DOSSIÊ ICE |O Salto, jornal dos trabalhadores portugueses emigrados

DOSSIÊ IMPRENSA CLANDESTINA E DO EXÍLIO | 1926-1974

SEM FRONTEIRAS | 23 de fevereiro 2021 | Dossiê Imprensa Clandestina e do exílio | Aprofundamento temático | Cristina Clímaco

O Salto, jornal dos trabalhadores portugueses emigrados

Cristina Clímaco

O Salto, órgão do Clube dos Jovens Trabalhadores Portugueses de Paris (CJTPP), é editado em Paris entre Novembro de 1970 e Junho-Julho de 1974 por um grupo de jovens ligados ao PCP-ml, destinando-se o periódico a ser um meio de mobilização e organização da numerosa colónia emigrada em França, e mais particularmente da residente na região parisiense, em favor da luta contra o Estado Novo e  a guerra  colonial. Publicado inicialmente bimestralmente, passa a mensal a partir do número 13, de Novembro de 1972, tinha uma tiragem de 3 mil exemplares (a título comparativo, O Trabalhador, jornal da Confederação Geral do Trabalho francesa para a imigração portuguesa, tirava entre 18 a 20 mil exemplares), e o número de páginas oscilava entre 8 a 12 consoante os números.

O Salto posiciona-se como uma continuidade do Jornal do Emigrante, publicado pela Liga Portuguesa do Ensino e da Cultura Popular, cuja edição cessara em 1969 (será posteriormente retomada em 1971), em consequência de uma cisão interna que opôs Moisés Espírito Santo e Álvaro Vasconcelos relativamente à linha editorial do jornal. O grupo ligado a Álvaro Vasconcelos opta pela fundação de um novo jornal, com um título mais contestatário, para o qual escolhe O Salto, segundo o fundador sem ligação com o filme do mesmo nome de Christian de Chalonge, que saíra em 1967.

Diretor francês

Seguindo uma démarche comum a outras publicações, o jornal dota-se de um director francês, cujo prestígio nos meios militantes serve de caução ideológica: Anny Souque e, a partir do n° 8, Bernard Weber, mas é Álvaro Vasconcelos quem o dirige efectivamente. Este exilara-se na Bélgica, em 1967, deslocando-se depois para Paris. A sede da redacção está instalada no n° 56, rue de la Fontaine au Roi, no 11° bairro de Paris, num local cedido pela igreja protestante e partilhado com o CJTPP e, posteriormente, com o Movimento dos Trabalhadores Portugueses Emigrados (MTPE), movimento federativo impulsionado pelo O Salto para estruturar as associações de emigrados económicos.

O Salto apresenta-se como um jornal “dos trabalhadores para os trabalhadores”, sem ligações a grupos políticos, mas das entrelinhas emerge a organização política da emigração portuguesa sob a égide do PCP-ml, recém fundado em Paris, mas cuja ligação é ocultada pela redacção. Os objectivos abertamente anunciados nas páginas do jornal são a consciencialização política dos emigrantes e a elevação do seu nível cultural, em que O Salto serviria aos elementos consciencializados de instrumento de trabalho para a politização dos emigrantes e unificação do movimento associativo.

Conteúdos

Os problemas da emigração, a guerra colonial, o noticiário nacional, uma página informativa sobre as actividades associativas e o MTPE, constituem as principais secções do jornal, para além de uma rubrica internacional que patenteia a orientação pró-chinesa do jornal, e que chama a atenção pela ausência de comentário da política francesa, ou quando por aí se aventura, colocando-o sob o prisma da emigração, com é o caso das eleições de 1973. Trata-se de uma escolha deliberada da redacção face às características da emigração portuguesa de não envolvimento nas lutas sociais, ver uma apatia desta relativamente às questões políticas, pelo que o jornal adopta uma estratégia de penetração na colónia que evitasse aos emigrantes de se encontrarem em porte à feu face ao país de acolhimento. Estratégia movida antes de mais pelo pragmatismo do grupo de editores que riscam a interdição do jornal e a expulsão de França se se envolvessem de modo visível na política francesa.

O “correio dos leitores”, rubrica tradicional deste tipo de jornal, é a que apresenta maior plasticidade, integrando por vezes as secções guerra colonial ou noticiário nacional, noutras constituindo uma secção independente. Presença menos constante, é a informação desportiva, que quando existe, assume a forma de suplemento.

