Vasco no Quartier

HISTÓRIA(S) | Vasco | Editado Carlos Ribeiro

por Irene Pimentel

A memória da minha vida passada não é muita, nem rigorosa. Por vezes, pergunto a amigos e amigas que viveram o passado comigo se algo verdadeiramente se passou, como eu tinha guardado na memória. É certo que o facto de termos participado em trabalho político clandestino durante a ditadura portuguesa, também me treinou para esquecer certos aspectos voluntariamente, inclusivamente nomes.

Isto só para esclarecer que o que contarei de seguida pode não ser completamente verdadeiro, mas passou-se tal como eu me lembro.

Paris, de curta duração

Como muitos, tive a felicidade – embora a vida não fosse fácil – de ficar durante um ano em Paris – creio que entre 1970 e 1971 – e ali juntar-me a exilados, desertores e refractários portugueses que então iniciaram a sua militância política, como me aconteceu.

Felicidade, porque aprendi muito, desde a camaradagem à solidariedade. Houve aspectos negativos, certamente, mas foram claramente ultrapassados pelos positivos. Ainda por cima, eu estava “legal” e, ao contrário dos meus camaradas, podia volta para o “interior”; isto é, Portugal.

Do que me lembro mais foi trabalhar na fábrica, de andar de metro de Paris, o Teatro Operário, no qual participei, do muito que li, da livraria “Joie de Lire”, no Quartier Latin, dos filmes proibidos em Portugal aos quais assisti, dos arquivos do PCF, onde investigava nos momentos livres, e evidentemente da militância nos núcleos O Comunista.

Em algumas ocasiões fui convocada a um quarto (atelier?) em Paris, não sei a morada, onde se estava a imprimir em serigrafia, com tinta vermelha, cartazes contra a guerra colonial e a  apelar à deserção com armas.  Pendurávamos os cartazes com molas como se fosse roupa a secar. Lembro-me que fui muito feliz em participar nessa experiência em juntar a militância à arte e aprendi a imprimir em impressoras de madeira, fabricados por nós próprios.

Os cartazes eram da autoria do Vasco Castro, do Vasco. Muito obrigada por essa magnífica experiência, Vasco, agora que infelizmente partiste. Saudades e memória de ti.

Cartazes do Vasco

Fonte Centro de Documentação 25 de abril – Universidade de Coimbra

ILUSTRAÇÃO | SEM FRONTEIRAS

Poucos dias depois do 25 de abril de 1974, Luis Filipe Costa entrevista em estúdio o cantor José Mário Branco, recentemente regressado do exílio em França. José Mário Branco fala sobre a sua própria experiência de exilado, e daquilo que conheceu da comunidade emigrante portuguesa em França.

Irene Pimentel

1 Comment

  1. É a época mais feliz da minha vida. E é talvez a única coisa de realmente importante que ficou da Revolução, já que a democracia representativa… enfim..
    E que foi isso a que tamanha impotância atribuo? Pois a REVOLUÇÃO CULTURAL! A VERDADEIRA MÚSICA DO POVO!
    E O TEATRO INDEPENDENTE, NATURALMENTE!!!!

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