DOSSIÊ ICE | As lutas dos trabalhadores e a guerra colonial

DOSSIÊ IMPRENSA CLANDESTINA E DO EXÍLIO | 1926-1974

SEM FRONTEIRAS | 26 de fevereiro 2021 | Dossiê Imprensa clandestina e do exílio | O Alarme (II)

1-As lutas dos trabalhadores

por Manuel Branco

Nos anos 70  a repressão em Portugal, a censura da imprensa, a falta de informação, a prisão, o controle dos sindicatos pelo governo, o trabalho de infiltração e denuncia dos pides, tentavam amordaçar os trabalhadores para lhes dar o sentimento duma situação de impossibilidade aparente de resistir. Mas por todo o Portugal a resistência abriu caminho.

Era urgente dar a conhecer estas lutas, dizer que era possível a revolta colectiva e assim dar esperança e animo à malta. O jornal empenhou-se nesta tarefa, de informar, de abrir a ousadia de afirmar a possibilidade de…, dando exemplos de diversos movimentos de contestação e luta por melhores salários, contra assassinatos, prisões, revolta de moradores, agitações nos quartéis, luta contra expulsões, pelo direito à assistência médica e por causas.

Parece-me importante  citar alguns artigos de manifestações ou greves publicados no jornal que são exemplo do que acima afirmámos.

Lutas e mais lutas

No primeiro número foram noticiadas lutas em Alcântara e no Porto. Em Setembro de 1972 era a vez de lutas em Grenoble, St. Jean de Maurienne, o jornal relata ainda a luta na fabrica Grundig em Braga por aumento de salários, “…as mulheres ganhavam 40$00 por dia e os homens 70 escudos, após 3 dias de greve os homens obtiveram um aumento de 50% e as mulheres 75%..”. Em Novembro de 1972, um artigo acompanhado de uma foto informa, na primeira página, sobre a manifestação de protesto contra o assassinato do estudante Ribeiro dos Santos, em Lisboa. Na última publicação do ano 72 o jornal menciona as lutas em Annecy (Fosalp) e divulga as ações combativas dos operários na Covilhã.

No número 6 a luta no supermercado Villares no Porto é noticiada e em Março de 1973 um artigo sobre a Lagoa de Albufeira é publicado com foto na primeira página afirmando ”..o povo impede as demolições das suas casas”. Nas suas páginas são ainda relatadas as lutas em Castro Daire, Sta. Bárbara de Nexe, reportando a uma revolta da população que esteve durante 8 meses sem assistência médica e por fim, a luta dos moradores da av. Almirante Reis em Lisboa.

Pescadores de Matosinhos

Um ano antes do 25 de Abril foi publicado um artigo para explicar a nova lei sobre a emigração, a « Circulaire Fontanet » e outro sobre a luta dos pescadores do arrasto em Matosinhos.

Nas edições n° 9 e nº10 são destacadas as manifestações do primeiro de Maio em Lisboa, no Porto e em Coimbra, São também divulgadas as lutas em Arruda dos Vinhos (greve na GIL) e no Porto (Gialco).

Em Outubro de 1973, um artigo na primeira página dá a noticia de uma manifestação em Lausanne (Suíça) contra a vinda duma delegação portuguesa à Feira de Lausanne. A comitiva foi convidada de honra pelo governo Suíço. Outras lutas na Apúlia, em Melgaço e com os pescadores de Matosinhos surgem nas páginas do jornal.

Aumento de salários

Em Novembro e Dezembro de 1973 foi a vez de Caen, do Porto (Sepsa), de Coimbra (SMC), de Besançon (Lip), de Lisboa (Transul), de Serpa, de Doméne (gréve na SDEM), de Amarante e de Lisboa (TAP). A luta por aumento de salários na Rabor em Ovar foi noticiada e as lutas em A Ver O Mar e no Barreiro (n°14), Porto, Matosinhos, Braga também o foram. Foi também destacada a greve na fábrica de Somelos (Helanca) e as lutas em Coimbra, Miragaia, Marinha Grande, Baixa da Banheira, Braga (Fábrica da Ralha), Abelheira (fábrica Graham) e Foz do Neiva (pescadores).

Em Janeiro de 1974 foram publicadas noticias sobre várias lutas tais como Arganil e Cacilhas (luta dos Cacilheiros).

