O TEATRO COMO TESTEMUNHO DAS MIGRAÇÕES PORTUGUESAS – Parte 3

ABORDAGENS E EXPERIÊNCIAS ATUAIS | O Teatro e o combate à extrema-direita (14)

Leitura encenada online de Exílio(s) 61 -74

6| O REGRESSO DO ARQUIVO – Leitura encenada online de Exílio(s) 61 -74

Desde 2020, a Casa da Esquina, integra o projeto #Ecos[i] com a peça Exílio(s) 61 -74. Além das sessões preparatórias do projeto e da participação numa sessão na escola artística António Arroio, o trabalho da Casa da Esquina ficou suspenso devido à pandemia. No entanto, em 2021 avançamos com três sessões de leitura encenada online. Em ambas tivemos grupos muito heterogéneos. Algumas pessoas ligadas à prática do teatro (docentes, ex-alunos e alunos), investigador sociais, antigos exilados e desertores da associação AEP-61-74, bem como alunos franceses, que tinha a língua portuguesa como língua estrangeira, e membros da associação Memória Viva. Num conjunto de várias nacionalidades: portugueses, franceses, brasileiros e haitianos.

Abro as portas do processo da leitura online.

A formação decorreu em cada edição durante três dias, num período total de 6 horas. Num primeiro momento os formandos recebem a peça Exílio(s) 61 -74 previamente para ler.

Foto ©Newsletter do Projeto

[1º dia]

Na primeira sessão, está sempre presente a Sónia Ferreira, que coordena o projeto ECOS e o Zé Duarte que dá apoio técnico e de produção ao projeto. Feitas as introduções começo por fazer uma contextualização do processo de escrita da peça Exílio(s) 61 -74– a recolha de testemunhos; as transcrições, o trabalho com o arquivo (sobretudo de antigos exilados e do centro de documentação 25abril); e ainda a ponte entre o texto e a cena e como pode ser mediado o testemunho e a cena. Exponho o trabalho de invisibilidade requerida aos atores para ativarem estes testemunhos, como documentos que vivem pelo seu corpo; O trabalho de edição do texto. E, discuto algumas das questões que se levantam num trabalho documental baseado em testemunhos.

Depois começo por explicar cena a cena, e esclarecer dúvidas que surjam no texto. Depois distribuo – de forma provisória- intuitivamente, alocando cada pessoa a cada voz. A dificuldade do online é trabalhar a parte coral. Pois torna-se impossível realizar essa tarefa via zoom, pois as falas chegam em tempos diferentes, não há sincronismo. Por isso como proposta coloco o coro de vozes, que fazem avançar a História, repartido por todos eles, e não de forma síncrona como no espetáculo.

Na parte coral investi num trabalho que tinha feito com os meus atores – actioning sobre cada beat do texto à procura de ações, estratégias usadas nas palavras para atingir determinado objetivo ou reagir a determinado acontecimento.

 Antes do 2º dia registo no texto os cortes, e a distribuição definitiva, com o actioning dos coros introduzida. Sublinho em cada cena possibilidades da gravação. E por fim envio fotos para serem usados como fundo virtual, para termos uma imagem comum para cada cena.

[2º dia]

Proponho trabalhar como se fossemos gravar a leitura. Registo o nosso trabalho. Faço do ecrã o nosso palco. Para cada cena testo diferentes entradas e saídas, relações com a câmara e imagens como fundo virtual. Batalho no trabalho de actioning. E tento chegar até ao fim do texto. No final do ensaio envio um pequeno rascunho vídeo do que gravei de cada cena que funciona não só para mostrar como tudo isto iria ficar no final, mas sobretudo para permitir aperfeiçoar algumas falhas para o dia da gravação.

[3º dia]

Gravação da leitura encenada. Lemos cada cena, depois comento, fornecendo pistas para melhorar e gravámos.  Cena a cena. No final, fora dos ensaios, em processo de montagem, edito os brutos, misturo-os com paisagens sonoras usadas no espetáculo, e com bem como com gravações em que editei e manipulei documentos usados na peça e que davam conta do contexto histórico ou individual em cada cena. O vídeo de cada edição é lançado nas redes sociais do projeto #ECOS.

