DOSSIÊ ICE | Das associações ao trabalho editorial

DOSSIÊ IMPRENSA CLANDESTINA E DO EXÍLIO | 1926-1974

SEM FRONTEIRAS | 27 de fevereiro 2021 | DOSSIÊ Imprensa clandestina e do exílio | O Alarme (III)

3 – Apoio e divulgação do trabalho associativo, musical e teatral

Um punhado de portugueses trabalhava nas fabricas mas a grande maioria dos imigrantes  vendia a sua força de trabalho de forma dispersa nas obras da construção civil. Não falavam francês, para muitos a mulher e os filhos tinham ficado na aldeia, viviam bastante isolados e os momentos privilegiados de convívio aconteciam nos mercados e nas associações. Nestes locais encontravam amigos da mesma aldeia, por vezes familiares ou colegas de trabalho. Era importante que o jornal falasse destes espaços de convívio e solidariedade.

Foi por isso que O Alarme sempre deu um relevo especial ao trabalho das associações, clubes, salas e grupos de trabalhadores. As festas, reuniões, discussões, iniciativas culturais e outras atividades tinham sempre um espaço reservado no jornal. O trabalho associativo era uma espécie de colmeia; muita actividade, bom relacionamento, divisão das tarefas, organização, entreajuda.

Foi assim o trabalho associativo

Quantas amizades cresceram aí ? Quantas amigas e amigos franceses e de outras nacionalidades se juntaram ao nosso trabalho? Quantos olhares anunciadores de amores futuros se transformaram em namoricos e amores duradoiros ? Quantos filhos vieram enriquecer todo este trabalho? Foi assim o trabalho associativo.

Logo no primeiro número o jornal informou sobre as festas organizadas em 1972 pela Associação Franco-Portuguesa de Grenoble (AFPG) em Fontaine, St. M. d’Hères, Moirans e Grenoble (que chegaram a reunir 300 pessoas) e, nesse primeiro número um miúdo, o Fernandes, escrevia sobre a sua estadia numa colónia de férias organizada pela Associação Franco-Portuguesa de Grenoble e a Cimade.

Em Dezembro de 1972 dava noticia duma festa realizada no dia 19 de Novembro de 1972 em SMH com a peça de teatro “A hora dos porcos”, um trabalho de Zé Carlos Godinho entre outros.

Festas pela Europa fora

No ano seguinte foi dando informações sobre as festas realizadas em Grenoble na Sala Paul Bert a 13 de Janeiro e de uma outra  realizada no dia seguinte em Annecy, assim como da abertura duma sala  em Chambery e de uma festa realizada dia 1 de Julho pela Associação Portuguesa de Gentilly-Arcueil com o grupo  “Os Camaradas”. No jornal informa-se que nesta festa foram recolhidos 185 Francos para apoio à luta dos pescadores de Matosinhos. Divulgava ainda as festas do dia 1 de Novembro em St. Bruno (Grenoble), do dia 2 na Dinamarca com o “Teatro Operário” e “Os camaradas”, e do dia 3 na Suécia também com “Teatro Operário” e “Os Camaradas”. Noticiava-se que tinham estado presentes 300 pessoas.

Em Janeiro de 1974 deu a noticia duma festa em Belleville com “O Teatro Operário” e “Os Camaradas” com a presença de 400 pessoas e em Fevereiro noticiou a festa de inauguração  do  Clube dos Trabalhadores do Centro de Paris. A 23 de Dezembro 1973 divulgou as festas  com Carlos Nazaré, Zé Mário Branco e “Os camaradas” dizendo terem assistido 300 pessoas e uma outra festa dia 31 de Dezembro organizada pela Associação dos Trabalhadores de Gentilly-Arcueil com o “Teatro Operário” de Issy les Moulineaux.

No ano seguinte, em Março 1974 deu a noticia de duas festas, uma dia 2 de Fevereiro 1974 na Sala Paul Bert em Saint Martin d’Hères com o ” Teatro Operário”, “Os Camaradas” e os ” Pioneiros” com uma sala cheia com mais de 400 pessoas e outra organizada pelo Clube dos Trabalhadores do Centro de Paris com o rancho folclórico de Francoville também com um público de 250 pessoas.

