Faz falta a introdução à política na escola do século XXI

OPINIÃO

OPINIÃO | Manuela Almeida Ferreira

É opinião de muitos, e bastante generalizada, que as pessoas tendem a tornar-se mais conservadoras, do que eram na juventude, à medida que a idade avança. Foram feitas sondagens, construiram-se gráficos e pirâmides para o demonstrar e talvez eu esteja tão bem recordada deste facto por eu própria os ter utilizado, uma vez, ou outra, nas aulas de Introdução à Política que leccionei, em duas Escolas Secundárias portuguesas, nos anos lectivos de 1974-1975 e 1976-1977.

Aulas de Introdução à Política? Isso existiu, em Portugal, no ensino oficial, nas escolas do Estado? Ah! Foi a seguir à Revolução de Abril… Sim, e a leccionação ao público alvo, os alunos do último ciclo do ensino secundário, foi confiada aos docentes de História e de Filosofia. Nesse tempo não se devia fazer cera nas instalações do Ministério da Educação na Avenida 24 de Julho, pois dos seus gabinetes jorrou, para apoio aos professores no cumprimento do programa, uma documentação notável. Pesquisa bem feita, selecção adequada, não vi marcas de facciosismo ou tendencionismo. A este precioso material juntei textos da minha pesquisa pessoal na minha biblioteca em que, desde há alguns anos, contava já com livros e nomes malditos, como o de Engels, o de Grascmi e o de Togliatti.

Penso que as noções básicas que naquelas aulas eram ministradas esclareceram, a diversos títulos, aquela juventude que o MRPP arregimentava facilmente para ir fazer uma performance mafiosa nas escadas da moradia de uma professora, decretar greve às aulas ou pintar belíssimos murais nas áreas comuns (entrada, bar) daquele que, por acaso, tinha sido o liceu que eu frequentara. Nunca o vira tão quente de colorido!

Um dia, estando a decorrer a campanha eleitoral para eleições autárquicas, entrei na sala de aula, pousei a pasta e levantei os olhos para descobrir, colado na parede do fundo, um cartaz com a fotografia de Diogo Freitas do Amaral. Era ainda muito nova mas não perdi o pé. Como ninguém se oferecesse para retirar o cartaz, de modo que pudesse começar a aula, como preconizei, alertei para o que podia suceder se eu chamasse o empregado em serviço no corredor para o fazer. Um voluntário ergueu-se e executou a missão. A aula aconteceu sem mais sobressaltos. Em outra turma, do alto do estrado de dois degraus que aquele antigo liceu ainda conservava, ou não alcançaríamos o quadro, obriguei um jovem a enforcar nos fios de puxar o estore de lâminas, junto à sua carteira, um momo de papel ostentando o nome de Álvaro Cunhal. Entendi-me com ele no final da hora.

Onde estão hoje estes jovens e os colegas que, com sorrisos marotos, os apoiavam? Terão todos feito o percurso de Durão Barroso? Não creio. Sei mesmo de um que foi um autarca honesto e dedicado à sua terra que notavelmente contribuiu para desenvolver. Chamava-se Miguel e era natural de Castanheira de Pêra. 

Voltaria a ministrar aqueles conteúdos e a sustentar os debates que faziam parte das minhas estratégias de ensino-aprendizagem. O respeito que acabavam por demonstrar testemunhava do gosto que tinham pela matéria. Conteúdos como os que leccionei fazem muita falta na escola do século XXI. Se trago hoje esta opinião à consideração do SEM FRONTEIRAS é porque (serei eu demasiado diferente?) me parece que a impreparação crónica de muitos deputados de segunda geração releva da falta de bases em termos de conhecimentos básicos do pensamento de autores de referência.

Parece, portanto, que não me tornei mais conservadora com o avançar da idade. Diria, até, que estou cada vez mais anarquista porque o nome deste jornal, de que vou crescentemente gostando mais, não me lembra senão uma palavra, à expressão «sem fronteiras» indissociavelmente ligado: PROLETÁRIOS. Entendei como quiserdes, se souberes…

Manuela Almeida Ferreira

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