Fevereiro foi um mês muito rico, o jornal relatou a luta dos pescadores do arrasto Matosinhos titulando “os pescadores voltam à carga”. Por sua vez no Porto (Eduardo Ferreirinha), em Coimbra (SMC), em Alhos Vedros (Fábrica Gefa), em Barcelos, na Nazaré (greve dos pescadores), no Pinhal Novo, em Lisboa (lutas na Plessey A. Eléctrica P.), na Marinha Grande, no Porto (fábrica de Candal) e em Guimarães (greve na fabrica Somelos) surgiram conflitos e confrontações diversas que o jornal noticiou.

Mas o mês de Março 74, um mês antes do 25 de Abril o jornal parecia adivinhar que Abril estava próximo e deu de novo relevo a várias lutas como as de St. Martin d’Hères (manifestação contra a expulsão de famílias na Croix du Pâtre), de Queluz (lutas na firma Eduardo Jorge), em Pevidėm (fábrica dos Correias), em Viana do Castelo, em Braga (Companhia Fabril do Cavaco), na Amadora (J. Pimenta- concentração nos escritórios), em Sacavém (gréve na Robialac) e no Porto (Eduardo Ferreirinha e Irmão).

E assim chegámos, ao 25 de Abril.

2- Contra a guerra colonial, apoio à deserção

Guerras de ontem e de hoje….exilados do passado e do presente.  

Muitos trabalhadores, após terem sido empurrados contra a sua vontade para a guerra foram de novo empurrados para a emigração para procurar melhores condições de vida para eles e para as suas famílias. Os jovens ao constatarem a aproximação da data do serviço militar, procuravam soluções. O jornal pegou nesta matéria para divulgar informação sobre a guerra e sobre a necessidade de a recusar e combater.

Comités de desertores

Após uma reunião de coordenação dos Comités de Desertores na Europa em Paris a 23 e 24 de Setembro de 1972, o Jornal apoiou-se cada vez mais nestes Comités para trazer para à baila informação e motivação. O Jornal apoiava o trabalho dos Comités de Desertores e estes apoiavam e vendiam o Jornal. A tiragem do Jornal disparou, era distribuído em França (Paris, Grenoble, Voreppe, Annecy, Chambery, Lyon Saint Marcelin etc..), Dinamarca, Suécia, Holanda, Luxemburgo, Suíça, Portugal. A divulgação das lutas nos quartéis em Portugal era importante para dar a conhecer e afirmar quer era possível lutar.

Desde o primeiro numero, Julho de 1972 o jornal tomava posição pela deserção. Publicava a capa do disco do Tino Flores com a canção “Deserção” e apoiava a venda do disco.

No mês seguinte publicava uma carta tirada do Boletim do Comité de Desertores da Dinamarca na qual uma mãe escreve «Eu sempre disse aos meus filhos para não irem fazer a guerra colonial….…Os nossos filhos são cada vez mais numerosos a desertar…. ».

Deserção e Manifesto

A noticia do assassinato de Amílcar Cabral ocupa a primeira página em Fevereiro de 1973, assim como uma informação sobre as lutas dos soldados em Lisboa no quartel do Lumiar, onde recusam respeitar o toque das alvoradas e acelerar as marchas de cross….e de novo no mês de Março dava noticia das lutas nos quartéis de Mafra e Tancos. Ainda em 1973 foi publicado um artigo sobre a agitação no quartel de Santa Margarida e na  ultima publicação do mesmo ano, O Alarme dá um grande relevo na primeira página com fotos sobre a deserção de 5 marinheiros na Dinamarca com o titulo “Quando um dia pegarmos em armas será contra os inimigos dos povos de Portugal e das colónias”. Publica pela primeira vez a capa do « Manifesto dos Soldados Portugueses », dá ainda noticia da luta contra o juramento de bandeira no quartel de Mafra.

Janeiro de 1974, foi uma data importante para o jornal. Este dava um salto na sua difusão, o pequeno jornal dos trabalhadores de Grenoble publicava um editorial intitulado (« O Alarme » saiu da Casca ) e passava a « Jornal Popular Português » distribuído em vários países da Europa e Portugal. Publicava a lista e direcções dos Comités de Desertores da Suécia, Dinamarca, Holanda, Paris e Grenoble. Dava a noticia da luta dos soldados contra a guerra no quartel de Vendas Novas.

Manuel Branco, editor do Alarme e colaborador permanente do SEM FRONTEIRAS

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