{"id":4401,"date":"2024-05-19T17:51:53","date_gmt":"2024-05-19T17:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/aep61-74.org\/?p=4401"},"modified":"2024-05-20T12:11:56","modified_gmt":"2024-05-20T12:11:56","slug":"no-luxemburgo-houve-uma-celula-de-resistencia-a-ditadura-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2024\/05\/19\/no-luxemburgo-houve-uma-celula-de-resistencia-a-ditadura-portuguesa\/","title":{"rendered":"NO LUXEMBURGO HOUVE UMA C\u00c9LULA DE RESIST\u00caNCIA \u00c0 DITADURA PORTUGUESA"},"content":{"rendered":"\n<p>RICARDO J. RODRIGUES<\/p>\n\n\n\n<p>em revista Contacto 25 de abril 50 anos<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"728\" src=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/contacto-25-de-abril-50-anos-copy-1024x728.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4402\" srcset=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/contacto-25-de-abril-50-anos-copy-1024x728.jpg 1024w, http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/contacto-25-de-abril-50-anos-copy-300x213.jpg 300w, http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/contacto-25-de-abril-50-anos-copy-768x546.jpg 768w, http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/contacto-25-de-abril-50-anos-copy.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>EM 1971, ANT\u00d3NIO PAIVA RECEBEU ORDENS PARA CRIAR NO GR\u00c3O-DUCADO UMA UNIDADE DE LUTA CONTRA O ESTADO NOVO. DURANTE TR\u00caS ANOS,JUNTOU PORTUGUESES E LUXEMBURGUESES PARA P\u00d4R EM CAUSA O REGIME E A GUERRA COLONIAL. MEIO S\u00c9CULO DEPOIS,RECONSTITU\u00cdMOS PELA PRIMEIRA VEZ A HIST\u00d3RIA DESSES DIAS DE COMBATE.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Paiva tinha chegado h\u00e1 menos de um m\u00eas a Paris quando lhe propuseram a primeira viagem ao Luxemburgo. Foi em outubro de 1970. \u201cEu tinha fugido a salto nesse ver\u00e3o. Fugi da PIDE, a pol\u00edcia pol\u00edtica portuguesa, que me queria prender&#8221;, conta agora num caf\u00e9 na capital do Luxemburgo, cinquenta anos depois da ditadura contra a qual lutou se ter desmoronado. \u201cSe fosse apanhado sabia que ia ficar preso por tempo indeterminado, torturado como muitos dos meus companheiros, ou embarcado \u00e0 for\u00e7a para uma guerra colonial com que n\u00e3o concordava. Preferi sair do meu pa\u00eds e continuar a luta a partir da di\u00e1spora.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Andava envolvido na contesta\u00e7\u00e3o ao regime desde 1968 &#8211; e em 1969 tinha integrado o Comit\u00e9 Marxista-Leninista Portugu\u00eas (CMLP), uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina que tentava boicotar pacificamente a ditadura. \u201cN\u00e3o estava envolvido em nenhuma forma de luta armada&#8221;, assegura. \u201cO meu trabalho era de escrever poemas, imprimir e distribuir secretamente uma publica\u00e7\u00e3o chamada &#8216;O Grito do Povo&#8217;, que punha em causa o regime, a falta de liberdade e a guerra colonial. \u201cPara o Estado Novo, essa era afronta mais do que suficiente para o calabou\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou \u00e0 capital francesa com uma m\u00e3o \u00e0 frente e outra atr\u00e1s, mas v\u00e1rios contactos entre outros o Comit\u00e9 dos Desertores, que operava a partir do oitavo &#8216;arrondissement&#8217; da cidade. De dia trabalhava a servir \u00e0s mesas, de noite marchava ao Teatro Oper\u00e1rio, comandado pelo encenador H\u00e9lder Costa, que depois do 25 de Abril se haveria de tornar num dos fundadores do Teatro d&#8217;A Barraca, em Lisboa. \u201cEm outubro de 1970, poucas semanas depois de chegar, o grupo foi todo ao Luxemburgo apresentar uma pe\u00e7a de teatro e um concerto para a emigra\u00e7\u00e3o portuguesa. A estrela de servi\u00e7o era o Zeca Afonso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A comitiva viajou de autocarro. Faltavam