Teatro Universitário – Alegria e Resistência dos anos 60 (2)

TEATRO E COMBATE À EXTREMA-DIREITA

I – REVISITAR EXPERIÊNCIAS | Teatro Universitário – LISBOA(2)

Nesta segunda abordagem ao tema do Teatro na sua relação com o combate à extrema-direita nos dias de hoje publica-se a segunda parte de um artigo de Helder Costa sobre o teatro universitário que nos permite revisitar experiências dos anos 60.

(Ler a primeira parte deste artigo)

por Helder Costa, dramaturgo

LISBOA 

Obrigado pelo inspector Saccheti a zarpar para Lisboa na sequência das lutas de 62 em Coimbra, rapidamente me integrei num, digamos “grupo de opinião”, que juntava uma agradável mistura de estilos e experiências de malta de Lisboa e Coimbra. 

Uma das primeiras acções foi preparar uma edição do “ Quadrante”, o jornal da Faculdade de Direito. Eu e o Rui Namorado escrevemos o artigo da capa : “ Da Universidade caduca à Universidade nova”, convenientemente ilustrado com um desenho do Bordalo Pinheiro que retratava um lente com orelhas de burro, e entre outros artigos, nas páginas centrais uma verdadeira bomba, “Autópsia do ensino” de Almeida  Faria e Nuno Brederode Santos. A edição foi um êxito, o director do jornal, o Jorge Almeida Fernandes foi suspenso, e o Quadrante” foi proibido ad eternum… 

O CÉNICO de DIREITO 

Fim dos anos 50. Malaquias de Lemos, Midões e outros criaram o Grupo Cénico de Direito que viria a cessar a sua actividade na sequência da crise de 62. 

Tempos depois, em 1964, falou – se em reanimar o grupo Cénico da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa – O Cénico de Direito, projecto a que eu e Fausto Monteiro, vindos do CITAC, aderimos imediatamente. Com apoio da Fundação Gulbenkian, cujo interlocutor directo era Luís Moreno, Fernando Gusmão assumiu a direcção artística, houve muitas adesões de alunos de várias Faculdades e assim recomeçou a luta de tornear a Censura. 

As primeiras peças foram “ Eh! Lá fora!” de W. Saroyan e “ O Borrão” de Augusto Sobral que se apresentaram logo nesse ano no Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy e no Festival de Lyon da UNEF, o que nos possibilitou um contacto inestimável com o “outro teatro” que estava a nascer internacionalmente.  

Em 1965 criámos o I Festival de Teatro Universitário que se realizou durante uma semana no Teatro Monumental com a participação do Porto com o Teatro Universitário do Porto –  TUP, Coimbra – TEUC e CITAC, e Lisboa – Cénico de Direito, e grupos de teatro de Letras e Medicina. 

Foi um acontecimento particularmente relevante da vida Académica e da luta contra o regime. Porque aconteceu durante a luta estudantil que resultaria na expulsão das Faculdades de dezenas de estudantes, e da notícia clandestina mas bem divulgada do assassinato de Humberto Delgado e da sua secretária Arajaryr em Badajoz. Além das  notícias cada vez mais catastróficas sobre a guerra colonial, com a morte e os feridos a transformarem-se no pesadelo das famílias. 

O país estava em fogo, indignado e revoltado, e os estudantes tinham dado mais uma prova da sua firmeza na luta. 

Como presidente do Festival, na abertura juntei todos os directores do grupo no palco, e falei. Falei da prova que nós dávamos do interesse pela Cultura e dediquei o Festival aos estudantes presos, aos jovens obrigados a ir para a guerra colonial, e – dado o entusiasmo e aplausos da assistência dediquei também aos camponeses e operários perseguidos. 

Recebi uma ovação de pé, e o ministro da educação Galvão Teles e o reitor Paulo Cunha abandonaram o teatro… 

E em 1966 voltámos a participar no Festival de Nancy com “ Histórias para serem contadas” de Osvaldo Dragún e com “Os Ratos”, peça de Alexandre Oliveira , ganhámos uma menção honrosa na modalidade “tema imposto”). 

A apresentação desta peça foi um êxito extraordinário e dias depois Jack Lang disse-me que o júri do Festival queria falar comigo. 

O júri era integrado por grandes nomes da intelectualidade Europeia da época, Paolo Grassi da RAI, Guy Dumur, Robert Abirached do “ Nouvel Observateur”, elogiaram – me o nosso trabalho e anunciaram – me que tinha decidido dar – nos o Grande Prémio do Festival. Aflito, respondi que isso não era possível porque um êxito assim nos obrigaria a mostrar a peça em Lisboa o que nos causaria inevitáveis problemas com a polícia. 

  • – Com  a polícia? Mas porquê ? perguntou alguém, candidamente. 
  • – É que os autores da peça apresentaram um texto para ser aprovado pela Censura que não tem nada a ver com este. 
  • – Ah, bom. 

E então decidiram dar-nos uma simples menção.  

O que, contrariamente ao que eu esperava, deu o mesmo efeito em Portugal como se tivéssemos ganhado o campeonato do mundo de futebol ou o Festival da canção Europeia: reportagens da Imprensa, rádio e televisão… 

Perante esta gloria, o Ministério da Educação e a Faculdade de Direito quiseram que representássemos a tal tão famosa peça. Consegui esquivar –me falando da proximidade dos exames, que os artistas tinham de estudar, ficaria para Outubro na rentréee, e em Outubro, muito triste, “ lamentavelmente, muitos actores tinham saído”, já não havia possibilidade, etc. E a coisa passou sem problemas. 

Desse Festival de 1966 guardámos uma memória inapagável.  