Implantação e distribuição

Em França, O Salto é distribuído nas principais cidades de implantação da emigração portuguesa através das Nouvelles Messageries de la Presse Parisienne. Em Paris, é vendido directamente no mercado do boulevard Richard Lenoir e na porta de Clichy, e a partir do n° 4 em vários quiosques e livrarias progressistas da capital, nomeadamente Maspero e L’Herbe Rouge. Na periferia parisiense, o mercado de Villiers impõe como principal polo de venda, onde chegam a ser vendidos mais de cem exemplares num mesmo dia, mas é também vendido através do porta à porta nas cidades de HLM habitadas por portugueses, nas festas associativas lusas, nos jogos de futebol, e de modo geral em locais de ajuntamentos de portugueses, como cafés e clubes. Para além da região de Paris, O Salto é distribuído em Bourges, Lião, Nantes e Grenoble. É também difundido na Bélgica, na Holanda, na Alemanha, no Luxemburgo e no Reino-Unido, e partir de Setembro/Outubro de 1973 na Suécia, através da rede associativa ou dos comités de desertores. Os contactos com associações exteriores à França datam ainda do tempo do Jornal do Emigrante, nomeadamente com a associação Resistência e Trabalho, de Amsterdão. O jornal estabelece com esta associação uma estreita colaboração, mantendo-se estável durante todo o período de publicação do jornal (a cisão ocorrerá pouco antes da cessação de publicação), levando à organização de iniciativas culturais comuns.

Introduzido clandestinamente em Portugal, O Salto é vendido nas livrarias Barata, de Lisboa, e em Sacavém; as associações de estudantes terão contribuído para a circulação do jornal em Portugal.

O financiamento provém do produto da venda ao número, das assinaturas (pouco antes do final da publicação contava com cerca de 200 assinantes), dos donativos de leitores e do lucro angariado através de festas organizadas pelo CJTPP, nas quais participam nomeadamente Tino Flores, Luís Cília, José Maria Branco, Zeca Afonso (este considerado pelo O Salto como demasiado intelectual). Os fundos são, contudo, insuficientes para sustentar a publicação, levando a uma frequente mudança de tipografia.

Vocação federativa

O Salto dedica particular atenção aos problemas da emigração: denúncia das condições de vida e de trabalho dos emigrantes, informação e conselhos práticos sobre os direitos no país de acolhimento, sobre os acordos de emigração, ou ainda sobre a situação das mulheres emigradas.

Apresentando-se como um jornal antifascista e anticapitalista, procura alertar contra os “agentes do fascismo na emigração, ou seja, as estruturas de enquadramento da colónia pelo regime português (consulados, bancos), e sensibilizar para a exploração de que são vítimas os trabalhadores portugueses. Considerando que os problemas da emigração portuguesa são transversais às várias colónias estabelecidas na Europa, O Salto, através do MTPE, fundado em Fevereiro de 1972, procura ser uma estrutura federativa das associações e um instrumento para a unidade da emigração portuguesa nos vários países da Europa ocidental.

O MTPE reúne uma dezena de associações em França, em particular na região parisiense, assim como no exterior, entre as quais a associação Resistência e Trabalho de Amsterdão(Novo Rumo, jornal editado por esta associação virá a fusionar com O Salto), o Centro Cultural e Recreativo de Bruxelas, a Liga Portuguesa de Ensino de Londres, Associação Operária 1° de Maio de Estugarda, o Centro Cultural de Neuss, e o Clube dos Trabalhadores Portugueses de Dusseldorf.

Iniciativas culturais

A dinamização cultural assume desde o início do jornal papel fundamental como meio de politização da emigração. É neste contexto que o jornal, organiza sessões culturais, que conjugam a apresentação de filmes, de peças de teatro, de espectáculos musicais, e intervenções políticas sob a forma de testemunhos. Algumas destas sessões resultam na publicação de suplementos nomeadamente sobre Angola e a Guiné-Bissau (este enquanto suplemento do n° 20). O teatro tido pelo jornal como “a arte que melhor serve o povo” é um dos meios por excelência da dinamização cultural. Nos inícios de 1971, a peça “O Emigrante”, escrita por elementos do CJTPP, na qual são analisadas as causas da emigração clandestina e a deserção ao serviço militar, é apresentada em Nantes, Amsterdão e Bruxelas. O jornal apoia ainda a formação do coro do CJTPP para difusão de música popular.

A principal iniciativa organizada pelo O Salto em conjunto com o MTPE são os Jogos Florais, que se realizam de 9 a 11 de Junho de 1973, na Cartoucherie de Vincennes, e que reúnem cerca de 5 mil pessoas. A ideia ascende a Fevereiro de 1973, no momento da constituição do MPTE, como meio de promoção da cultura popular e do desporto no seio da emigração e como estratégia para o desenvolvimento do movimento associativo e implantação do jornal no seio deste. A campanha de divulgação dos Jogos Florais começa no n° 9, de Abril de 1972, com a abertura de uma nova rubrica na qual se discute o que é a cultura popular que O Salto opõe à cultura burguesa, esta identificada com a burguesia liberal (e, por conseguinte, com a oposição democrática), e à qual atribui a intenção de querer desviar o povo da luta política através de temas literários sem relação com a situação económica e social. O Salto define a cultura popular como a forma de expressão dos proletários na sua relação com as massas, devendo reflectir os problemas do quotidiano de operários e camponeses, pelo que a cultura popular é para o jornal uma cultura de classe.

