ocupação nazi havia escassez de tudo e os pais de Mireille tendo conhecimento duma costureira que fazia “peluches” decidiram mandar fazer um urso para a filha. A mãe deitou as mãos a tudo o que pôde, uns restos de tecidos e, botões para simular os olhos. A costureira lá fez o urso para a Mireille que para o tornar mais gordinho encheu o interior de serradura. Em tempos de penúria, tudo servia.

Foi quando visitou uma exposição no museu que Mireille Mialot decidiu dar o Boby ao museu afirmando “apesar de gostar muito dele, eu sabia que a equipa ia ocupar-se bem dele“. É assim a memória e a solidariedade.

Recuperamos também a Caixa de Madeira, tipo mala, utilizada pelo Raoul Duret no campo de Dachau (esta Caixa está na posse de Raoul Duret) para reforçar esta abordagem á força simbólica dos objetos, neste caso associando-o a atos de heroicidade e de resistência face a brutalidade e desumanidade dos nazis nos campos de concentração.

Manuel Branco 31/1/2012

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