DOSSIÊ | A guerra colonial no espaço público II

DOSSIÊ GUERRA COLONIAL | 60 ANOS DEPOIS 1961-2021

SEM FRONTEIRAS | 24 de março 2021 | Dossiê Guerra Colonial – 20 anos depois | OPINIÃO

por Jorge Leitão

Tenho presente na memória uma fotografia de uma jovem mulher vestida de negro, com lenço negro que lhe cobre a cabeça, rosto expressando dor e luto, ao mesmo tempo que um militar com posto de oficial superior lhe prende uma medalha na blusa negra. À volta, ocupando a praça, numa posição fronteiriça, uma companhia militar fazendo parte do aparato que a circunstância impõe.

Nota-se, pela expressão de contrafeito e pela forma de vestir, que a jovem – esposa, irmã, noiva ou namorada de um jovem vitima da guerra – não vive na cidade onde a cerimónia se realiza, e um pouco alheada do que se passa e constrangida lá vai fazendo o papel que lhe coube. O Estado nunca lhe deve ter dado nada, só agora: na forma de uma medalha em troca de uma vida que lhe foi roubada. Sempre que vejo os monumentos em “homenagem aos que serviram a pátria no ultramar” vem-me à memória a imagem desta jovem. Agora em vez das medalhas são os monumentos que tentam vincular a campanha militar nas colónias com o imperativo da defesa da pátria – e que este imperativo tem um preço, o “tributo de sangue”

Reflexão sobre a guerra

Um monumento digno desse nome, dedicado às vitimas portuguesas desses 13 anos de guerra deveria levar, a quem o contempla, à reflexão sobre a guerra nas colónias e desencadear a auto-interrogação sobre a razão e sentido da morte e invalidez de milhares de jovens ao serviço do exército do regime da altura. Infelizmente não é isso que é manifesto nesses monumentos que proliferam em todo o país, transparecendo em todos eles como seu fundamento, o de “cumprir um acto de justiça, de homenagem àqueles que, como Combatentes, serviram Portugal no ex-Ultramar português” (*).

Este lema é um atavismo duma época que se julgava ultrapassada, e é um reflexo da propaganda desses anos de guerra. Subsiste teimosamente a grande mentira, concebida e alimentada pelo regime fascista, de que a luta contra os movimentos de libertação e independência nas colónias era, por parte de Portugal, uma luta pela defesa da pátria. Mas, como se sabe … nenhum militar foi para África defender a pátria portuguesa. Procura-se uma justificação para a morte de 8 mil jovens portugueses e só se encontra um sentido canhestro de participar numa guerra que não fazia desde o seu início nenhum sentido, imposta pelo caquético, casmurro, pouco iluminado e relho de Santa Comba, juntamente com os seus acólitos, muito deles com uniforme militar.

Perpetuar um mito

Este reaparecimento deste tipo de discurso faz destes monumentos um eco do Estado Novo e da sua crença na justeza da guerra em África pela conservação do Império. Os monumentos inserem-se no conjunto de rituais, de discursos, e outras características e práticas  culturais com que o regime fascista imaginava a nação. Estes conjuntos recriam a imagem mitológica fascista do carácter de Portugal integrante com a sua missão de colonizador. Sem colónias, Portugal não existe. 

Nesses monumentos, esses jovens mortos em África são representados como militares, sacrificados no “altar da pátria” – é essa, em síntese, a mensagem. Não se tenta encontrar o indivíduo por detrás da farda (A peça no Algarve de Vitor Guerreiro de Brito e Renato Silva, com três efígies representando os três ramos das forças armadas, não é excepção). O pesar e sofrimento dos muitos milhares de familiares e amigos dessas vitimas é passado ao largo. De facto, a memória desses jovens como maridos, pais, filhos, irmãos, amigos, não é respeitada. Não é isso que interessa. O que se pretende é perpetuar o mito dos feitos impares dos portugueses quando militares e da heroicidade contínua do exército português, sejam os mesmos fundamentados ou não.

Mãe com seu filho morto

Vendo-se todos estes monumentos, quão diferente é a escultura de Käthe Kollwitz “Mãe com seu filho morto”, uma réplica da qual, em grande formato e como memória às vitimas da guerra, se encontra no Neue Wache em Berlim. A obra original de Kollwitz de 1937 foi realizada por ocasião do aniversário da morte do seu filho Peter na Primeira Grande Guerra. E por isso mesmo, a narrativa é outra, muito diferente da dos monumentos que pretendem fazer tributo à memória dos mortos na circunstância de militares, não como seres humanos e individuais, com um passado próprio e com um futuro que lhes foi roubado.

A a independência das colónias era, mais tarde ou mais cedo, um facto inevitável, e com outro tipo de pessoas no governo de Portugal, com uma visão mais inteligente e menos míope, a independência das mesmas poderia ser obtida sem a guerra; o que leva a concluir que como resultado final e produto desta só houve uma coisa: só vítimas. Todas estas considerações, aqui expostas, conduzem à inevitável e oportuna pergunta: quando é que em Portugal se erigirá um digno monumento às VÍTIMAS da guerras colonial? E que compreenda todas as vítimas: portuguesas e não portuguesas, militares e civis, mortos e feridos. 

(*) Liga dos Combatentes, MUSEU DO COMBATENTE – Forte do Bom Sucesso: Objectivos.

Segundo a Liga dos Combatentes, a situação do monumento no Forte do Bom Sucesso nas imediações da Torre de Belém, é um local muito apropriado, com “Grande dignidade e tradições ímpares ligadas à nossa epopeia do Ultramar”.

Jorge Leitão, autor

Foto de destaque | © Jorge Leitão | Interior do Neue Wache, Berlim, com a estátua de Käthe Kollwitz “Mãe com seu filho morto” como memória às vitimas da guerra. Um lugar para reflexão.

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