Corrupção no salazarismo, o caso Barbieri

COMBATE À EXTREMA-DIREITA

COMBATE À EXTREMA-DIREITA | Investigação – publicações

por Irene Pimentel

O caso de Agostinho Barbieri Cardoso, n.º 2 da PIDE, que saiu durante dois anos desta polícia, incompatibilizado com o novo director da mesma, coronel Homero de Matos.

«Em 14 de Dezembro de 1960, incompatibilizado porém com o novo director da PIDE, Agostinho Barbieri Cardoso deixou durante quase dois anos a corporação policial. Recorde-se que, ao chegar à chefia da PIDE, nesse ano de 1960, o coronel Homero de Matos quis recolocar essa polícia sob controlo do director, afastando em particular Agostinho Barbieri Cardoso. Este tinha sido nomeado, dois anos antes, subdirector da PIDE , devido à sua actuação de relevo durante o chamado “terramoto delgadista”, ao contrário do então director, capitão António Neves Graça, caído em desgraça e substituído pelo coronel Homero de Matos”.

Cartas de Barbieri e Homero

Barbieri Cardoso continuava próximo de Salazar e, mesmo quando tratava de questões particulares, as cartas enviadas por aquele ao chefe do governo tinham o timbre da PIDE. Numa ocasião, Barbieri Cardoso intercedeu, junto do ditador, a favor de familiares da sua mulher, que pretendiam realizar determinadas obras públicas e tinham sido preteridos num concurso a favor de outra empresa . Relativamente ao conflito com Homero de Matos, Barbieri Cardoso agradeceu a Salazar «a extrema bondade e a santa paciência com que resolveu o triste incidente».

Aproveitando para reafirmar a grande amizade que nutria pelo Presidente do Conselho, terminava, a manifestar a sua mais profunda gratidão pelo que este tinha feito por ele e pela sua família . A ausência da subdirectoria da PIDE não deixou, no entanto, Barbieri Cardoso desempregado, pois foi nomeado vice-presidente da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau. Quem então lamentou a requisição de Barbieri Cardoso para essa Comissão, possibilitando a saída de um funcionário que não tinha dado a «colaboração necessária ao bom desempenho das funções que o director com tanto afinco procurava melhorar» , foi Homero de Matos, numa carta enviada ao ministro do Interior, Arnaldo Schultz. Homero de Matos afirmou que Barbieri Cardoso teria demonstrado «abuso de autoridade, invasão de atribuições e de jurisdição».

As intrigas de Barbieri

Cardoso havia fornecido ao inspector Jorge Marques Ferreira um passaporte especial para este se ausentar estrangeiro, sem que tivesse requerido a respectiva licença ao Ministério do Interior e tal facto, segundo Matos, era tanto mais grave porquanto a correspondência da PIDE só podia ser assinada por um inspector superior ou pelo director, como este havia determinado. Além de considerar que Barbieri Cardoso se tinha revelando ser um «foco de indisciplina, insubordinação e de intrigas», Homero de Matos relatou outros episódios, entre os quais o facto de aquele ter providenciado que lhe fosse endereçada em nome pessoal a correspondência do Ultramar – Guiné e Angola –, dirigida ao director, conseguindo assim tomar conhecimento do conteúdo da mesma em primeira mão.

Face à desobediência reiterada de Cardoso, Homero de Matos afirmou ter decidido puni-lo de uma forma que lhe permitisse refazer a sua vida fora da PIDE, «sem que o labéu infamante de ausência de lealdade, indisciplina e insubordinação o prejudicasse». No entanto, não podia deixar de manifestar desacordo com a sua nomeação para a Comissão Reguladora, num período altamente complexo e transcendente para a vida nacional.

O acólito na Imprensa

Era, por outro lado, «pouco elegante sob o ponto de vista moral e profissional, que um funcionário superior da PIDE» transitasse de «uma posição arriscada para uma outra completamente diferente sob esse aspecto», num período em que o quadro dessa polícia era insuficiente e o do Ultramar estava desocupado .

A partir de 1962, Barbieri Cardoso viria a retomar o seu lugar na PIDE, tornando-se um dos principais interlocutor entre essa polícia e Salazar. Um ex-preso político relatou um episódio em que o então agente Sílvio Mortágua lhe afirmou que o «senhor presidente do Conselho sabe tudo o que se passa nas cadeias; vai todos os dias a despacho o mapa de situação dos presos». Tal «despacho com a PIDE era cerimónia quotidiana, devoção sagrada», realizando-se habitualmente depois do jantar, com a chegada ao primeiro andar da residência da Rua da Imprensa, o director da Polícia Política; ou, mais frequentemente, «o acólito preferido, Barbieri Cardoso» .

Por Irene Pimentel, historiadora | Editado por CR SEM Fronteiras (subtítulos)

A prestigiada historiadora Irene Flunser Pimentel apresenta-nos um retrato rigoroso de cinco das principais figuras que marcaram a PIDE/DGS pelas suas actividades, atitudes e tomadas de decisão: Barbieri Cardoso, Álvaro Pereira de Carvalho, José Barreto Sacchetti, Casimiro Monteiro e António Rosa Casaco. Perceber quem eram estes pilares, a sua ascendência, as suas convicções, a forma como entraram para a PIDE, como subiram na carreira, como reagiram perante determinadas situações, bem como viveram o pós-25 de Abril, é também perceber a história da PIDE/DGS, pois uma instituição é, sobretudo o que os seus responsáveis fazem dela. Uma perspectiva inovadora e essencial para compreender a História de Portugal Contemporânea.

2 Comments

  1. Passaram muitos anos mas ainda um frémito de medo se apodera de mim ao lembrar os anos em que a minha família viveu, em Leiria, no primeiro andar direito de um prédio de dois andares onde fomos sacudidos pelo tremor de terra de 1969. Piores, porém, foram as sacudidelas à minha jovem pessoa que resultaram das provocações que o director da então Escola do Magistério Primário, um energúmeno da Acção Nacional que morava no piso de cima, organizava expressamente para provocar o meu Pai. Podia ser esbofetear-me ao portão de entrada, arranjar um sistema para que nos chovesse dentro de casa sem causa à vista ou cortar o fio de ligação à terra que permitia sintonizarem-se, lá em casa, os postos em ondas curtas, como a BBC.
    Aquelas escadas suaves e bem lançadas de um prédio para gente com muito razoável condição social, que eu descia e subia diariamente duas ou três vezes para ir ao liceu e às outras actividades que faziam parte da minha formação, eram também frequentadas, com uma frequência tanto maior quanto mais se aproximava o final do ano lectivo, por uma série de recoveiros de estabelecimentos comerciais que, lá sucedia, se enganavam no andar e pretendiam entregar em nossa casa os presentes «para o sr. director». Eram os presentes que compravam a nota mínima de que as jovens professoras primárias necessitavam para poderem ir juntar-se aos maridos ou noivos a cumprir a guerra colonial nas várias «províncias ultramarinas». Era assim. Ou não me tenha a minha Mãe metido em um roupeiro no dia em que teve que ir à rua buscar o meu Pai que, paciência excedida, dali chamava o «palhaço» para descer e ir dizer-lhe o que tivesse a dizer… com uma arma mão. Era assim. A dignidade esmagada por manobras de diversão e o medo sempre latente.

  2. Excelente o artigo de Irene Pimentel e importante, quando a extrema direita procura difundir a ideia de que no tempo do Salazar não havia corrupção.

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