4 – Apoio à luta das mulheres duplamente exploradas

Cedo nos apercebemos da dupla exploração das mulheres. Depois de um dia de trabalho eram as canseiras da casa e dos filhos. Engravidar sem o querer, mais um filho para sustentar, o receio de falar ou de ser ouvida, muitas das vezes a incompreensão na família ou no casal. Como fazer ?

As mulheres  assumiram sempre um papel relevante ; participavam na redacção do Alarme, nas peças de teatro, no Comité de Desertores, escreviam regularmente artigos para o Jornal, desenvolveram um trabalho enorme junto das mulheres e deram-lhes apoio quando queriam abortar. Sempre vigilantes e criticas com as atitudes machistas. Era fundamental que as mulheres abordassem estas questões no jornal e lutassem pela sua emancipação e igualdade com os homens.

Solidariedade e condição da mulher

Em Outubro de 1972 publicavam um artigo intitulado ; » O que é preciso saber – Se esperas um filho. » « O tempo em que se espera um filho é de muita alegria, mas não te esqueças que em França tudo é complicado, por isso, é necessário, desde o inicio da gravidez prestar atenção a tudo o que é preciso fazer para que tenhas aquilo a que temos direito » »…primeira visita pré-natal…antes do fim do 3° mês…..declarar a gravidez antes do fim dos 3 primeiros meses….passar as visitas médicas pré-natais do 6°, 8° e 9° mês .. » e outras indicações.

Em Março 1973 escreviam sobre a solidariedade e condição da mulher africana, e em Junho do mesmo ano publicavam um artigo em defesa da médica Annie Ferry-Martin que tinha sido presa por ajudar uma jovem a provocar o aborto . Após uma grande manifestação em Grenoble, escreviam «Um dia depois a policia foi obrigada a por a médica em liberdade porque ela não estava sozinha, tinha ao seu lado um grupo de médicos e grande parte do povo não só de Grenoble como de toda a França. Este grupo de médicos em conjunto com a população dirigiram-se ao tribunal a pedir a liberdade da Dra. Houve mais de 600 pessoas que deram o seu nome e morada para serem também julgadas como ela, declarando-se responsáveis pelos 500 abortos que foram feitos em Grenoble por este grupo » e o artigo prosseguia  »as mulheres ricas podem muito bem ir à Suíça ou a Inglaterra onde o aborto não é proibido. Então os operários que tenham filhos para fazer a guerra» e finalizava « A lei que viria a autorizar a interrupção voluntária da gravidez (A lei Veil –IVG-) , só veio a ser votada em França em 17 de Janeiro de 1975.

Desenhos para ilustrar

Em Agosto escreviam sobre a utilização da pílula , sobre as reticências ou vergonha que poderiam ter as mulheres em ir ao médico e comunicavam  direcções e telefones de 4 médicos em Grenoble que as podiam ajudar, e em Outubro informavam sobre os métodos de contracepção; o DIU, a ligadura das trompas, o diafragma e o preservativo masculino. Estes artigos eram sempre ilustrados com desenhos para facilitar a compreensão.

5 – Trabalho editorial

Para acompanhar o trabalho do jornal as edições temáticas tiveram uma grande importância, na organização das peças de teatro, nos grupos de discussão, levando mais longe o debate para dentro das casas.

São de salientar algumas edições : O 18 de Janeiro de 1934– peça de teatro edição conjunta do O Teatro Operário e do Alarme. O Calendário Proletário 1974 . edição conjunta do O Teatro Operário e do Alarme. Seara de Trigo que seja para todos edição do Alarme em 1973 (penso que o autor é José Carlos Perdigão). As mulheres escrevem sobre os seus problemas (1973), livro com recolha de artigos do Alarme. Todos unidos na luta venceremos  e  Todos Unidos tiramos o João da cadeia  de memoria, peças de teatro com escrita e encenação de José Carlos Godinho.

Manuel Branco | Fevereiro 2021

Manuel Branco, editor do Alarme e colaborador permanente do SEM FRONTEIRAS

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