O Cândido, o teatro e a vida

OPINIÃO | Carlos Ribeiro

Venho aqui para marcar o ponto. Só para ter a certeza ou pelo menos a expectativa que, no meio das batalhas temáticas e dos grandes processos argumentativos sobre as denúncias metoo e sobre os trabalhadores rurais explorados e escravizados em Odemira, o falecimento do Cândido Ferreira não tenha sido acolhido como um fait divers.

Tenho razões para exigir uma paragem no frenesim porque só é possível contar toda uma história, que vem de longe, de muito longe, com o Cândido na ribalta.

É por um lado o soldado fora da fila a provocar a gargalhada geral e o encenador meticuloso que possui a arte da escuta.

De alguma forma terei que admitir que das vezes que pisei o palco nas inúmeras representações do Soldado e do 18 de Janeiro e claro da peça que co-construímos com ele no Teatro de Gentilly “Já o meu pai me dizia” levava um pouco da sua arte comigo e tentava agigantar-me para “aproximar-me” do sentido fino do humor e da conquista do público através de uma linguagem não-verbal única na ocasião.

Com o Cândido Ferreira realizei a primeira experiência de co-construção e de métodos participativos na elaboração de uma peça de teatro. Tinha 17 anos na altura e nunca mais essa abordagem me abandonou noutros contextos profissionais.

Cada um seguiu o seu caminho, o teatro de intervenção manteve-se nas memórias e agora despedimo-nos, com um abraço!

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