OPINIÃO |O 25 de abril fez-se também daqueles que disseram “não à guerra”!

GUERRA COLONIAL | 60 ANOS DEPOIS | 1091.2021

SEM FRONTEIRAS | 10 de fevereiro 2021 | Opinião | Carlos Neves

Carlos Neves, que cuida de forma dedicada e persistente da nossa Agenda principalmente cultural, sentou-se à frente da televisão anteontem dia 8 de fevereiro e acompanhou com alguma emoção as imagens do documentário Fui Desertor. Quem viveu situações de exílio tem uma maneira peculiar de relatar o que observa nestes domínios. Vamos atrás do seu olhar através deste texto que nos recorda que “O 25 de abril fez-se também destes homens e mulheres que disseram “não à guerra”!

por Carlos Neves, ex-exilado na Holanda, Vice-Presidente da AEP61-74

“Guerra: a aventura cruel e ridícula a que os homens se dedicam quando alimentados pela insanidade” Siegfried Lenz

António Baltazar e Fernando Cardeira levam-nos numa viagem sobre a deserção do exército colonial em Agosto de 1970. Esta história de deserção das Forças Armadas portuguesas, teve grande impacto em Portugal e além-fronteiras, denunciando a Guerra Colonial e o Fascismo, com o próprio ministro da defesa de Salazar, Sá Viana Rebelo, a acusá-los de “traidores à Pátria”, uma mensagem que assumiu especial impacto na imprensa noticiosa do regime.

Os incómodos nos quartéis manifestavam-se com o conhecimento dos relatos daqueles que regressavam das campanhas em África e chegados da guerra. Regressavam como “heróis”, contando histórias bárbaras, campanhas de morticínio, assassínios e torturas. Era este o caldo emocional que se vivia inclusive na Academia Militar, onde António Baltazar e Fernando Cardeira se formavam. A contestação à Guerra Colonial dentro e fora do país adensava-se em crescendo.

Volvidos 50 Anos das suas vidas, António e Fernando regressam ao sítio onde o “salto” aconteceu, aquele exato momento onde se ganhava a consciência de que não havia regresso, um verdadeiro murro no estômago de realidade e tristeza, a incerteza de voltar a ver os amigos, a família, os sítios onde se nasceu e viveu, aquele exato momento onde se sentia que se dizia adeus a uma vida inteira.

Com o vale do Rio Homem como companhia, caminhando pela desconhecida Serra do Gerês com as bagagens às costas, com a esperança de chegarem a Paris sem serem detidos pela Guarda Civil espanhola, naquela altura não se olhava para as belezas naturais da paisagem que decoram o Parque Nacional, porque as emoções eram outras. Chegar ao destino e fugir do controlo da polícia espanhola, que muitos prendia e muitos devolvia à fronteira portuguesa.

Para chegar a França era preciso atravessar a perigosa Espanha. Depois de França outros destinos eram possíveis. Para estes dois camaradas o objectivo era chegar à Suécia. Assim aconteceu, foram bem recebidos, com direito ao estatuto de “Refugiados Humanitários”.

Com esse dia magnifico de Abril de 1974, alguns regressaram ao país de onde saíram a “salto”, outros, por opção, continuaram a vida familiar e profissional que tinham iniciado noutros países que os acolheram.

O desertor ainda hoje é visto como alguém que foge aos “deveres da Pátria”, ideia promovida pela narrativa dominante sobre o colonialismo, que durante décadas acentua este imperativo dos “deveres à Pátria”. Poucos ainda falam dos desertores enquanto homens e mulheres cuja consciência se recusava participar determinantemente na Guerra Colonial e que, com as suas ideias e com o seu ativismo, resistiam a servir um governo obsoleto que fazia daquela Guerra um acto heróico e um símbolo de afirmação de poder.

António Baltazar e Fernando Cardeira para falarem da sua “vida de desertores”, precisam de regressar sempre aquele dia exato – 25 de Agosto de 1970.

Com emoção partilham um desejo. Depois da pandemia, querem voltar àquele lugar, entendendo que há histórias que precisam de ser contadas na primeira pessoa, registando caminhos, pedras e percursos rumo à liberdade.

O 25 de abril fez-se também destes homens e mulheres que disseram “não à guerra”!

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