Uma pandemia feminina

DIA INTERNACIONAL DA MULHER 2021

SEM FRONTEIRAS | Opinião | Dia Internacional da Mulher

por Martha Mendes

Num mundo onde, todos os dias, assistimos a atropelos aos direitos das mulheres o combate pela igualdade de género nunca está terminado. A pandemia da Covid-19 é um bom exemplo de como esta luta nunca acaba: mulheres esmagadas pela conciliação da vida profissional com a familiar, do teletrabalho com o ensino à distância, dos filhos com os objetivos profissionais.

Mulheres atoladas em cuidados parentais e trabalho doméstico – um trabalho invisível e desvalorizado – vítimas de precariedade laboral e de desigualdade salarial. O peso do mundo sobre os ombros femininos. Mulheres na linha da frente de muitos dos setores considerados essenciais: na saúde, na educação, nos serviços, nos supermercados e lojas, nas limpezas e na frente do combate à Covid-19, nos hospitais, nos lares, nos diversos serviços que nunca encerraram durante a pandemia. Cerca de 75% destas funções – consideradas essenciais – são asseguradas por mulheres. Mulheres essenciais, mas pouco valorizadas.

Emprego e femicídio

A pandemia só veio reforçar a urgência deste combate. Entre março e abril de 2020, 9 em cada 10 pessoas que perderam o emprego era mulheres. Com elas fechadas em casa, aumentaram também os casos de violência doméstica: mais de 30% das queixas apresentadas são novos casos (mulheres vítimas de violência pela primeira vez).

Houve 27 vítimas de femicídio, em Portugal, em 2020; 80% das vítimas de violência doméstica são mulheres; mais de 90% das vítimas de crimes sexuais são mulheres. Números que gritam por elas e nos convocam a todos. De acordo com dados da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), nos últimos 16 anos foram mortas 564 mulheres – quase três por mês desde 2004. A pandemia retirou a independência económica a centenas de mulheres, roubando-lhes, assim, a oportunidade de quebrar círculos viciosos de abusos, maus-tratos e violência – situações transversais a todas classes sociais, idades e culturas. Para muitas mulheres, em todo o mundo, a casa de família não é um abrigo, nem um porto seguro. É um espaço de terror. E a rua, o mercado de trabalho, um espaço de injustiça e de desigualdade.

Igualdade de oportunidades

Elas têm um nível de escolaridade superior, mas ganham menos e raramente chegam a cargos de poder e de chefia. Há mais mulheres desempregadas do que homens e um quarto das mulheres portuguesas que não trabalhavam fora de casa, em Portugal, em 2019, apontavam as “responsabilidades familiares” como motivo para a sua inatividade profissional – uma justificação que serve apenas 4% dos homens na mesma situação. Em 2020 matricularam-se nas universidades portuguesas quase 215 mil mulheres e apenas 182 mil homens. Quase 60% dos estudantes que terminaram o curso em 2019 são mulheres. Onde é que elas estarão em 2040?

O estádio de desenvolvimento de uma sociedade mede-se pela forma como esta garante a todos – por igual e independentemente do sexo, idade, credo ou cor – a igualdade de oportunidades. Esta luta, por um mundo mais igualitário, não tem género: é de todos e convoca todos. Num mundo onde, todos os dias, assistimos a atropelos aos direitos das mulheres o combate pela igualdade de género nunca está terminado. Hoje é Dia Internacional da Mulher, mas amanhã é outro dia. E continua a ser dia de construir o caminho.

Martha Mendes Martha Mendes é licenciada em Jornalismo, mestre em Comunicação e Jornalismo e doutoranda em Ciências da Comunicação. Tem 35 anos e trabalha há cerca de 15 na área da Comunicação. É mãe de duas meninas.

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