ainda quatro anos para &#8216;Gr\u00e2ndola, Vila Morena&#8217; ser usada como contrassenha e s\u00edmbolo da revolu\u00e7\u00e3o que derrubaria o regime &#8211; mas o autor da can\u00e7\u00e3o, Zeca, era j\u00e1 uma figura reputada da m\u00fasica de contesta\u00e7\u00e3o. \u201cTivemos dois espet\u00e1culos, um na Maison du Peuple, em Esch, e outro no Casino Syndical, em Bonnevoie. No primeiro o Zeca n\u00e3o cantou, s\u00f3 apresent\u00e1mos uma pe\u00e7a chamada &#8216;O Soldado&#8217;, que era muito cr\u00edtica contra a guerra nas col\u00f3nias&#8221;, lembra Paiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVimos logo que a comunidade emigrante tinha ficado desiludida, esperavam um espet\u00e1culo popular e um bailarico e n\u00f3s t\u00ednhamos vindo para ali despejar&#8211;lhes pol\u00edtica para cima.\u201d Houve assobios e apupos, e o grupo refletiu se haveria de repetir a dose na noite seguinte, na capital. Mas tinham vindo ao Luxemburgo, ent\u00e3o agora era tudo ou nada. Zeca Afonso pegou na guitarra e de repente algu\u00e9m lhe gritou para o palco: \u201cSe tens tomates, canta a Catarina. \u201cA cantiga que o m\u00fasico tinha escrito em homenagem a Catarina Euf\u00e9mia, a agricultora assassinada gr\u00e1vida pela pol\u00edcia no Alentejo durante uma greve, tinha-se tornado num \u00edcone da resist\u00eancia.\u201d E foi a\u00ed que as coisas come\u00e7aram a dar para o torto\u201d, conta Ant\u00f3nio Paiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Sete homens faziam fila em frente ao palco, vestindo camisas negras. \u201cEram agentes da pol\u00edcia pol\u00edtica portuguesa, seguramente. Aos primeiros acordes sa\u00edram da sala e passado nem um minuto um luxemburgu\u00eas come\u00e7ou a gritar que ia chamar a pol\u00edcia. Foi uma rebaldaria, com toda a gente a fugir e n\u00f3s tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Pod\u00edamos estar num pa\u00eds livre, mas as marcas da ditadura tinham-se-nos colado \u00e0 pele&#8221;, diz Paiva. Quando regressou a Paris, contou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do Comit\u00e9 o que se tinha passado. E lamentou que num pa\u00eds onde trabalhavam tantos portugueses n\u00e3o houvesse nenhum n\u00facleo de resist\u00eancia e consciencializa\u00e7\u00e3o das massas. \u201cHavia esta circunst\u00e2ncia estranha de vermos as v\u00edtimas do salazarismo a defenderem o seu carrasco. Muita desta gente tinha fugido \u00e0 mis\u00e9ria, \u00e0 guerra e ao fascismo, mas continuava a acusar os contestat\u00e1rios de traidores \u00e0 p\u00e1tria. Era preciso educar, formar, explicar&#8221;, defende com a mesma convic\u00e7\u00e3o que usou nessa reuni\u00e3o secreta com o CMLP em Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 1971,voltou ao Luxemburgo para criar a primeira c\u00e9lula da resist\u00eancia portuguesa \u00e0 ditadura. Ao longo dos tr\u00eas anos seguintes, haveria de recrutar luxemburgueses e portugueses para o ajudarem na miss\u00e3o. H\u00e1 um cap\u00edtulo desconhecido do vento de liberdade que soprou em Portugal a 25de Abril de 1974 que foi escrito num pequeno pa\u00eds do centro da Europa. Esta \u00e9 a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A REVOLU\u00c7\u00c3O EXTERIOR<\/p>\n\n\n\n<p>Para a historiadora Irene Flunser Pimentel, uma das maiores investigadoras sobre o s\u00e9culo XX portugu\u00eas e o regime do Estado Novo,&#8221; a emigra\u00e7\u00e3o foi essencial para a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos poder acontecer&#8221; Pimentel veio em mar\u00e7o \u00e0 Abadia de Neimeunster, no Grund, para apresentar a edi\u00e7\u00e3o francesa de Ex\u00edlios no Feminino, um livro que escreveu com seis outras mulheres que fugiram da ditadura e lutaram contra ela a partir da di\u00e1spora.