E se fosse proibido dançar?

TRIBUNA

TRIBUNA | Em tempos de pandemia, como agir em defesa do interesse comum sem adotar uma atitude submissa?

Recentemente a importância do papel da cultura, das artes e do próprio laço social foi questionada face à emergência sanitária provocada pela pandemia. A polémica tornou-se explosiva quando a questão dos apoios ao setor artístico e cultural em geral foi abordada numa perspetiva de valorização secundária da pequena produção local e dos setores menos institucionalizados. Mas será viável combater eficazmente uma doença, que se propaga pelo contacto e pela interação entre pessoas e, ao mesmo tempo, desejar que quem se resguarda e simultaneamente protege os outros, mantenha uma atitude saudável, viva, não-submissa e solidária?

Manuel Branco, de Grenoble, lança-nos uma ponte para o passado ao abordar o tema da proibição dos bailes durante a Segunda Guerra Mundial, através de uma proposta de visita guiada à exposição patente no Museu da Resistência e da Deportação do Isère.

Acompanhemos pois o nosso guia e tentemos encontrar pistas para alimentar o debate sobre a DANÇA em espaço público ou realizada em contextos coletivos e populares:

Os bailes proibidos, por Manuel Branco | Grenoble

O Museu da Resistência e da Deportação do Isère – Casa dos Direitos do Homem organiza até 3 de Janeiro de 2022 uma exposição intitulada “Vocês não voltarão a dançar” – Os bailes clandestinos de 1939 a 1945.

Alice Buffet directora do museu, após o sucesso da “Colecta de objectos e documentos do período 1939-45”, com esta exposição realiza uma iniciativa de grande importância para  desenterrar histórias e trazer até nós a memoria desse período de ocupação nazi durante o qual os bailes tiveram uma grande importância  na sociedade civil.

Pelo mundo e pela Europa fora a intolerância, a violência, as ideias fascistas, o racismo e a xenofobia procuram abrir brechas nas democracias é por isso que este tipo de iniciativas é cada vez mais importante para não deixar enterrar a memoria e esclarecer as novas gerações.

Entrar na dança

Nos anos 20/30 as danças populares regionais, a valsa, a polka e outras animavam os franceses. Entretanto, a java, o tango, a rumba, o fox-trop, o charleston, chegadas das Américas, tornaram-se  as suas danças preferidas entre as duas guerras e, naturalmente, com toda aquela paixão que os jovens podem ter pelo divertimento, apareceram os primeiros dancings em França.

Jovens e idosos, de todas as classes sociais, entram na dança e a proibição dos bailes em 1940 nunca foi aceite pela população.

A capitulação face aos nazis  é desmedida, o governo de Vichy em Maio de 1940 proíbe os bailes.

Tinham medo de quê ? do reencontro, das conversas, da troca de ideias, da demasiada liberdade das mulheres,  dos corpos chegados uns aos outros num gesto de amor, talvez duradoiro. Como escreve Helder Costa a propósito do teatro “…quem tem prazer e alegria tem mais capacidade de revolta e de resistência….” .

Para a Igreja católica este tipo de interação era imoral, excepção feita dos bailes organizados por ela própria para angariar fundos. Para os traidores a soldo do nazismo, esta posição era insuportável porque de alguma forma queriam abafar o artigo primeiro da Declaração dos direitos do homem e do cidadão de 1789,  Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Em contrapartida pretendiam impor as palavras de ordem: Trabalho, Família, Pátria para submeter a população ao trabalho e ao sacrifício. E de certo modo queriam culpabilizar a juventude francesa de ser demasiado mole e divertida, para justificarem a traição face ao inimigo nazi.    

Os balies clandestinos

Proíbem os bailes, multam, condenam quem organiza e quem dança, confiscam os acordeões, e assim, nascem os bailes clandestinos por toda a França.

Os bailes clandestinos eram organizados por toda a França, nas cidades nos recantos ao abrigo do olhar, nas aldeias recuadas ou em zonas da montanha, nas traseiras dos cafés, nas habitações das propriedades agrícolas, nos túneis, em florestas isoladas…… o acordeão e por vezes os pick-up ou a rádio acompanhavam a dança.

Denise com os seus 96 anos conta-nos, “….os bailes eram proibidos mas nós todos os sábados íamos dançar, juntávamo-nos na praça da aldeia (Essert)  e depois com os amigos mais conhecidos íamos para casa dos meus pais na quinta, dançávamos na cozinha e na sala ao lado…. por vezes íamos dançar para Nernier num café que lá havia à beira do lago…..foi nestes bailes que conheci o meu futuro marido….”.

Bailes e fundos para a Resistência

Houve bailes que terminaram de forma dramática, como foi o caso no castelo de Habère-Lullin que contou com 50 participantes e que ocorreu na noite de 25 para 26 de Dezembro 1943, numa aldeia agrícola nas montanhas de Haute-Savoie. Foi organizado por um grupo de jovens refractários do STO (Serviço do Trabalho Obrigatório), para se divertirem e para angariarem alguns meios de subsistência para a Resistência.

Denunciados e encaminhados por um traidor,  tipo informador pidesco, um grupo da Nona Companhia Alemã SS Polizei, armado até aos dentes, invadiu a sala do baile e assassinou 24 jovens cujas únicas armas eram a alegria de viver aquele momento. Levaram 19 mulheres e 17 jovens prisioneiros. Quinze foram deportados, seis deixaram lá a vida. Não saciados pelo terror cometido regaram com gasolina os corpos ensanguentados alinhados no chão da sala do baile e incendiaram os corpos e o castelo.  Deixaram 24 cadáveres calcinados, irreconhecíveis pelos familiares. O prédio ficou completamente destruído, ficaram só com as paredes de pé.

Pelo caminho assassinaram com uma rajada de metralhadora, Eugène Duret, queijeiro de Habère-Lullin que saiu à porta de casa para ver o que se passava. Mal sabia ele que o filho já tinha sido assassinado momentos antes.

Mas a exposição leva-nos no tempo até hoje procurando ligar esse passado triste com o presente, diz-nos que depois da libertação da França os bailes continuaram ainda algum tempo proibidos pelo governo provisório só sendo autorizados no 1 de Maio de 1945. Podemos compreender esta medida dada a situação de tristeza e desespero de muitas famílias no fim da guerra.  

Durante a exposição no pátio nas traseiras do museu são organizados eventos, abertos ao publico e gratuitos, bailes, espectáculos ao ar livre etc…dia 20 de Junho foi a vez do “Baile clandestino para as crianças” de 3 a 10 anos de idade acompanhadas por um adulto.

Manuel Branco | Grenoble Junho 2021 | Editado CR – SF – Atualizado 2/07 às 9h15

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