DOSSIÊ ICE |A imprensa militante portuguesa em França: o jornal “O Alarme!…” (1972-1975)

DOSSIÊ IMPRENSA CLANDESTINA E DO EXÍLIO | 1926-1974

SEM FRONTEIRAS | 22 de fevereiro 2021 | Dossiê ICE | Sónia Ferreira – Aprofundamento Temático | Sónia Ferreira

por Sónia Ferreira

“O Alarme!..” é uma publicação que surge em Grenoble em 1972, no seguimento de uma reunião convocada por um grupo de militantes da região para o dia 7 de Junho desse ano numa sala da AFPG (Association Franco-Portugaise de Grenoble).

O jornal começa a sair oficialmente um mês depois dessa reunião, designando-se, numa primeira fase, por “O Alarme!.. Jornal dos Portugueses da Região de Grenoble” e, a partir do nº 16 saído em Janeiro de 1974, a nomear-se “O Alarme!.. Jornal Popular Português”.

Paris

Mais tarde, a partir de meados de 1975, até ao último número, nº 37 saído em Dezembro 1975, será publicado em Paris. O jornal apresenta desde o início afectação ideológica explícita e está ligado ao trabalho desenvolvido em Grenoble por militantes do núcleo d’“O Comunista”, ligação estabelecida durante o ano de 1971, mas não possui filiação partidária efetiva, pelo menos num primeiro momento, apesar da ligação permanente, através dos seus produtores a grupos políticos como, primeiro “O Comunista” (Paris) e depois “O Grito do Povo” e a “OCMLP”.

O jornal surge também, em grande medida, já no seguimento de trabalho militante desenvolvido por este grupo junto da emigração portuguesa em Grenoble no apoio a greves e lutas laborais locais, na realização de festas e convívios em que muitas vezes se apresentavam cantores e grupos de intervenção (Zeca Afonso, Tino Flores e o “Teatro Operário” do encenador Hélder Costa), na criação local de um teatro na esteira do “Teatro Operário” e todo um conjunto de actividades diversas, algumas de carácter mais marcadamente político do que outras, como os piqueniques, as excursões, os jogos de futebol, as sessões de alfabetização ou as sessões sobre contracepção e saúde reprodutiva.

Jornal legal

Ao contrário do que acontecia com muitas destas publicações, “O Alarme!…” quando surge tem, não só número de depósito legal como um director francês, Jean-Paul Sartre[1]. Isto acontece devido a uma ligação prévia de um dos dirigentes do grupo a um militante local responsável pelo jornal “Verité Rhones Alpes”[2] (VRA) que sugere que “O Alarme!..”, para efeitos legais, surja como suplemento deste que é já em si um suplemento regional (Rhônes-Alpes) do “La Cause du Peuple. J’Accuse” ligado à Gauche Proletarienne. Por esse motivo, a própria impressão de “O Alarme!..” será feita na tipografia do “Verité Rhones Alpes”.

Em termos de venda e distribuição, em Grenoble e seus arredores, o jornal era vendido nos mercados (St Bruno, Abbaye, etc) com, entre outros, o refrão “Comprem o “Alarme!..”, o jornal que fala mal dos patrões”. Era igualmente vendido nos locais de trabalho dos seus produtores e simpatizantes, nas associações culturais e recreativas portuguesas e, fora de Grenoble, foi vendido primeiramente em Chambery, Annecy, Moirans, Lyon, Genebra (Suíça) e em Paris e mais tarde em Portugal, na Suécia, Dinamarca, Holanda e Luxemburgo e em toda a rede internacional ligada aos comités de desertores. Para além da venda direta, o custo do jornal era de um franco, existia um sistema de assinaturas.

Temas

Na sua composição, “O Alarme!..” apresenta um conjunto de rubricas permanentes como, por exemplo: “Notícias Gerais”; “Tu Sabias …”; “O Povo Escreve. Cartas Recebidas”; “Notícias de Portugal”; “O Que É Preciso Saber”; “A Guerra Colonial”; “Notícias da Região”; “Um Grupo de Mulheres Continua a Escrever-nos”; “Os Leitores Escrevem”, “Desporto”; “O Silva, o Zé e os seus problemas”; “Notícias de Portugal. O Povo em Luta”. Estas rubricas têm oscilações, algumas desaparecem, outras são intermitentes mas em termos gerais vão ao encontro dos temas dominantes da publicação que são: 1) as condições de trabalho dos trabalhadores emigrantes portugueses; 2) notícias sobre Portugal, com particular incidência para lutas, greves e notícias sobre a Guerra Colonial e a luta anticolonial (são fornecidos, por exemplo, os endereços dos comités de desertores na Europa e dadas indicações sobre como proceder); 3) notícias sobre a vida associativa portuguesa em França; 4) um correio dos leitores com cartas, poemas e testemunhos enviados para o jornal; 5) informações práticas para os emigrantes sobre legislação francesa em termos de direitos laborais e sociais como, por exemplo, preencher documentos e pedir apoios sociais.

Cadernos

O jornal publicará ainda pequenos livros e cadernos como “Uma seara de trigo que seja para todos” (Novembro de 1973), o “18 de Janeiro de 1934” (Novembro de 1973), edições de “O Alarme!…” e do “Teatro Operário” e em Junho de 1974 a brochura “As Mulheres Falam dos Seus Problemas …”, intitulado “Colecção do Povo” nº 2, onde são reunidos um conjunto de artigos publicados no jornal dando destaque às questões de género. É ainda referido no número 23 de Agosto/Setembro de 1974 a publicação “Exploração capitalista, mercadoria, força de trabalho, mais valia”.

Em termos de duração, o facto de a publicação ter tido a duração de Agosto de 1972 a Dezembro de 1975 confere-lhe um espectro de análise interessante porque atravessa o período do Estado Novo, o 25 de Abril e o PREC e nesse sentido os seus conteúdos e as suas rubricas acompanham de perto as mudanças políticas e ideológicas em Portugal.

Redes e contactos

A imprensa foi um dos suportes fundamentais para as organizações de esquerda, esquerda radical e todo o movimento oposicionista ao regime ditatorial português. A forma como esta surge e cresce exponencialmente nos anos 60 e 70 do século XX, tanto em Portugal, como nos contextos que acolhem a sua população migrante faz com que esta seja uma importante ferramenta de análise sobre a oposição ao regime no seu interior mas também sobre a sua existência internacional, revelando as redes e contactos que criou e desenvolveu na Europa, no Norte de África (Argélia), nas colónias africanas portuguesas e no Brasil. “O Alarme!..” é assim mais uma das publicações que contribui para uma compreensão alargada dos processos migratórios e de exílio portugueses.

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[1] Este não será contudo caso único, Marguerite Duras será diretora do “Camarada” (1972), Robert Davezies do “Jornal Português” (1973), François Châtelet do “Les luttes de classe au Portugal” (1972) e Pierre Sorlin do “Luta-Lutte” (1972) (Clímaco, 1992).

[2] Jornal de contrainformação em relação a jornais como o “Dauphiné Liberé” ou o “Progrès”.

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Sónia Ferreira
Investigadora | CRIA – Centro em Rede de Investigação em AntropologiaProfessora Auxiliar Convidada | Departamento Antropologia | NOVA FCSH Investigadora Associada | URMIS | Univ. Paris

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