{"id":4212,"date":"2023-11-13T11:00:53","date_gmt":"2023-11-13T11:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/aep61-74.org\/?p=4212"},"modified":"2026-05-05T11:16:58","modified_gmt":"2026-05-05T11:16:58","slug":"sessao-de-lancamento-do-livro-exilios-no-feminino-na-ericeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2023\/11\/13\/sessao-de-lancamento-do-livro-exilios-no-feminino-na-ericeira\/","title":{"rendered":"Sess\u00e3o de lan\u00e7amento do livro &#8211; &#8220;Ex\u00edlios no Feminino&#8221; na Ericeira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva <br>29 de outubro 2023<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">por Am\u00e9lia Resende<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"444\" height=\"628\" src=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cartaz-Ericeira.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4213\" srcset=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cartaz-Ericeira.jpg 444w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cartaz-Ericeira-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 444px) 100vw, 444px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Domingo, dia 29 de outubro, a meteorologia era adversa. Previa-se mais uma tempestade, com fortes chuvadas, falava-se mesmo em rio diluviano e grandes rajadas de vento. As mais temer\u00e1rias, eram sobretudo mulheres seniores, candidatas \u00e0 estrada. Falharam algumas, outras mantiveram-se firmes. Tinham tamb\u00e9m a responsabilidade de assegurar boleia a outras tantas. Houve as baixas por Covid e um forte motivo para outros tantos\/as n\u00e3o sa\u00edrem de Lisboa: a grande manifesta\u00e7\u00e3o nacional de apoio \u00e0 Palestina, pela paz no M\u00e9dio Oriente.<br>Tudo isto para dizer, que n\u00e3o obstante todos estes contratempos, foram 19 as presen\u00e7as no anfiteatro naquela tarde de Outubro.10 entre as amigas\/os que tinham vindo de prop\u00f3sito de Lisboa e de outros lugares mais long\u00ednquos e 9 \u201carrebanhados\u201d na \u00faltima hora nos caf\u00e9s e locais emblem\u00e1ticos da Ericeira. \u00c0 boa maneira antiga, duas de n\u00f3s distribu\u00edmos folhetos e col\u00e1mos cartazes. Abord\u00e1mos as pessoas na rua.<br>\u00c1s 16h come\u00e7ou a sess\u00e3o com a presen\u00e7a da apresentadora Alice Vieira, bem conhecida escritora infanto-juvenil com 80 t\u00edtulos publicados e traduzidos em v\u00e1rias l\u00ednguas e rec\u00e9m-premiada no M\u00e9xico, as autoras Beatriz Abrantes, Maria Em\u00edlia Brederode dos Santos e eu pr\u00f3pria. Anteriormente tinha havido um almo\u00e7o oferecido pela AEP 61-74 \u00e0 apresentadora, \u00e0s autoras presentes, \u00e0 Fernanda Marques e Carlos Ribeiro (editor) que tiveram de se ausentar.<br>Fiz, como estava dizendo, os agradecimentos protocolares \u00e0 C\u00e2mara Municipal de Mafra, \u00e0 AEP, mencionei de seguida alguns aspectos relevantes da figura de Alice Vieira: uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel para as crian\u00e7as e jovens do nosso pa\u00eds, que fizeram dos seus livros uma das formas mais convincentes de desenvolverem o gosto pela leitura, o caso dela pr\u00f3pria ter frequentado o Liceu Dona Filipa de Lencastre em Lisboa, \u00e0 altura, s\u00f3 feminino, situa\u00e7\u00e3o comum a mais duas autoras (Helena Cabe\u00e7adas e Am\u00e9lia Resende) e finalmente o facto de ela pr\u00f3pria ter fugido muito jovem para Paris, \u201cexilando-se\u201d temporariamente em casa da madrinha, Maria Lamas.<br>Foi tamb\u00e9m editora, como o seu futuro marido, M\u00e1rio Castrim, do suplemento liter\u00e1rio do Di\u00e1rio de Lisboa, o \u201cJuvenil\u201d que \u00e0 \u00e9poca incentivou as primeiras letras\/textos de muitos\/as futuros\/as escritores\/as do nosso pa\u00eds.<br>Por todas estas raz\u00f5es e por hoje ser tamb\u00e9m uma figura \u201cic\u00f3nica\u201d da Ericeira, sobre a qual discorre na sua \u00faltima biografia, Alice Vieira afigurava-se como uma participante imprescind\u00edvel neste evento.<br>Foi \u00e0 volta destes pontos que a sess\u00e3o se iniciou, tendo ela afirmado, logo no princ\u00edpio, que era de uma conversa que se tratava e n\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o formal. Discorreu-se pois, um pouco acerca das origens e juventude de algumas das autoras, dos factos que levaram \u00e0 sua tomada de consci\u00eancia pol\u00edtica e posterior partida para o ex\u00edlio.<br>Maria Em\u00edlia Brederode dos Santos tomou a palavra, para explicar de que fam\u00edlia provinha, de tradi\u00e7\u00e3o republicana e fazendo parte da oposi\u00e7\u00e3o, tendo sido nesse meio que primeiro despontara o seu olhar para o mundo e posterior envolvimento na luta por uma sociedade mais justa e mais livre. Fez o hist\u00f3rico dos momentos principais da Resist\u00eancia ao Estado Novo, desde as lutas estudantis nos anos 40 e posterior evolu\u00e7\u00e3o, passando por 62 e 69 (onde esteve directamente envolvida), a import\u00e2ncia das campanhas eleitorais, nomeadamente de Arlindo Vicente e Humberto Delgado em 58, a relev\u00e2ncia das cheias de 67 para a consciencializa\u00e7\u00e3o dos estudantes, n\u00e3o esquecendo outros momentos altos, como o caso do \u201cSanta Maria\u201d em Janeiro de 61 e a opera\u00e7\u00e3o Vag\u00f4 em Novembro desse mesmo ano.