TEATRO DE RUA POLÍTICO (5)

O TEATRO E O COMBATE À EXTREMA-DIREITA

REVISITAR EXPERIÊNCIAS | O Teatro e o combate à extrema-direita

Para fornecer elementos de reflexão sobre o papel do teatro de intervenção procurámos anteriormente ilustrar os processos no plano histórico e exploramos agora um plano mais conceptual. Mobilizámos para este efeito o trabalho académico da Eva Ribeiro, dinamizadora de várias abordagens ao teatro “fora de palco”, Breve dicionário do teatro de intervenção do Século XX que nos proporciona uma incursão sobre géneros, estilos, correntes e outras nuances que o universo teatral comporta.

Trata-se neste primeiro excerto de ir ao encontro do Teatro de Rua Político.

Por Eva Ribeiro, produtora, pedagoga e artista

Do preâmbulo “Nos anos que se seguiram à Revolução, o foco principal centrava-se nas diversas formas de arte de agitação de massas. Observa-se um florescimento da inovação em géneros como o poster político, o grafismo dos jornais e de revistas. Oratória política e teatro heróico, dramatizações massivas e procissões populares de rua, murais e decorações nas ruas em celebração dos aniversários revolucionários. Nestes novos moldes da arte de agitação, diz-nos Tolstoy  houve sempre um vivo e directo eco dos acontecimentos da Revolução em si mesma”. 

Vladimir Tolstoy, Street Art Of The Revolution. pp. 15-16

Vladimir Tolstoy

Anos 60

Os ‘acontecimentos de Maio’ de 1968 em Paris, iniciados pelos estudantes contra as políticas conservadoras da Universidade, espalhou-se a trabalhadores a lutarem por melhores salários e melhores condições de trabalho. Lenora Champagne capta esta atmosfera marcada pela utopia:

«Os acontecimentos nas Barricadas, onde um espírito festivo reinava e decisões colectivas eram tomadas e animadas discussões tomavam lugar; a formação de comités de acção que resolviam problemas de grupos e ajudavam os trabalhadores em greve e suas famílias; a urgência proclamada por cartazes anónimos de criação colectiva nas paredes […] – tudo isto se tornou o crisol de acção onde os temas e estruturas do Movimento de Maio podiam ser testados. Havia uma por momentos-viva utopia, a qual tomava a forma de ‘anti-sociedade’ ou ‘contra-cultura’ oposta às existentes relações sociais e propondo outras novas.»[1]

Jean-Jacques Lebel, um dos actores-chave nas acções estudantis de rua, enfatiza, no seu texto ‘Notes on political street theatre, Paris: 1968, 1969’[2], a conexão entre os acontecimentos políticos de 1968 e 1969 enquanto portadores de novos moldes sociais de combate a opressão (social) e a repressão (pessoal) e as acções performáticas de rua que tiveram lugar aquando desses acontecimentos.

Transcrevemos aqui o seu relato.

Desde os primeiros anos da década de 1920, quando os dadaístas parisienses apresentaram o seu Trial of Maurice Barrés em St. Julien le Pauvre Park, até aos recentes acontecimentos teatrais de natureza política representados nas ruas, há uma longa história de militantes forasteiros e anti-artistas para quem a industrial cultural é apenas mais um aspecto do capitalismo e, como tal, deve ser destruído. Por outro lado, existem os não-políticos tipo-Fluxus eventos, ‘arty-farty’ happenings, e espectáculos de rua como aqueles organizados pelo Groupe de Recherche de l’Art Visuel os quais reclamam ser ‘não intencionais’ e desligados da intenção de destruição da estrutura social existente. Estes eventos estão ainda preocupados com a história de arte, do teatro ou da cultura em geral e tendem a ser rapidamente absorvidos pelo mercado da arte, o departamento de ‘avant-garde’ de Madison Avenue, e  a ascender rapidamente à posição de última forma de entretenimento para Jackie Onassis. É importante não confundir a arte da revolução com a sua imitação burguesa e comercial.

Maio 68- na Cidade Universitária

1968

A Revolução de Maio dinamitou os limites de ‘arte’ e ‘cultura’ como fez com todos os outros limites sociais e políticos. O antigo sonho vanguardista de tornar a ‘vida’ em ‘arte’, numa experiência criativa colectiva, finalmente tornou-se verdade. De repente, a corrupção e estupidez do antigo mundo de ‘especialistas culturais’ tornou-se óbvia para toda a gente. Juntamente com o resto da elite do poder – os banqueiros, os chefes de exército e os gerentes – os ‘sanguessugas’ da indústria cultural são os primeiros a ser eliminados por qualquer movimento libertário. Eles devem saber quando desaparecer.