<\/p>\n\n\n\n<p>Paris era o centro da contesta\u00e7\u00e3o ao Estado Novo. &#8220;Temos de ver que nos anos sessenta o pa\u00eds tinha assistido a uma sa\u00edda em massa de gente que queria fugir da ditadura e, sobretudo, da guerra&#8221;, enquadra. \u201cEra mais f\u00e1cil chegar ali, fosse por motivos econ\u00f3micos ou de consci\u00eancia. E foi naturalmente a\u00ed que se come\u00e7ou a organizar a resist\u00eancia na di\u00e1spora, partindo depois para Lyon, Genebra, Grenoble e Luxemburgo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O combate do ex\u00edlio fazia-se, em grande medida, pela arte. \u201cEm toda aquela massa humana que sai do pa\u00eds h\u00e1, de repente uma largueza de vistas que tem a ver com os lugares novos onde as pessoas chegaram&#8221;, diz a historiadora. Em Paris, organizam-se bibliotecas, grupos de teatro e s\u00e3o gravadas as m\u00fasicas que v\u00e3o dar embalo \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e aos cravos. O an\u00fancio da mudan\u00e7a chega aos que fugiram e quando eles regressam \u00e0s aldeias levam as novidades desse admir\u00e1vel mundo poss\u00edvel e novo. Livre.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds esvaziava-se, sobretudo por causa da guerra. Em 1961, come\u00e7a uma guerra que tem tr\u00eas nomes: do Ultramar para o regime, Colonial para a oposi\u00e7\u00e3o, de Independ\u00eancia para os povos africanos. At\u00e9 1974, houve cerca de 9.000 desertores e 20.000 refrat\u00e1rios, aos quais se juntaram 200.000 homens que nunca compareceram quando chamados pelos regimentos. A juventude fugia a salto do pa\u00eds e atirava-se ao desconhecido. Para muitos, era melhor sina do que ir para Angola, Guin\u00e9 ou Mo\u00e7ambique, palcos de sangue e l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>O combate travava-se em duas frentes. &#8220;Por um lado, era preciso consciencializar os emigrantes portugueses. O regime em Lisboa n\u00e3o permitia a discuss\u00e3o pol\u00edtica, muita gente partira com baixas qualifica\u00e7\u00f5es-merc\u00ea das pol\u00edticas do Estado Novo. Ao mesmo tempo, chegavam e viam as ideias circular, como o Maio de 68. Era preciso fazer trabalho pol\u00edtico e envolver estas pessoas\u201d, dizia ao Contacto Fernanda Oliveira Marques, tamb\u00e9m ela exilada pol\u00edtica durante a ditadura e tamb\u00e9m coautora do livro apresentado em Neimeunster.<\/p>\n\n\n\n<p>E depois havia uma segunda esfera, important\u00edssima. &#8220;Consciencializar os povos de acolhimento para o problema portugu\u00eas era essencial&#8221;, diz Am\u00e9lia Resende, que esteve exilada em Paris mas tamb\u00e9m noutras capitais europeias.&#8221; Portugal foi o \u00faltimo pa\u00eds europeu a perder as col\u00f3nias, por isso havia j\u00e1 consci\u00eancia pol\u00edtica desse problema na Europa e no resto do mundo. Mas aquilo que se passava em Portugal, toda aquela viol\u00eancia do regime sobre os portugueses, era completamente desconhecida. Havia um sil\u00eancio quase total sobre o assunto e a resist\u00eancia teve um trabalho muito importante de consciencializa\u00e7\u00e3o dos outros pa\u00edses. Que depois podiam exercer press\u00e3o sobre o nosso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi tamb\u00e9m isso que aconteceu em terras luxemburguesas. O esfor\u00e7o de Ant\u00f3nio Paiva &#8211; e da c\u00e9lula que ele criou &#8211; n\u00e3o foi apenas dirigido \u00e0 enorme vaga de m\u00e3o de obra que chegava ao pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma parte muito importante da nossa atividade foi envolver a popula\u00e7\u00e3o local e conseguimos em grande medida fazer isto. Tivemos grupos, organiza\u00e7\u00f5es e indiv\u00edduos luxemburgueses que ajudaram a criar um ambiente contestat\u00e1rio e um sentido que n\u00e3o existia antes de desafio&#8221;, diz com ineg\u00e1vel orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, muitos desses luxemburgueses haveriam de ir para o sul da Europa ajudar a reconstruir e reeducar uma na\u00e7\u00e3o que tinha passado 48 anos nas trevas. Entre eles estava Serge Kollwelter, fundador da ASTI-Associa\u00e7\u00e3o de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes. Entre a sua hist\u00f3ria e a de Ant\u00f3nio Paiva, consegue estabelecer-se como a revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser alimentada a partir do Gr\u00e3o-Ducado.