O que foi o Teatro Operário de Paris? (10)

TEATRO E COMBATE À EXTREMA-DIREITA

REVISITAR EXPERIÊNCIAS | O Teatro e o combate à extrema-direita (10)

Teatro Operário de Paris (1)

1. Um pouco de história

Nos fins dos anos 60, Paris transbordava de portugueses. Uns fugiam à fome, outros fugiam à PIDE, e ainda outros, procurariam o que se chama a liberdade de viver e de pensar.

Entre estas categorias de lusitanos, havia um acordo comum: a França era um porto de salvação, relativamente agradável, mas de passagem. Acordo esse, que provocava um interesse também maioritariamente comum: era preciso denunciar o estado de coisas que existia em Portugal e tentar actuar, fosse como fosse, contra a ditadura fascista.

A questão de actuar, e como, provocou inevitáveis divergências nessa heterogénea colónia, e fez com que caminhos diferentes tivessem sido tomados por gente que parecia unha com carne na luta pela libertação de Portugal.

A forma como actuar também se colocava, evidentemente, em relação à actividade cultural. E os tais “caminhos diferentes”, apareciam, nesse campo, da seguinte forma: uma tendência tentava fazer teatro (e fez alguns espectáculos) com textos que eram autorizados, em Portugal, pela censura fascista; outros, apresentavam peças no centro de Paris, destinados à intelectualidade Portuguesa exilada e aos amigos franceses; e depois, havia uma escória (que eu me recuso a pôr ao mesmo nível destes “caminhos diferentes” com quem estou em desacordo), que tentava (e conseguia) obter apoio do consulado de Portugal para tentar lançar um “teatro para os Portugueses (tentativa sempre falhada, tanta era a incompetência dos seus “empreendedores” e a impopularidade do projecto).

2. O começo do grupo

O minúsculo grupo que arrancou com o projecto do “Teatro Operário” tinha outros planos: era preciso levar o teatro, a música e a cultura, a arte, a agitação política, os jornais anti-fascistas, a alfabetização, a ajuda social, a quem mais precisava de tudo isso: as centenas de milhares de emigrantes que se empilhavam em bairros de lata e “foyers” miseráveis.

No nosso campo específico, o teatro, começámos bem: a estreia do grupo, com a peça, já estreada em Portugal pelo Grupo Cénico da Associação Académica da Faculdade de Direito com direcção do Fernando Gusmão, “Histórias para serem contadas”, foi num lar de trabalhadores solteiros emigrantes (não só portugueses), nuns subúrbios afastados de Paris. Tudo correu devia ser: os trabalhadores gostaram, aplaudiram, ficaram para discutir, e para organizar actividade cultural nesse local; a meio da discussão, apareceram provocadores da PIDE, empunhando uma bandeirinha Portuguesa (!), e tentando expulsar os “agitadores que tinham terminado com o belo sossego daquele recanto”. Nada feito. O grupo teve todo o apoio para refilar, e não perdeu oportunidade …

A seguir foram os meses de actividade com dezenas de espectáculos em Paris, arredores, e no Luxemburgo.

Entretanto, o grupo crescia. Nos fins dos espectáculos, convidam-se os eventuais interessados a aderir ao trabalho de teatro. Uns, ficavam a organizar um grupo nesse local, e para isso, um dos elementos do “Teatro Operário” reservava umas noites por semana para dar o “primeiro empurrão” aos novos “artistas”. Outros, mais entusiastas, aderiram ao “Teatro Operário” e passavam a fazer parte do grupo.

O crescimento foi rápido: em 6 meses criaram-se 2 grupos nos arredores, e o grupo passou de 5 para 17 elementos. E, ao mesmo tempo, deram-se uns 40 espectáculos.

Convém informar que toda esta gente não recebia nenhum subsídio da Secretaria de Estado da Cultura nem de nenhum partido político nacional ou estrangeiro; convém também informar que os espectáculos eram GRATUITOS, e que todas as despesas (alimentação e deslocação) eram suportadas militantemente por cada elemento do grupo; convém ainda informar que isto não era nada de excepcional, dado que todos os elementos eram trabalhadores, e por conseguinte, tinham o seu trabalho e correspondente salário garantido. Os desempregados (também os havia, de vez em quando), eram ajudados, como calhava, pelo colectivo. E todos os problemas acabavam por se resolver. Até porque, como diz o povo, quem corre por gosto não cansa; e como aquilo era só para quem queria, não havia “obrigatoriedade nem interesses”, o que é certo é que a coisa pegou e “saiu da casca” já com feitio de gente.

Fonte: Teatro Operário, Helder Costa | Teatro Centelha, 1980

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