DOSSIÊ ICE |Repressão e resistência, 1933 – 1941

DOSSIÊ IMPRENSA CLANDESTINA E DO EXÍLIO | 1926-1974

 SEM FRONTEIRAS | 16 de fevereiro 2021 | Dossiê Imprensa Clandestina e do exílio (Período II)

2. Repressão e resistência, 1933 – 1941

Com a implantação do Estado Novo desaparece a imprensa republicana “reviralhista” mas, em contrapartida, amplia-se a comunista, com maior regularidade, o que a diferenciava da anterior, uma vez que era baseada em estruturas organizativas permanentes e não grupos mais ou menos efémeros que se formavam para combater a ditadura.

Em Outubro de 1933, o PCP iniciou a publicação do O Militante, então com o título Boletim do Secretariado, policopiado, destinado às questões de organização e de informação, assim como à formação de quadros, do qual se conhece apenas um número, mas será, no entanto, com o início da publicação da II Série do Avante! em 1 de Junho de 1934, que a sua imprensa central conhecerá um novo período de regularidade, registando-se até um aumento da sua periodicidade para quinzenal entre Novembro de 1936 e Maio de 1937 e, inclusivamente, para semanal, entre Maio de 1937 e Maio de 1938.

Contra a fascização dos sindicatos

No final de 1933 publicou também o boletim semanal A Greve, em conjunto com a FJCP, destinado à preparação do movimento contra a fascização dos sindicatos, do qual se conhecem os n.ºs 2, 3 e 4, respectivamente de 10, 17 e 24 de Dezembro de 1933 e os publicados no início de 1934.

Iniciou-se também a edição da II Série do Solidariedade, com o subtítulo “órgão Central da SP do SVI”, do qual se conhece o nº 2, publicado em Setembro de 1934.

Em Outubro de 1934, a Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas iniciou um processo de reorganização, na qual se incluiu a reactivação da sua imprensa, com a publicação da III Série do O Jovem: órgão central da FJCP (SP da IJC), sendo conhecido o n.º 2, de Fevereiro de 1935, e que pelo menos entre o n.º 10 e o n.º 13 (respectivamente, de Abril e Outubro de 1936), teve com o subtítulo “Jornal da Nova Geração Portuguesa”, uma expressão bastante utilizada na época para designar os jovens progressistas.

Nesta época, o PCP publicava também o boletim policopiado de divulgação da realidade social soviética, intitulado Folhas de divulgação do socialismo em construção na URSS, e jornais de empresa como O Ferroviário Vermelho: órgão mensal das Células do Partido e Juventude Comunista, do qual se conhece o n.º 2, de Outubro de 1934.

Imprensa sindical

Para além da imprensa editada em seu nome, o PCP publicava vários títulos de organismos que influenciava, como o Front Mundial: órgão da Liga Contra a Guerra e Contra o Fascismo (do qual se conhece o n.º 2, de Novembro de 1934), um organismo de carácter frentista, que defendia um programa de democracia popular e que tinha sido criado em Agosto de 1934 sob a direcção de Bento de Jesus Caraça. A Liga era a Secção Portuguesa do Comité Mundial contra a Guerra e o Fascismo fundado em 1933 sob a influência da Internacional Comunista, e Bento de Jesus Caraça virá a ser o seu representante na Frente Popular Antifascista, de 1935 a 1937, ainda que esta não tivesse assumido em Portugal uma efectiva existência, como em Espanha e França.

Será, no entanto, através da sua imprensa sindical que o PCP conhecerá então uma maior influência, com a criação de uma nova série do O Proletário: órgão e propriedade da Comissão Inter-Sindical, cujo primeiro número da nova série clandestina se publicará em Março de 1934 e terá continuidade, pelo menos, até ao n.º 23, de Maio de 1936.

Na realidade, a sua publicação foi abandonada porque o PCP passou a adoptar a táctica aprovada no VII Congresso da Internacional Comunista realizado em Moscovo em 1935 – no qual o secretário-geral do PCP Bento Gonçalves participou –, de abandonar a criação de sindicatos clandestinos e trabalhar no seio dos Sindicatos Nacionais, com o objectivo de os conquistar.