<\/p>\n\n\n\n<p>A SEMENTE DA DEMOCRACIA<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou ao Luxemburgo para instalar uma organiza\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia \u00e0 ditadura portuguesa, Paiva n\u00e3o tinha ideia alguma do que iria encontrar. \u201cSenti que havia de facto uma enorme vaga de portugueses que tinham chegado nos \u00faltimos anos, sobretudo transmontanos. Tinham vindo na maioria dos casos com contratos de trabalho e n\u00e3o eram de forma alguma politizados&#8221;, lembra o homem. \u201cA \u00fanica refer\u00eancia que tinha de um opositor ao regime era de um comunista alentejano que vivia no sul do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Foi gra\u00e7as a ele que conheceu o primeiro grupo com quem come\u00e7aria a trabalhar: cinco homens origin\u00e1rios de Campo Maior, contestat\u00e1rios do Estado Novo, com quem se costumava encontrar no Caf\u00e9 In\u00eas, em Dudelange. Com os anos haveria de se juntar gente de Alverca, da Figueira da Foz, do Carregado, de Lisboa, de Vila Franca de Xira. Eram poucos, nunca mais de nove ou dez, e movimentavam-se entre as gotas da chuva. Paiva prefere n\u00e3o lhes revelar as identidades, visto j\u00e1 nenhum deles viver hoje no Luxemburgo. Alguns, assegura, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o sequer vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse outono de 1971 o plano era relativamente simples. &#8220;A primeira coisa que cheguei \u00e0 conclus\u00e3o era que precisava de estar perto das massas, e esses eram os oper\u00e1rios. Ent\u00e3o arranjei emprego numa f\u00e1brica do norte que produzia bunkers para a NATO.&#8221; Poucos dias depois de chegar, percebeu que havia uma amea\u00e7a de greve a exigir melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. \u201cComo eu sabia falar ingl\u00eas e franc\u00eas &#8211; e havia muitos trabalhadores portugueses e irlandeses, ofereci-me para tradutor durante as negocia\u00e7\u00f5es. Foi uma coisa duplamente positiva, porque al\u00e9m de ganhar a confian\u00e7a dos meus colegas, o sindicato LAV, predecessor da OGBL, convidou-me para ser o secret\u00e1rio sindical dos trabalhadores portugueses e espanh\u00f3is no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agora Paiva tinha acesso a muito mais gente e podia mais facilmente espalhar o.discurso antifascista entre a comunidade portuguesa. \u201cEu viajava pelo pa\u00eds inteiro para ouvir os trabalhadores falarem dos seus problemas e das suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Foi a\u00ed que recrutei muita gente que ajudava a preparar manifesta\u00e7\u00f5es e a distribuir &#8216;O Grito do Povo&#8217;, o jornal de contesta\u00e7\u00e3o ao regime que o CMLP produzia\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas aquilo que verdadeiramente o surpreendeu foi o apoio que encontrou no lado luxemburgu\u00eas do sindicato. \u201cHavia um enorme discurso contra o fascismo, porque o pa\u00eds tinha estado ocupado pela Alemanha Nazi. Havia gente daqui que tinha ido combater para as brigadas internacionais durante a Guerra Civil espanhola, opondo-se ao regime de Franco. Era um apoio incomensur\u00e1vel para levar a bom porto os nossos objetivos. E os nossos objetivos eram travar e descredibilizar aquilo que Salazar e Marcelo Caetano tinham criado: um pa\u00eds cinzento, atrofiado, triste.