Numerosas associações marcam presença nos Jogos Florais, que revestem o aspecto de festa popular com bailes, intervenção de cantores e quermesse; a agência noticiosa do PCP-ml, Novaport, organisa uma exposição sobre a imprensa operária. As modalidades a concurso são o teatro, a recitação, a música e canção popular, a literatura, o cinema e fotografia, e o desporto. Um prémio especial, UTPE-Solidariedade, é atribuído ao filme “Laureta et les autres”, de Dominique Danton, sobre a luta de Laureta da Fonseca contra a destruição do bairro de lata de Massy, na categoria de melhor obra estrangeira sobre o povo português.

Duas circulares

A luta contra as circulares Marcellin-Fontanet, em 1972, assume particular visibilidade no jornal.  Face ao aumento do desemprego, o governo francês reforça a repressão contra os estrangeiros em situação irregular através de duas circulares que visam regular a entrada e a estadia dos estrangeiros em França, e cujo objectivo é limitar a imigração através da alteração das regras de atribuição dos títulos de estadia, impondo como condição prévia à entrada em França a apresentação de um contrato de trabalho e a obtenção de um alojamento. O Salto implica-se na campanha em favor da retirada das circulares Marcellin-Fontanet, levada a cabo através do MPTE. Este organiza sessões de informação nas associações, publica artigos nos jornais associativos, e solidariza-se com a luta conduzida por António Silva, operário português na fábrica da Renault, com dois outros companheiros não portugueses, que iniciam uma greve da fome como forma de protesto contra as circulares.

Diversas manifestações contra as circulares são organizadas por estruturas de apoio aos imigrados. Face à amplitude da reacção, o governo francês temporiza na aplicação das circulares, adiando a entrada em vigor, mas recusando a sua retirada. Após a entrada em vigor das circulares, o apoio do O Salto aos trabalhadores clandestinos passa pela ajuda à regularização através da publicação de informação sobre os sectores recrutadores.

Asilo e deserção

A guerra colonial e a falta de proteção de que gozam os desertores nos países de emigração, que os deixa numa situação de grande vulnerabilidade, é um tema que assume particular relevância nas páginas de O Salto. Desde o primeiro número, o jornal discute a guerra colonial, a deserção, a situação nas colónias e os movimentos de libertação, apoiando a deserção sem, contudo, apelar a uma forma concreta.

A situação dos desertores na Holanda, acusada de não respeitar as disposições da convenção de Genebra, de 1951 sobre o direito de asilo, é particularmente seguida pelo O Salto, que faz a cobertura da semana de Portugal na Holanda, organiza entre 27 de Março e 3 de Abril de 1972 a associação Resistência e Trabalho para chamar a atenção da opinião pública holandesa.

Em Junho de 1972, encontram-se refugiados na Holanda, por razões políticas, cerca de 600 jovens dos quais apenas duas dezenas obtiveram o estatuto de refugiado político. A dificuldade de obtenção deste estatuto é interpretada como uma clara descriminação dos portugueses relativamente aos refugiados da Europa de Leste, que não têm dificuldade em obtê-lo. Se em França a situação dos desertores e refractários não representa um problema de maior até ao acordo franco-português de 1971, através do recurso ao estatuto de imigrante económico, a situação altera-se após esta data, começando a emergir neste país os comités de desertores, como meio de fazer pressão sobre a administração francesa e a opinião pública para o reconhecimento do estatuto de refugiado político a esta categoria de portugueses. Em ligação com O Salto e o PCP-ml é formado o Comité de Apoio aos Desertores e refractários portugueses em França, que publica A Voz do Desertor e mantém uma permanência em Paris (127 rue S. Maur et 174 rue de Champerret).

Libertação das colónias

O Salto solidariza-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas, denunciando os massacres cometidos pelo exército colonial e informando sobre o avanço dos confrontos nas três frentes de guerra. O jornal colabora com a Fédération des Étudiants de l’Afrique Noire en France (FEANF), nomeadamente em Março de 1971 na organização da sessão comemorativa do 10° aniversário do levantamento em Angola, para a qual são convidados os vários movimentos de libertação das colónias portuguesas, mas em que apenas a UNITA se faz representar, e por ocasião do assassinato de Amílcar Cabral na promoção um encontro de estudantes na Casa da Tunísia, na Cidade Universitária Internacional. Em Fevereiro 1974, O Salto lança uma campanha de angariação de fundos para a compra de uma ambulância para a República da Guiné-Bissau, cuja independência tinha sido proclamada em Setembro de 1973 pelo PAIGC.

A Revolução de Abril dá ainda origem a um número especial, com data de 26 de Abril, mas o núcleo fundador do jornal regressa pouco depois a Portugal pelo que o último número de O Salto, com data de Junho-Julho de 1974, é já editado por um outro comité de redação, para além de que pouco antes da Revolução dá-se uma nova cisão dando origem às facções Mendes e Vilar, que se constituem em partidos distintos. A nova situação política em Portugal e o regresso ao país dos jovens exilados deixa temporariamente órfã a imprensa militante portuguesa em França.

Cristina Clímaco Pereira é doutorada em História das Sociedades Ocidentais pela Université de Paris 7 Denis Diderot, investigadora, colabora com o Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e do CEIS 20 da Universidade de Coimbra.

Ilustrações, ©fonte autora

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