DOSSIÊ ICE | O Imigrado Português, as fontes de informação baseavam-se em pequenos inquéritos

DOSSIÊ IMPRENSA CLANDESTINA E DO EXÍLIO | 1926-1974

SEM FRONTEIRAS | 28 de fevereiro 2021 | Dossiê Imprensa clandestina e do exílio | Inês Espírito Santo | Traduzido do francês e editado por Carlos Ribeiro – SF

O Imigrado Português (1969-1981)

por Inês Espírito Santo

Para analisar a experiência dos exilados políticos portugueses, parece-me necessário um desvio pelas fontes escritas para questionar as presenças e as ausências sobre os temas tratados na época e que hoje ressurgem na historiografia das migrações.

Neste breve artigo vamos debruçar-nos sobre O Imigrado Português. Esta publicação teve uma periodicidade mensal e foi inteiramente redigida na língua portuguesa. Publicado em França, tinha aproximadamente 16 páginas. O nº 1 de O Imigrado Português apareceu em abril de 1969 e deixou de ser publicado depois do nº 78 que saiu em setembro de 1981.

PCs e Originários de Portugal

O Imigrado Português era uma publicação editada, sem que tal constasse, pelo Partido Comunista Francês, em estreita colaboração com membros do Partido Comunista Português (ilegal em Portugal até 1974) e associados da Associação dos Originários de Portugal (AOP).
Numa conversa informal com um activista comunista português e um associado muito ativo da AOP ambos imigrantes em França e que acompanharam de perto O Imigrado Português, pude recolher algumas informações sobre o funcionamento do jornal: não havia jornalistas profissionais a garantir a edição do jornal. As fontes de informação baseavam-se em pequenos inquéritos que eles próprios realizavam ou, então, em informações veiculadas pelos órgãos oficiais dos Partidos Comunistas dos dois países; a AOP que estava presente em várias regiões, recolhia as informações sobre as atividades associativas em todos os setores e centralizava-as para que fossem publicadas mensalmente no O Imigrado Português; o fim da publicação em 1981 deveu-se provavelmente ao regresso definitivo ao país de origem de várias pessoas envolvidas na produção do jornal.

Unir os trabalhadores

O Imigrado Português dirigia-se principalmente aos trabalhadores portugueses que emigraram para a França. O editorial do n.º 1, de abril de 1969, apresenta claramente o objetivo geral do jornal: denunciar os abusos e as discriminações contra os portugueses, dando-lhes acesso a aconselhamento jurídico sobre os seus direitos laborais e de estada. Mais à frente, este primeiro editorial explicita a orientação política do jornal:

“A nossa missão é também mostrar aos trabalhadores portugueses que a satisfação das suas legítimas reivindicações depende essencialmente da sua capacidade de se unirem e de agirem conjuntamente com os demais trabalhadores. […] Vamos comprometer-nos a lutar contra tudo o que possa dividir os trabalhadores portugueses, trabalhadores franceses e trabalhadores de outras nacionalidades, para os unir na mesma luta. “


O Imigrado Português revelou-se assim, desde o seu início, um meio de difusão de uma opção clara, a defesa dos interesses da classe trabalhadora. Nas suas 16 páginas, O Imigrado Português estava organizado em várias secções, com uma presença nem sempre regular, nas quais se incluía o tema central do mês, as notícias de Portugal, a informação jurídica sobre os direitos dos imigrantes, literatura e cultura ou mesmo, na última página, notícias desportivas.

Mudanças na linha editorial


Uma leitura atenta de todos os números de O Imigrado Português mostra que entre 1969 e 1981, ao longo da existência da publicação, o Conselho Editorial mudou de enfoque nos assuntos tratados. É perfeitamente natural que a mudança social transforme as próprias notícias sobre a atualidade, mas a mudança de foco que estamos aqui a referir é resultado de autênticas alterações na perspectiva sobre os assuntos a tratar na publicação. Estas reviravoltas ocorreram à medida que os acontecimentos marcantes na evolução política e social do binómio França-Portugal, durante os quais a publicação passou por várias alterações na sua linha editorial, e nos quais pude identificar cinco fases:

  • 1) O período das condições de alojamento dos migrantes (1969-1970);
  • 2) O período da guerra colonial portuguesa (1971-1972);
  • 3) O período das circulares “Marcellin-Fontanet” (1973);
  • 4) O período da revolução dos cravos (1974-1975);
  • 5) O período das lutas dos imigrantes na França (1976-1981).


A última fase identificada, onde a publicação dá conta das lutas dos trabalhadores, nas quais participaram imigrantes e em particular portugueses, tem a vantagem de provocar um autêntico contraste com a imagem difundida do imigrante despolitizado e de revelar histórias e imagens de um trabalhador combativo contra a exploração dos patrões. Resumindo e concluindo, a capa do número 77 acaba por mostrar que o jornal nunca renegou suas intenções originais, vulgo a de unidade entre os trabalhadores:

“Trabalhadores da Renault, franceses e imigrantes, celebram com alegria o fracasso eleitoral de Giscard, de direita e dos patrões ”(junho-julho de 1981, p. 1).

Um discurso diametralmente oposto ao dos Estados

Estabelecer a imprensa escrita como fonte de informação sobre a história da imigração portuguesa e em particular dos exilados políticos não é uma escolha do acaso. Se por um lado, pode introduzir várias barreiras na interpretação dos fatos, atendendo a que, muitas das vezes, ela segue uma linha editorial rígida, essa fonte também pode ser um marcador de datas, de lugares e de acontecimentos que são necessários à compreensão do período estudado.

Ao mesmo tempo, este tipo de fonte revela-nos o enfoque que o corpo editorial do jornal escolhido assume e que opta por divulgar junto da imigração portuguesa. A forte posição de oposição que o Partido Comunista ocupava no espectro político da época, fornece um discurso baseado num olhar orientado uma direção unilateral, mas que também tem a vantagem de nos mostrar um discurso diametralmente oposto ao dos Estados, quer francês, quer português, sobre as condições nas quais os imigrantes portugueses viviam em França.

A análise de O Imigrado Português permite, pelo fato de ter sido um período muito forte da imigração portuguesa em França, evidenciar a articulação entre o tempo e o espaço desta imigração.
Por fim, a leitura organizada, periódica e analítica que realizei desta publicação mostra a vontade do corpo editorial de O Imigrado Português de se constituir como um pilar da informação relativa à sensibilização para as condições de trabalho dos imigrantes portugueses cuidando da sua dissolução no espectro mais geral dos trabalhadores na França.

  • Em toda a sua existência, o jornal teve apenas dois editores, o primeiro chamado Robert Francotte e o segundo Alex Wolf, que assumiu o cargo do nº 59 da revista (maio-junho de 1977).
  • O acesso a todos os exemplares de O Imigrado Português foi possível através de arquivos privados. Ressalte-se que algumas bibliotecas nacionais ou universitárias possuem a publicação, mas os acervos são muito incompletos.
  • Para uma análise detalhada destas fases ver: ESPÍRITO SANTO, Inês – Dos imigrantes ilegais aos cidadãos europeus: quando os imigrantes portugueses aparecem como trabalhadores (França 1962-2012). Paris: École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), 2013. Tese de doutoramento (online).

Sobre a temática LER

Fotos, fonte Casa Comum – Fundação Mário Soares, autora e ISCTE

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