 Acontecimento socio-dramáticos excitantes tiveram lugar nas ruas de Paris em Maio, primeiramente porque o Movimento de 22 de Março tornou claro a toda a gente que ‘o poder está nas ruas'[ênfase atribuído pela autora]. O primeiro palco de um levantamento (as barricadas, as demonstrações de massa, a luta entre as forças governamentais e os radicais, assim como acontecimentos como o incendiar da bolsa de valores, que ocorreu a 24 de Maio), o primeiro palco de qualquer revolução , é sempre teatral. O levantamento de Maio não se transformou numa gigante guerra civil ou no traumático banho de sangue comparável ao que aconteceu no México em Outubro quando os grenaderos assassinaram pelo menos 200 estudantes. Contudo, foi certamente um capítulo surpreendente na luta de classes a qual as pessoas julgavam já há muito terminada e vencida. O levantamento de Maio foi teatral pois foi uma gigante fiesta, uma reveladora e terna explosão fora dos padrões ‘normais’ da política. Dez milhões de trabalhadores entraram em greve a meio de Maio. Foi a maior greve geral de toda a história da civilização industrial e a única capaz de abalar toda a estrutura económica. A maioria das fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores, as universidades pelos estudantes, e, até um ponto, o governo e a classe governante impotentes. Aí o chamado partido ‘Comunista’ e os seus sindicatos vieram salvar de Gaulle e aceitaram aquele compromisso ridículo. Os trabalhadores foram persuadidos a voltar ao trabalho pelos seus ‘líderes’ burocráticos. Uma a uma as fábricas foram re-ocupadas pela polícia e os ‘proprietários de direito’. Mais uma vez o social-democrata e contra-revolucionário partido ‘Comunista’ tinha salvado o sistema capitalista de colapsar face às pressões de estudantes e trabalhadores. […]

27 de maio 1968 – Pompidou e os sindicatos em Grenelle

   Assim foi o contexto de profunda transformação física experienciada por centenas de milhares de pessoas em Maio. Os resultados desta individual assim como social transformação foram imediatos: as relações humanas tornam-se livres e muito mais abertas; tabus, auto-censura e muletas autoritárias desaparecem; papéis tornam-se permutáveis; novas combinações sociais são experimentadas. [….]

   O teatro de rua como tal começa a aparecer aqui e ali em manifestações de massa, tais como as de 13 de Maio, as quais juntaram mais de um milhão de pessoas. Muitos bonecos de oficiais da CRS (Polícia de choque francesa), de de Gaulle e outros palhaços políticos aparecem também. Rapidamente, engraçados rituais teatralizados são feitos em volta destes enquanto eles ardem. Quando o subsidiado Teatro Odeón foi ocupado pelo movimento, pequenos grupos de estudantes e actores começaram a interpretar as notícias diárias nas ruas em curtos dramas cómicos seguidos por discussões com o público circundante.

1969

O principal problema, dantes e agora, é divulgar os objectivos e meios do movimento revolucionário junto daqueles milhões que, actualmente não hostis, ainda não tomaram parte desta acção. Como os mass media são totalmente controlados pelo Estado, tudo o que eles divulgam são mentiras que apenas servem à politica psicológica de combate do Governo. A opinião pública francesa é manipulada para a submissão com técnicas similares aquelas utilizadas por Stalin e por Franco, se mais liberais (i.e., espertas). A comunicação circula de apenas uma maneira: de cima para baixo. Jornais, panfletos, posters feitos à mão ou impressos, e filmes (modestamente distribuídos graças à censura policial) provaram-se insuficientes para informar as pessoas. [Assim] estamos a tentar usar teatro de rua como um meio de provocar o encontro e discussão entre pessoas que normalmente se fecham umas às outras.

 O projecto em que tivemos mais recentemente a trabalhar foi a preparação da semana anti-imperialista precedendo a visita do Sujo Dick Nixon a de Gaulle. A maioria da população francesa desconhece a penetração política e económica do capitalismo americano na Europa e no Terceiro Mundo; assim construímos uma campanha sobre este assunto. […]

  O nosso grupo era formado por cerca de quarenta estudantes da Universidade de Vincennes. Um tinha já experiência anterior em ‘teatro’, dois ou três haviam trabalhado em filmes. Os restantes eram total inexperientes e reuniram-se principalmente pelo desejo de desenvolver meios distintos de actividade política. A nossa orientação era a agit-prop, porém queríamos ser criativos e não apenas limitarmos-nos a ‘clichés’ políticos – acima de tudo nós considerávamos o ‘teatro’ apenas como um meio de derrubar o muro de Berlim da mente das pessoas e ajudá-las a sair do estado de aceitação passiva. Estávamos-nos nas tintas para a ‘arte’ – nós estávamos interessados em sabotar o capitalismo ajudando a explodir o seu arsenal de imagens, estados, hábitos de percepção e ilusões tranquilizadoras de segurança.