O prémio da peça de repertório foi ganho pelo TUCA, o grupo de teatro da Universidade Católica de S. Paulo, com “ Morte e vida severina” de João Cabral de Melo Neto. Os laços de amizade que se estabeleceram entre todos nós fez com que conseguíssemos organizar a sua apresentação em Lisboa. Foram sessões ultra esgotadas no cinema Império e no Teatro Avenida que demonstraram a solidariedade do povo português com os artistas, intelectuais e estudantes do Brasil, país que tinha acabado de sofrer um golpe militar que havia de se transformar numa das mais bárbaras ditaduras da América Latina. 

Do teatro passava-se facilmente para a inevitável discussão política, comparação de ditaduras e projectos de revoltas e revoluções. 

Várias conversas se passaram para projectos futuros com vários elementos do grupo, entre eles Chico Buarque que se tinha estreado como cantor e compositor nessa peça. 

No ano seguinte, em 1967, entrou como director artístico Luís de Lima que dirigiu uma sua dramaturgia sobre Gil Vicente com o nome “ Mestre Gil”, grande êxito que ultrapassou os muros Universitários apresentando-se durante 2 semanas esgotadas no Teatro Villaret. Foi com essa peça que voltámos a Nancy, e com “ Auto de Natal” da Fiama  conquistámos outra menção, solidificando um trabalho teatral inovador, investigador da História e da Cultura do nosso país, moderno e participativo. 

Recordo um conflito extremamente interessante que ocorreu durante o Festival. 

Estavam presentes grupos de todo o mundo, desde USA a URSS e seus respectivos satélites, e também os “não alinhados” ou terceiro-mundistas onde apareciam os Latino – Americanos e a Península Ibérica, países que tinham em comum (sobre)viverem em ditaduras fascistas ,  e cujos grupos eram naturalmente aguerridos e também bases de focos revolucionários. 

Durante o Festival vários grupos do Leste apresentaram espectáculos provocatórios contra a China, guerra do Vietnam e Mao-Tsé – toung. Provocações, contestações, polémica, e luta corpo a corpo na ruas de Nancy que terminou com provocadores dentro do lago do centro da cidade e vitória dos “sub-desenvolvidos” celebrada com cortejo a entoar a Internacional, entrando gloriosamente na cantina do Festival. 

Deste conflito é importante retirar uma lição: a importância do TEATRO. Efectivamente, o interessante é que cada um dos blocos opositores tinha decidido utilizar o teatro para divulgar as suas ideias. Porquê? porque é um meio de comunicação privilegiado. Aliàs, porque será que qualquer poder político tenta sempre limitar a força do Teatro ? Seja com Censura, limitações económicas, manipulação da opinião pública, etc.? 

Foi nesse ano, no regresso do Festival, que a minha vida se alterou. 

Devido a uma denúncia fui obrigado a viajar para o exílio, o que causou alguma perturbação no Cénico e nos seus apoiantes habituais, Ministério, Faculdade, Guklbenkian. 

Outra consequência do meu desaparecimento foi a expulsão de Luís de Lima para o Brasil. No entanto, o Cénico ainda apresentou “ Mestre Gil “em  S. Sebastien “. 

Em 1968 chega Adolfo Gutkin que realiza Volpone e um ano depois Melim 4, experiência de trabalho colectivo. 

Em 1970 o Cénico realiza “ Os Físicos” de Durrenmatt com direcção de Frederico Wolf, espectáculo infeliz que não mereceu o êxito do passado. 

È nesse ano que a Faculdade é ocupada por uns rapazes bem constituídos, os célebres “gorilas”, para travar a crescente agitação Académica. 

O que fez germinar várias organizações clandestinas, anunciando a futura derrota do fascismo. 

E o Cénico de Direito, como o CITAC, tinha terminado o seu ciclo de luta e resistência. 

É de notar que alguns elementos do grupo acabaram por seguir carreiras profissionais – Morais e Castro, Carmen Santos, Eduarda Pimenta, Manuela de Freitas, José Gomes, Melim Teixeira, Francisco Pestana, Cucha Carvalheiro, Luís Filipe Rocha com carreira de cineasta, Machado da Graça animador cultural em Maputo, Mena Abrantes , escritor e dramaturgo Angolano, os futuros governantes de Moçambique Teodato Hunguana e Murad Ali ( que faleceu junto a Samora Machel na queda do avião abatido pelos racistas Sul- Africanos) –, participando assim na progressiva valorização do nosso mundo cultural  Lusófono. 

Todo este trabalho criava uma progressiva consciencialização política, baseada essencialmente, convém não esquecer, no culto da Liberdade e no direito à polémica e confronto de opiniões. Ideias que se cultivavam entre nós e que tentávamos transmitir para fora da Universidade. 

No Cénico de Direito vários dos elementos participaram em sessões de poesia na margem Sul – Moita, Baixa da Banheira – e em várias colectividades de bairros populares em Lisboa. 

O Cénico de Direito, em atividade mais recente

Ainda em Lisboa, com menos actividade mas com intervenção meritória existiram nesse período.  

Grupo de Teatro de Letras ou GTL nasceu na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Fundado em 1965 com a colaboração preciosa de Claude Henri – Frèches teve como fundadores os poetas  Fiama Hasse Pais BrandãoLuiza Neto Jorge e Gastão Cruz estreando “ Assembleia ou partida “ de Correia Garção com a jovem estudante Maria do Céu Guerra numa notável cantata de Dido. 

Em  1969 estreou  “ Anfitrião” de António José da Silva  com a participação de Luís Miguel CintraJorge Silva Melo, Luís Lima Barreto e Eduarda Dionísio futuros fundadores do Teatro da Cornucópia.. 

E também o Grupo de Teatro do Instituto Superior Técnico e o grupo de teatro de Medicina que chegou a participar no 1º Festival de Teatro Universitário em 1965. 

Helder Costa

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