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1972, o presidente do sindicato pediu-lhe que escrevesse para a principal publica\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, amplamente distribu\u00edda no pa\u00eds. Ent\u00e3o Paiva publicou o texto &#8220;Portugal: un pays riche, un peuple pauvre&#8221;. Em tradu\u00e7\u00e3o literal, &#8216;Portugal: um pa\u00eds rico e um povo pobre\u2019. A not\u00edcia caiu como uma bomba. \u201cO c\u00f4nsul de Portugal no Luxemburgo, Mendes Costa, pediu imediatamente a minha extradi\u00e7\u00e3o por denegrir a imagem do pa\u00eds. Abriu at\u00e9 um mandato de captura em meu nome. Mas o sindicato apoiou-me e eu continuei a escrever&#8221;, lembra. Com isso, cresceu a aten\u00e7\u00e3o luxemburguesa sobre o caso lusitano.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de contesta\u00e7\u00e3o seguiu. Paiva motivou a cria\u00e7\u00e3o de dois grupos recreativos onde se jogava futebol e afrontava o Estado Novo: o Clube Oper\u00e1rio de Ettelbruck e o 1\u00b0 de Maio em Mersch. Em 1973, juntamente com algumas organiza\u00e7\u00f5es luxemburguesas, preparou uma exposi\u00e7\u00e3o na Place d&#8217;Armes contra a guerra colonial, apoiada por uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es locais. Entre os mais entusiastas apoiantes do discurso de Paiva estava Serge Kollwelter, o cat\u00f3lico luxemburgu\u00eas que haveria de fundar a ASTI.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente, nesse dia no centro da capital, tudo virou. \u201cApareceu um grupo de portugueses aos murros e pontap\u00e9s, que tentaram destruir aquilo tudo. Eram agentes da PIDE infiltrados, obviamente, e tinham vindo a mando de Mendes Costa, disso estou certo\u201d, conta o homem. \u201cO ataque foi not\u00edcia e, a partir desse momento, ganh\u00e1mos um apoio renovado da sociedade luxemburguesa.\u201d A inf\u00e2mia da ditadura portuguesa sa\u00eda finalmente do arm\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>OS LUXEMBURGUESES<\/p>\n\n\n\n<p>DA RESIST\u00caNCIA<\/p>\n\n\n\n<p>Serge Kollwelter n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia do que era a realidade do povo portugu\u00eas, mas sabia que estavam a chegar muitos homens ao Luxemburgo-e era preciso de alguma forma apoi\u00e1-los. Em 1972 fundou a Uni\u00e3o Centro Cooperativo, que anos mais tarde haveria de converter-se em ASTI. \u201cEu estava envolvido nos grupos de jovens da Igreja e percebemos que havia um trabalho a fazer com as comunidades imigrantes. Como tinha forma\u00e7\u00e3o de professor, achei que poderia contribuir para a integra\u00e7\u00e3o de toda esta massa de gente que estava a chegar\u201d, conta no jardim de sua casa, numa tarde de primavera.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele e a sua tropa faziam aconselhamento jur\u00eddico, davam aulas de franc\u00eas, ouviam as d\u00favidas e as afli\u00e7\u00f5es sociais. &#8220;Havia duas freiras que moravam no Grund, onde uma enorme comunidade portuguesa e cabo-verdiana se tinha instalado, e nos motivavam a fazer o nosso trabalho. Mas depois h\u00e1 um fator que me chamou a aten\u00e7\u00e3o para um problema muito mais grave do que eu imaginava, e foi isso que mudou tudo&#8221;, explica Kollwelter.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 1972, no Parlamento, o deputado do CSV Jean Spautz anunciou ter chegado a acordo com as autoridades portuguesas para que o novo protocolo de contrata\u00e7\u00e3o de trabalhadores vindos do sul da Europa exclu\u00edsse as pessoas com origens em Cabo Verde, &#8220;para evitar problemas de integra\u00e7\u00e3o.\u201d Ao perceber isto, o homem estremeceu. \u201cEra um sinal claro de racismo e achei isso uma coisa intoler\u00e1vel. V\u00e1rias vozes do CSV se levantaram contra isto, h\u00e1 artigos publicados no Luxemburger Wort que o atestam&#8221;, diz, mostrando um coment\u00e1rio escrito por Ren\u00e9 Vesque confrontando Spautz. \u201cPara mim, jovem cat\u00f3lico, isto era um choque.