VASCO (1935-2021)

EXÍLIO

O nome do Vasco foi um dos que diversos camaradas indicaram como alguém a procurar quando arribasse «là-haut»

Rui Bebiano, num apontamento pessoal sobre a falecimento de Vasco de Castro, exprime a partir de referências simples o que muitos, dos tempos de exílio antes do 25 de abril e do pós Dia da Liberdade, gostariam de recordar e de valorizar no homem e no militante de causas que marcou, para sempre, o “cartoonismo” português.

Foto: Vasco em Paris 1967 DR – reproduzida pelo jornal Público

Por Rui Bebiano


Quase a completar 86, desapareceu hoje Vasco de Castro, Vasco, o grande cartoonista e resistente, que tão vasta colaboração deixou, em jornais de referência e outros que já poucos recordam, e o emigrado político a quem, sobretudo em Paris, tantos recorreram nos anos finais da ditadura.

Nunca o conheci em carne e osso, mas quando estive em vias de seguir o trilho da saída para resistir à guerra, só o não fazendo porque aconteceu Abril, o nome do Vasco foi um dos que diversos camaradas indicaram como alguém a procurar quando arribasse «là-haut».

Ao contrário da maioria dos jovens militantes ultrapolitizados que começaram a chegar à cidade sobretudo nas vésperas de 68, ele viera mais cedo, em 1961, e, de algum forma, era, então, um homem já integrado no meio político e cultural parisiense, ajudando muitos desses imigrados a instalar-se e a superar as dificuldades de adaptação.

Nada, todavia, que lhe tivesse esgotado o amor da terra onde nascera. As últimas palavras do livro de memórias «Montparnasse. Até ao esgotamento das horas», de 2008, que retomou um anterior «Montparnasse, Mon village», termina com a chegada, a 30 de Abril de 1974, ao país agora libertado:

«Quando a voz do piloto anunciou que se estava a entrar em Portugal, suponho bem que todos nos calámos e fomos espreitar por cima das nuvens, ingénuos como meninos, de que eram feitos os campos, a cor das árvores e adivinhar o nome dos casarios.»

Rui Bebiano, Professor Universitário

6 Comments

  1. Triste notícia e ao mesmo tempo que recordação dos anos parisienses de Montparnasse. Foi precisamente aí que nos encontramos e faziamos por vezes tertulia no hotel du Ponant (onde eu fazia “rececionista” duas noites por semana), Foi aí que criamos com o Carlos Veiga Pereira o Jornal Português que tinha como diretor francês Robert Davezies. Desenhador de “presse” de talento, de humor e de grande camaradagem, a quem a vida noturna do “quartier” era fonte de inspiração. Perdemo-nos de vista desde há bastante tempo mas sempre me ficou a memória de bons momentos de cumplicidade, de amizade et de trabalho. Irei procurar -receio o resultado- dois postais desenhados que me enviou nos primeiros tempos pós-25 abril que na altura me comoveram. E hoje irei assistir à apresentação do documentario “Lorette et les autres, ao Musée de l’Immigration em Paris, sobre a solidariedade com os habitantes do “bidonville de Massy” nos anos 70 e lá recordarei o Vasco, porque foi assunto que tratamos nessa altura. Obrigado ao Sem Fronteiras por esta evocação.

  2. Conheci o Vasco durante o exilio. Participei, com outros, na celula HO-CHI-MIN, Agitaçao e Propaganda, de “O Comunista”, célula de que ele era o principal responsavel. Participei na tiragem do primeiro cartaz de “O Comunista”, de sua autoria, denunciando a guerra colonial, produzido la para os lados de Montparnasse. Até sempre, camarada.

  3. Ausentou -se o camarada VASCO! Tenho pena, temos todos muita pena. De participação militante activa, foi dos primeiros que pediu para alinhar na minha aventura de criar um jornal ” O Comunista”, que seria a base do movimento federalista ” Nucleos O Comunista”,evoluindo para fusão com o Grito do Povo e fazendo germinar a OCMLP.Desenhos, caricaturas, ideias, sempre activo e camarada. Continuas a fazer falta. Grande abraço

  4. Partiu o VASCO! Conhecemo-nos e cimentámos a nossa amizade no pequeno grupo que ajudou à ocupação da Casa de Portugal em Paris, no Maio de 68. Momento que evocámos e celebrámos ao longo de vários anos, com outros camaradas e amigos. Partiste, mas a memória não se apaga.

  5. Muito rimos Vasco nas reuniões dos núcleos! Este espírito faz falta hoje para animar a malta!
    Também os teus desenhos de sombra feitos. Hasta siempre camarada Vasco!

  6. Muito rimos Vasco nas reuniões dos núcleos, nessa amada cidade Paris! Esse espírito faz hoje falta para animar a malta! Também presentes os teus desenhos de sombra feitos e aqueles “naifs” contra a guerra colonial e pela deserção com armas. Valeu !
    Hasta siempre camarada Vasco!

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