Impressa numa velha azenha

Em Abril de 1934 inicia-se a terceira série, clandestina, da A Batalha: porta-voz da Organização Operária Portuguesa e órgão da Confederação Geral do Trabalho, que teve uma longa duração mas que conhecerá uma periodicidade muito irregular. Até 1937 era impressa numa velha azenha, na furna de Monsanto, em Lisboa. Tem-se também conhecimento da publicação de um número da A Batalha: órgão da Confederação Geral do Trabalho, com uma boa apresentação gráfica, cuja numeração indica IV Série, n.º 9, de Junho de 1937, o qual apresenta igualmente uma ligeira alteração no subtítulo.

Em 1931 o PCP tinha criado a Organização Revolucionária do Exército (ORE) mas só em Setembro de 1935 é que se iniciou a publicação do O Soldado Vermelho: órgão das células do Partido Comunista Português no Exército – ORE, que terá sido substituído pela A Voz do Soldado: órgão da Organização Revolucionária do Exército – ORE, conhecendo-se os n.ºs 1 e 2, de Maio e Julho de 1936.

Assalto à tipografia

Em Fevereiro de 1937 é novamente publicado O Militante, com a designação de Boletim Interno do PCP e a indicação de II Série. Pelo seu conteúdo não é difícil concluir que se trata da continuação do anterior. Nele se afirma que “tratará de todos os problemas da linha política e de organização do Partido” e que “deve contribuir para a educação dos novos quadros e para uma maior activação do Partido”.

Deste boletim conhece-se apenas um número. O PCP, que neste final da década de 1930 tinha sofrido fortes golpes da repressão – entre os quais o assalto pela PIDE à tipografia do Avante! em 1938, levando à interrupção da sua publicação a partir de Maio de 1939 – na realidade, as dificuldades para a sua produção eram já claras desde Maio do ano anterior, pois a partir de então só se editaram mais dois números –, passará a publicar o Notícias Vermelhas: página informativa do PCP (SPIC), do qual se conhecem quatro números editados em 1939 e, substituindo temporariamente o órgão central o jornal policopiado Em Frente!, a partir de Maio 1940 (n.º 1) e até Março de 1941 (n.º 9), criado por iniciativa de Álvaro Cunhal e em cuja redacção este participou até à sua prisão em 30 de Maio de 1940.

Em Julho de 1937 surgiu o primeiro número do Unir, Semanário da Frente Popular Portuguesa, editado em Paris e dirigido por José Domingues dos Santos – várias vezes ministro, de diversas pastas, e primeiro-ministro (1924-25) durante a I República –, o qual se publicou até Abril de 1939.

Um aspecto singular da imprensa clandestina publicada em Portugal durante o fascismo prende-se com o número surpreendente de jornais manuscritos clandestinos que foram elaborados e editados em diversas prisões do regime (Peniche, Caxias, Penitenciária de Lisboa, Cadeia de Monsanto, Aljube, Angra do Heroísmo e Tarrafal) pelos presos políticos libertários e, principalmente, pelos comunistas, num período entre 1934 e 1945, num total de 24 títulos conhecidos a que correspondem a cerca de 60 exemplares e mais de 900 páginas de texto.

Terão sido editados cerca de 200 números

De facto, os títulos até agora identificados, assim como os respectivos exemplares, constituem apenas uma parte dos jornais que terão sido então elaborados, calculando-se que terão sido editados cerca de 200 números, o que é verdadeiramente notável tendo em consideração as condições existentes e os constrangimentos da vida prisional.

Na maior parte dos títulos não se conhecem os seus autores, havendo no entanto algumas excepções, entre os quais o intitulado Thälmann, em homenagem ao secretário-geral do Partido Comunista da Alemanha – preso pela Gestapo em 1933 e assassinado pelos nazis em 1944 no campo de concentração de Buchenwald –, o qual foi elaborado por Augusto Caldeira, dirigente do PCP, também ele assassinado num campo de concentração, o Tarrafal, em Dezembro de 1938, com apenas trinta anos.

Da imprensa anarquista conhecem-se A Dor, publicado em Coimbra em 1934, o Brado Libertário, órgão manuscrito dos anarquistas presos na Ilha Terceira, editado em 1935, O Momento, que contou com a colaboração de Emídio Santana, José Lopes Júnior, Pinto da Cruz e Carlos Cruz, editado em Lisboa em 1938, e o Claridade, publicado em Coimbra, também nesse ano.

José Manuel Lopes Cordeiro, autor do artigo Imprensa clandestina e do exílio 1926-1974 (sendo o texto acima publicado um excerto correspondente ao período específico de 1933-1941).

Artigo anterior  do tema pelo autor | Imagens, fonte @ JM Cordeiro

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