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1973, viu pelos seus pr\u00f3prios olhos o que estava em causa em Portugal. \u201cEu j\u00e1 me estava a tornar de alguma forma pol\u00edtico com a causa, tanto que particip\u00e1mos muito ativamente na exposi\u00e7\u00e3o da Place d&#8217;Armes contra a guerra que Portugal estava a travar com as suas col\u00f3nias em \u00c1frica. Mas nesse mesmo ano eu fui ao pa\u00eds e pude ver com os meus pr\u00f3prios olhos os efeitos miser\u00e1veis da ditadura. Foi algo que mexeu profundamente comigo&#8221;, admite, e os olhos semicerram-se quando o profere.<\/p>\n\n\n\n<p>Serge Kollwelter era escuteiro, na altura chefe de escuteiros. Ele e o seu grupo iam passar uns dias a Arganil e, quando ali chegou pela primeira vez, estarreceu. \u201cA vida era simples, quase medieval. E senti que as pessoas acreditavam num regime que as fazia imensamente pobres porque n\u00e3o conheciam outra realidade que n\u00e3o o discurso oficial. Mais de 40 por cento eram analfabetos. Senti como havia ali um povo inteiro, generoso e bondoso, de m\u00e3os completamente atadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed decidiu combater &#8211; \u00e0 sua maneira. Recorda um dia, nesse mesmo ano, em que o Vit\u00f3ria de Guimar\u00e3es veio fazer um jogo de prepara\u00e7\u00e3o com o Avenir de Beggen. &#8220;Fomos entregar panfletos aos trabalhadores portugueses a convoc\u00e1-los para reuni\u00f5es de esclarecimento sobre os seus direitos. O meu irm\u00e3o entregou um desses pap\u00e9is ao c\u00f4nsul Mendes Costa, olhando-o nos olhos sem nunca se desviar. E come\u00e7\u00e1mos a tentar mostrar a estas pessoas que n\u00e3o estavam sozinhas, que tinham direitos&#8221;, conta entusiasmado. No Luxemburgo, sim. E tamb\u00e9m em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>25 DE ABRIL SEMPRE<\/p>\n\n\n\n<p>No dia \u201cinicial, inteiro e limpo\u201d, e foi assim que a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen definiu o 25 de Abril de 1974, as not\u00edcias chegaram ao Luxemburgo pela r\u00e1dio. &#8220;Eh l\u00e1, o que \u00e9 isto\u201d, perguntou-se Ant\u00f3nio Paiva ao ouvir os relatos. \u201cHonestamente, fiquei muito prudente. Ainda por cima, nos dias seguintes, vi o general Sp\u00ednola tomar a dianteira, que era um homem de regime. \u201cAs d\u00favidas dissiparam-se ao cabo de uma semana. No 1\u00b0 de Maio desse ano, em Rumelange, os cravos encheram as ruas do Luxemburgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Serge Kollwelter apressou-me a marcar f\u00e9rias para o sudoeste europeu. J\u00e1 n\u00e3o seguia como escuteiro, preferia antes ser apoiante da magn\u00edfica possibilidade que Portugal podia agora ser. Passou uma temporada num mosteiro no Porto, e outra numa casa ocupada em Lisboa, perto do Largo do Rato. \u201cViajei pelo pa\u00eds com v\u00e1rios portugueses que iam para o campo ajudar a criar cooperativas, escolas, sindicatos&#8221;, conta o fundador da ASTI. Vinham alem\u00e3es e escoceses, luxemburgueses e italianos&#8221;, lembra. De repente o mundo que nunca tinha podido conhecer Lisboa desaguava na foz do Tejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Irene Flunser Pimentel, historiadora, fala de um fen\u00f3meno internacional. \u201cHouve uma onda de turismo vermelho a viajar para Portugal entre 1974 e 1975. Aos olhos da Europa, o pa\u00eds tinha-se tornado um laborat\u00f3rio magn\u00edfico, onde todos os modelos podiam ser testados. Houve vagas de alem\u00e3es a irem para o Alentejo fundar cooperativas, de franceses e luxemburgueses que levantaram escolas no centro do pa\u00eds. A 25 de novembro de 1975, no entanto, essa movimenta\u00e7\u00e3o global chegou ao fim.