DOSSIÊ | A guerra colonial no espaço público

GUERRA COLONIAL | 60 ANOS DEPOIS | 1961-2021

SEM FRONTEIRAS | 21 de março 2021 | DOSSIÊ Guerra Colonial 60 anos depois

Carlos Ribeiro – SF, com a colaboração de Vitor Guerreiro de Brito, arquiteto

A história das guerras costuma ser contada pelos vencedores. Geralmente é à sua versão que se dá crédito. Na Guerra Colonial não foi só a derrota numa guerra, deslocada no tempo da defesa dos impérios coloniais, foi também a derrota de um regime. Há quem o queira sorrateiramente recuperar através da narrativa de uma história dos soit disant não-totalmente vencidos. Essa história de semi-vitória encontra-se representada de forma subliminar na estatuária associada aos “combatentes do ultramar” que se instalaram e instalam em muitos concelhos do país.

Veja-se que apesar de terem morrido mais soldados franceses no Haiti, em 1803 aquando da revolta dos escravos, que em Waterloo, foi a derradeira batalha de Napoleão que marcou e marca a história gaulesa. No país caribenho tratou-se de uma revolução na consequência da qual os haitianos instalaram um governo negro e conquistaram a independência. O fim da escravatura e o elevado números de soldados mortos poderia ter seduzido os franceses para uma abordagem mais equilibrada na estatuária do país. Mas não, o valor histórico acaba por não pesar quase nada na narrativa que os poderes instituem como útil para os seus desígnios. A título de curiosidade, em Waterloo está hoje presente uma estátua de Napoleão, o vencido e, de Wellington, comandante das tropas da Aliança, nem sombra. O marketing e o turismo exigem uma gestão dos acontecimentos históricos com vantagens.

Esta questão já esteve presente no debate público por diversas vezes e valerá a pena recuperar a opinião do historiador Fernando Rosas quando a estátua ao soldado-combatente de Cabral Antunes (1971) foi reposicionada, na Praça 25 de Abril (ex- Praça dos Heróis do Ultramar) aquando da construção do estádio em Coimbra para o Euro 2004. Na reinauguração oficial, em 2005 Fernando Rosas denunciou o revivalismo colonialista promovido por governos de direita que exaltavam “A heroicidade da guerra e dos combatentes, a recuperação do colonialismo e da guerra colonial como momentos altos de continuidade histórica com o passado das descobertas e da ‘expansão’ portuguesa” (Rosas, Público, 27 Abril 2005)

Estátua em bronze, obra de Cabral Antunes (1971), Coimbra.

Vem isto a propósito do sentido que pode ser atribuído à instalação, no espaço público, de elementos com preponderância na paisagem relacionados com a guerra. O assunto tem vários campos de exploração temática e será difícil separar, por exemplo o respeito pelos combatentes e até mortos em combate, principalmente de familiares, com a valorização do processo bélico no qual os acontecimentos terão ocorrido.

Vitor Guerreiro de Brito é um arquiteto que foi confrontado com esse dilema. Com posições categóricas anti-coloniais, como profissional de arquitetura e como filho de um ex-combatente nas colónias, procurou com o escultor Renato Silva encontrar uma abordagem equilibrada para uma encomenda que teve que concretizar, recentemente, para um município algarvio.

Fica aqui a exposição do conceito e das linhas estéticas e afetivas que o orientaram,

Tributo

Pretendeu-se criar um tributo aos militares do concelho (e de todo o país) que durante 13 anos (1961-1974), estiveram expostos a uma guerra terrível, que deixou marcas profundas num povo empobrecido o qual via partir o melhor que possuía – os seus filhos. E aqui faço um tributo a titulo pessoal, ao meu pai, que já não se encontra entre nós e que combateu na Guiné. Mas pretendo chegar mais longe, o tributo é dirigido também a todos os filhos destes ex-militares, aos seus pais, às suas mulheres, irmãos e amigos que escutaram episódios de guerra contados na primeira pessoa. 

Descrição da peça

É a partir de peças menores em forro de pedra, as quais estão ligadas entre si, que se obtém o bloco em paralelepípedo de mármore negro com a altura de 1,70m por 1,00mx1,00m de base.  

Desta peça negra, “rompe” outro paralelepípedo de cor branca, que simboliza a pureza e o amor, local onde estão gravados os nomes dos que tombaram em campanha – em duas faces (numa delas com os que tombaram em Angola e Moçambique e na outra os que tombaram na Guiné). Ainda e numa terceira face estão gravados os três rostos dos militares que representam os três ramos das Forças Armadas – Armada, Exército e Força Aérea, respectivamente. 

Assim, o “bloco negro” simboliza a guerra, o desconhecido e o perigo. O rasgar abrupto da pedra negra num dos topos, como que tivesse existido um “estilhaço de granada”, faz surgir a pureza, o desejo de liberdade, de onde emergem num dos topos da pedra branca, e frases como: “Amor de mãe” e “Sangue, suor e lágrimas”. 

Ainda no “bloco negro”, está desenhado o mapa do Continente Africano e do sul da Europa, tendo como destaque os países onde a guerra decorreu – Angola, Moçambique e Guiné, com localização também de Portugal de forma a perceber-se o contexto geográfico. 

A iluminação é efectuada a partir de projectores devidamente direcionados. 

Na ambivalência da situação, pretende-se obter um equilíbrio formal da peça, a qual possa transmitir memória, introspeção e respeito. No fundo, que procure fazer refletir aquele que a observa, prestando assim um tributo à memória daqueles que morreram e um respeito sentido aos que sobreviveram. 

Com este projecto e obra, presta-se uma justa homenagem aos que serviram a pátria num determinado momento da nossa história e que de uma forma altruísta e também ingénua participaram numa guerra que deixou marcas muito vincadas nos próprios, nas suas famílias, em Portugal e nos países africanos onde a guerra decorreu. 

Victor Guerreiro de Brito , arquitecto (Renato Silva, escultor)

O memorial do Porto

Recentemente foi anunciado que os trabalhos do Memorial do Porto aos Combatentes do Ultramar deverão ficar concluídos até ao final de março. O monumento ficará localizado mesmo ao lado da Capela do Senhor e Senhora da Ajuda. O projeto foi assinado pelo arquiteto Rodrigo Brito, vai ser instalado em Lordelo do Ouro.

A iniciativa da Associação para o Monumento de Homenagem aos Militares do Porto que combateram no Ultramar, apoiada pela Câmara do Porto, para homenagear os militares do Porto que combateram no ultramar, consistirá na instalação de um memorial, que contempla a construção de uma praça hexagonal composta por cinco lápides e oito bancos, todos revestidos a granito.

O conceito aparenta fugir ao estereotipo do “memorial valorizador da heroicidade na guerra” mas revela uma estrutura que coloca a guerra colonial como quadro perfeitamente legitimado.

Esta avaliação da presença no espaço público da Guerra Colonial está por fazer. O que é certo é que ela dificilmente consegue escapar à mensagem daqueles que, por uma razão ou outra, acham indispensável piscar o olho aqueles que, tendo combatido uma vez, podem sempre combater uma outra, com armas na mão ou sem elas, a seu favor. Claro!.

Be the first to comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*