<br>Ao percorrer este \u201chist\u00f3rico&#8221;, sublinhou sempre que a cada onda de repress\u00e3o do regime, se assistia a um ressurgimento da Resist\u00eancia, como se este povo, embora oprimido, nunca tivesse deixado de lutar, mesmo nas circunst\u00e2ncias mais dif\u00edceis.<br>Neste momento, Beatriz Abrantes pediu a palavra e leu um excerto do seu testemunho, que colocou a sess\u00e3o no eixo dos Ex\u00edlios directamente. Descreve o quarto\/ casa em que vivia, vida privada e pol\u00edtica apenas separada por uma cortina e pela corda em que se penduravam os cartazes ainda frescos da impress\u00e3o. \u201cO apartamento era nada&#8221;. \u201cSalvava-nos a ideia de estarmos a fazer a Revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. \u00c9 entre estes dois par\u00e2metros que se mede o quarto do ex\u00edlio. Tocante o testemunho. Comoveu-se e comoveu a assembleia.<br>Numa segunda interven\u00e7\u00e3o, falou da guerra colonial e como ela tinha sido o vector que marcara para sempre aquela gera\u00e7\u00e3o, que era a sua\/ a nossa. Os companheiros: refract\u00e1rios, faltosos, desertores e as mulheres. Companheiras. Lutadoras por direito pr\u00f3prio e causas suas. Falou de Angola, da Lunda, dos diamantes, do colonialismo, do racismo. E depois deu n\u00fameros. Que todas estas coisas t\u00eam nomes e n\u00fameros. Que falam por si. Foi um memorial aquilo que ela construiu ali para n\u00f3s.<br>Pausa.<br>O passado conta-se para ficar um registo para mem\u00f3ria futura. Mas tamb\u00e9m para interpelar o presente. Para desafi\u00e1-lo.<br>\u00c9 esta din\u00e2mica de temporalidade que o livro \u201cEx\u00edlios no Feminino\u201d pretende imprimir.<br>E partindo dessa premissa, abordei o historial da luta do aborto, ainda clandestino no Portugal da nossa juventude dos anos 60 e 70. N\u00e3o h\u00e1 planeamento familiar. Alta taxa de mortalidade infantil. Nenhuma protec\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade sen\u00e3o o assistencialismo bacoco da Igreja. As mulheres entregues a si pr\u00f3prias. Quando com acesso \u00e0 p\u00edlula contraceptiva, esta revela-se agressiva e violenta. Como agressivas e violentas eram as condi\u00e7\u00f5es em que as mulheres abortavam e morriam \u00e0 m\u00e3o de \u201ccuriosas\u201d em salas de espera funestas. Aqui tamb\u00e9m havia distin\u00e7\u00f5es. O regime protegia as classes mais favorecidas, permitindo que algumas destas mulheres mais privilegiadas abortassem em cl\u00ednicas privadas no estrangeiro. Mas para a maioria de todas as outras, o caminho era a incerteza. E a ang\u00fastia. Muitas vezes uma maternidade n\u00e3o desejada. \u00c9 deste ponto que partimos, umas para uma luta \u201cno interior&#8221;. Outras, para o ex\u00edlio. E \u00e9 &#8220;l\u00e1 fora&#8221;que algumas de n\u00f3s se mobilizam e acompanham as lutas das suas companheiras em Fran\u00e7a, na B\u00e9lgica, na Su\u00ed\u00e7a, na Holanda, na Su\u00e9cia. Pela contracep\u00e7\u00e3o livre e gratuita. Pelo direito ao seu corpo e \u00e0 escolha da maternidade. Pela exig\u00eancia das creches. Pelo fim da discrimina\u00e7\u00e3o salarial.<br>E \u00e9 com este esteio que algumas de n\u00f3s exiladas, contribu\u00edmos neste e noutros campos, a educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, para a constru\u00e7\u00e3o da democracia no nosso pa\u00eds, ap\u00f3s o 25 de Abril, tendo como alavanca a experi\u00eancia de luta, de forma\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses que nos acolheram.<br>Ao dilema: ficar c\u00e1 dentro ou ir l\u00e1 para fora, que a um certo momento surgiu no debate, responderam-se com argumentos tanto da parte das autoras como da parte de alguns\/ mas participantes da assist\u00eancia. E nesta dial\u00e9ctica de dentro e fora, de mais solidariedade, menos solidariedade, de passado e de presente, ficou o desafio de colocar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a eterna quest\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Ser\u00e1 que aquilo que te oprime n\u00e3o te leva a continuar o caminho e a lutar?<br>Ser\u00e1 que se existe no teu pa\u00eds uma lei que despenaliza a interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez, \u00e9 l\u00edcito haver funcion\u00e1rias de hospitais p\u00fablicos que venham dizer, alto e bom som : Aqui n\u00f3s somos amigas dos beb\u00e9s? Que 2\/3 dos mesmos hospitais se recusem a faz\u00ea-la ou a dificultem por objec\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia?<br>\u00c9 contra estes e outros obst\u00e1culos, contra estas provoca\u00e7\u00f5es, contra o retrocesso a que come\u00e7amos a assistir em v\u00e1rias partes do mundo dos direitos das mulheres e das pessoas que as lutas do passado referidas no \u201cEx\u00edlios no Feminino\u201d se tornam presentes.<br>Hoje. Como ontem. Vamos continuar.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Novembro de 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva 29 de outubro 2023 por Am\u00e9lia Resende Domingo, dia 29 de outubro, a meteorologia era adversa. 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