\u201d O per\u00edodo revolucion\u00e1rio terminou nesse dia &#8211; e, \u00e0 medida que a regra democr\u00e1tica se ia instalando, a curiosidade esquerdalha come\u00e7ou a esquecer a promessa dos cravos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ver\u00e3o de 1974, Ant\u00f3nio Paiva pode finamente regressar a casa. Ele e milhares de rapazes que tinham desertado ou simplesmente falhado a convocat\u00f3ria para integrarem o ex\u00e9rcito. Em julho, quando chegaram as f\u00e9rias coletivas, meteu-se no carro e cumpriu o caminho de volta. Bord\u00e9us, os Piren\u00e9us, o Pa\u00eds Basco e Le\u00f3n. Quando chegou a Salamanca parou para respirar, h\u00e1 quatro anos que a ideia de Portugal se tinha tornado long\u00ednqua. Num \u00e1pice estava em Vilar Formoso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAssim que entrei no meu pa\u00eds, parei o carro e, n\u00e3o sei porqu\u00ea, comecei a chorar. N\u00e3o foram s\u00f3 umas l\u00e1grimas fugidias. Naquele momento, para ser honesto, desabei completamente. A liberdade tinha chegado. Portugal, pela primeira vez, podia respirar. Ent\u00e3o olha, p\u00e1, chorei, chorei, chorei. Depois segui caminho at\u00e9 \u00e0 Covilh\u00e3, para dar um abra\u00e7o aos meus pais. A ditadura tinha acabado, caramba. E eu conduzi com o mar nos olhos, sabendo que s\u00f3 me apetecia dan\u00e7ar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Com autoriza\u00e7\u00e3o do autor<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nota do Editor e de Ant\u00f3nio Paiva:<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p>As refer\u00eancias a CMLP (Comit\u00e9 Marxista Leninista Portugu\u00eas) devem ser entendidas como a OCMLP (Organiza\u00e7\u00e3o Comunista Marxista Leninista Portuguesa) ainda que esta s\u00f3 tenha sido criada em 1972 por fus\u00e3o do Grito do Povo e d&#8217;O Comunista, em data posterior \u00e0s datas mencionadas no texto, nas quais a OCMLP se encontrava ainda em processo de constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotografias a preto e branco &#8211;&nbsp; arquivo de Ant\u00f3nio Paiva, fotografia a cores &#8211; Instituto Diplom\u00e1tico &#8211; MNE Lisboa<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"999\" src=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/fotos-exilados-luxemburgo-1024x999.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4403\" srcset=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/fotos-exilados-luxemburgo-1024x999.jpg 1024w, http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/fotos-exilados-luxemburgo-300x293.jpg 300w, http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/fotos-exilados-luxemburgo-768x749.jpg 768w, http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/fotos-exilados-luxemburgo.jpg 1063w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Manifesta\u00e7\u00f5es de exilados portugueses no Luxemburgo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>RICARDO J. RODRIGUES em revista Contacto 25 de abril 50 anos EM 1971, ANT\u00d3NIO PAIVA RECEBEU ORDENS PARA CRIAR NO GR\u00c3O-DUCADO UMA UNIDADE DE LUTA CONTRA O ESTADO NOVO. DURANTE TR\u00caS ANOS,JUNTOU PORTUGUESES E LUXEMBURGUESES <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2024\/05\/19\/no-luxemburgo-houve-uma-celula-de-resistencia-a-ditadura-portuguesa\/\" title=\"NO LUXEMBURGO HOUVE UMA C\u00c9LULA DE RESIST\u00caNCIA \u00c0 DITADURA PORTUGUESA\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[253],"tags":[],"class_list":{"0":"post-4401","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-testemunhos"},"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4401","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4401"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4401\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4407,"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4401\/revisions\/4407"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4401"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}