  A maioria dos alunos envolvidos estavam aborrecidos pela sociologia, a filosofia e a economia que estavam mais ou menos a estudar e certamente desancados pelo vazio de significado do ‘conhecimento’ que supostamente deviam estar a receber. Assim começámos por fazer longas conversas sobre o estado de emergência política e individual em que nos encontrávamos e em que estávamos a viver. Alguns de nós tinham ouvido falar de experiências em teatro de rua político feitas em Frankfurt pelas SDS alemãs ou por grupos similares em Londres, Nova York, Roma e São Francisco. No entanto, Ninguém havia realmente assistido a ‘teatro de guerrilha’.  Alguns estavam familiarizados com os Living Theatre mas igualmente os criticavam como muito ‘suaves’ ou ‘não directamente políticos o suficiente’ ou ‘não violentos’ (a companhia era admirada mais por viver como comunidade anarquista do que como grupo de teatro). Aliás ninguém fazia a mínima ideia de como ou onde começar e levou algum tempo a criar e preparar a ideia de cartoons teatrais sobre o tema do imperialismo. Finalmente surgiram quatro figuras de carácter arquétipo do nosso livro de histórias:

  1. O Camponês de Terceiro Mundo (a vítima imediata do imperialismo).
  2. O Guerrillero (o camponês transformado em revolucionário)
  3. O Feio Homem Branco (Nixon, o Ordenador, o Rei de Wall Street).
  4. O Oficial do Exército (General Motor, o polícia capitalista).

The Living Theatre

  Depois fizemos juntos uma sinopse das acções desencadeadas – não propriamente uma história mas uma série simples de ideogramas – qualquer coisa tipo frame-a-frame. Sem diálogo pois íamos estar a trabalhar em estações de metro barulhentas e ruas, mas escrevemos algumas frases e palavras em cartazes os quais eram trazidos durante determinadas acções ou gritadas durante a demonstração. […] Entretanto cerca de dez pessoas estão ocupadas colando cartazes e pintando slogans em tantas paredes quanto possível na vizinhança mais próxima. Seis ou oito ficam alerta para participar na discussão ou para proteger os actores no caso de problemas com a polícia. […] Enquanto escrevo isto a peça já foi representada oito vezes no metro e uma na rua. A peça dura somente dois minutos mas não é invulgar as discussões se prolongarem durante mais de uma hora, vigorosa e apaixonadamente. Estas discussões livres levam muitos dos que ‘normalmente’ não falariam não romperiam a lei do silêncio e consegue-se comunicação directa (similar ao que aconteceu em Maio onde as ruas foram liberadas por algum tempo da lei da Polícia Estatal). Nós consideramos isto uma modesta mas válida resposta ao problema da informação e da comunicação visto que as pessoas em que nelas participam usualmente desabafam sobre a sua experiência particular seja qual for a situação onde aqui e agora são alienadas: a sua fábrica, o seu escritório, a sua escola, como os burocratas do sindicato o traíram, etc. O debate centra-se normalmente em reforma vs. Revolução, em trabalhar com o sistema ou derrubá-lo. A conversa torna-se geralmente técnica. É interessante que um número tão vasto de pessoas trabalhadoras está de facto ciente do movimento revolucionário, as suas motivações e os seus problemas. Isto indica-nos que mais pessoas esperam outra revolução, mais rápido, do que qualquer um podia esperar: “Mas desta vez vai ser uma a sério, vamos até ao fim, vamos tomá-la nas nossas mãos, não deixaremos que os sociais democratas e os burocratas lixem tudo outra vez, não abriremos mão das fábricas que ocuparmos…” Estas são as palavras de um jovem ferreiro depois de uma das nossas actuações na semana passada, fez-nos pensar que até o teatro pode conduzir à revolução – se é o que realmente tu queres que ele faça.


[1]           Leonora Champagne, Sub-stance, citada por Jan Cohen-Cruz  in Radical Street Perfomance, p. 179

[2]           Jean-Jacques Lebel, Notes on political street theatre, Paris: 1968, 1969.

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