Confesso, que existiram momento inesperados, afetivos, que só a memória pode resgatar, um desses exemplos aconteceram quando o Fernando Cardoso leu as suas próprias palavra. Bem como, quando o Fernando Cardoso e o Joaquim Saraiva nos relataram de novo, as estórias de vida – a deserção, os caminhos do salto, etc. Só por isso valeu fazer estas sessões. Convido-vos a assistir[ii].

Foto © Newsletter do projeto

7| PRÓXIMOS PASSOS

No seguimento do projeto vamos iniciar o Laboratório de Escrita para Teatro:  Dramaturgias Políticas Contemporâneas – Memória e Resistência, em regime online, para 12 jovens dramaturgos entre os 21 e 35 anos. A ideia será investigar, a partir da minha investigação académica, a política da escrita teatral, através da genealogia, limites e objetos das dramaturgias políticas, com o objetivo de no final do curso cada formando escrever uma peça curta de teatro, através de procedimentos do teatro do real e ficcional, usando como tema a Memória e Resistência.

Deste modo pretendemos analisar de que forma evoluíram os processos e metodologias de escrita de pendor político? Quais os processos, metodologias e decisões que decorrem, entre a escrita e encenação, em termos de autoria, autenticidade, ética, teatralidade? De que modo a escrita de pendor político absorveu mecanismos e processos de pensamento e estruturas da sociedade nos seus conteúdos e formas dramáticas? Quais as consequências da dramaturgia de pendor político na transformação da sociedade?

No final do curso, um comité do projeto, eu, pela Casa da Esquina, a Sónia Ferreira pelo projeto #Ecos, o dramaturgo Jorge Louraço e mais um criador a indicar, selecionará um conjunto, da totalidade das peças produzidas, para publicação digital e tentaremos criar uma sessão com leitura dirigida e um debate sobre as peças finalizadas estão estimadas num calendário a definir entre novembro de 2021 e abril de 2022.

Considerações finais

Exílio(s) 61 -74 é um registo das migrações portuguesas através do teatro. Um testemunho dos acontecimentos. Um registo que documenta a ação do humano e questiona o curso da história a partir das nossas histórias. A minha e a tua. Já não as histórias épicas, mas as histórias de cada um de nós. As micronarrativas. A batida do coração da sociedade. É um espaço de partilha do que ficou na memória, do que nos foi transmitido, mas também dos seus deslocamentos, dos seus equívocos, das disputas de memória. É uma peça nascida da escuta dos outros.

Como conclui João Maria André no posfácio de O Meu País é o Que o Mar Não Quer e outras peças “Não se pense, pois, que estes textos[iii] sobre a emigração, exílio e república são o arquivo descritivo e impassível de testemunhos, documentos e histórias com que se tece o nosso quotidiano. Nas suas margens ou no coração da sua escrita irrompe permanentemente a irreverência a imaginação, a paixão e o espírito crítico. É um teatro arquivístico, sim, mas afetivo, atento, mas empenhado, assente na escuta, mas também no compromisso. Marx tinha razão: não basta interpretar a realidade é preciso contribuir para a sua transformação.” (2019, p.175)


[i] Projeto #ECOS – Exílios, contrariar o silêncio: memórias, objectos e narrativas de tempos incertos, que tem como parceiros o Centro em Rede de Investigação em Antropologia; Associação de Exilados Políticos Portugueses;Association Mémoire Vive / Memória viva; Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) – tutela URMIS; Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Copenhaga.

[ii] https://ecosexilios-cria.org/leituraencenada/

[iii] Os textos a que se refere são: O Meu País é o Que o Mar Não Quer, Exílio(s) 61-74, Manual de criação de uma Comissão de Inquérito e O Republicário, pertencentes ao livro O Meu País é o Que o Mar Não quer e outras peças.

Foto Destaque © Carlos Gomes /Casa da Esquina

NOTA SEM FRONTEIRAS: Como indicámos no início da publicação deste texto de Ricardo Correia decidimos apresentá-lo em 3 partes para melhor o ilustrar e facilitar a leitura numa base digital.

TRANSCREVEMOS AQUI O TEXTO NA SUA VERSÃO INTEGRAL

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