{"id":4429,"date":"2024-09-07T14:30:07","date_gmt":"2024-09-07T14:30:07","guid":{"rendered":"https:\/\/aep61-74.org\/?p=4429"},"modified":"2024-09-07T14:30:11","modified_gmt":"2024-09-07T14:30:11","slug":"desertar-em-nome-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2024\/09\/07\/desertar-em-nome-da-paz\/","title":{"rendered":"Desertar em nome da paz"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"942\" src=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cardeira-desertar-em-nome-da-paz-1024x942.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4430\" srcset=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cardeira-desertar-em-nome-da-paz-1024x942.jpg 1024w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cardeira-desertar-em-nome-da-paz-300x276.jpg 300w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cardeira-desertar-em-nome-da-paz-768x707.jpg 768w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Cardeira-desertar-em-nome-da-paz.jpg 1181w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fernando Mariano Cardeira recusou combater na guerra colonial: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 traidor da p\u00e1tria por isso\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entrevista de Ricardo Rodrigues &#8211; a barca (texto e fotos)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cresceu em Fanhais, um lugar rural no concelho da Nazar\u00e9. Teve alguma influ\u00eancia anti-fascista no seu crescimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Antes pelo contr\u00e1rio! Os meus pais eram trabalhadores do campo e n\u00e3o se falava de pol\u00edtica. Um irm\u00e3o da minha m\u00e3e, que era militar [Albertino Carreira Mariano], reparou em mim porque era bom aluno e resolveu levar-me com um primo para a Figueira da Foz, onde ele estava na altura. Tinha dez ou<\/p>\n\n\n\n<p>onze anos e o meu tio apoiava o regime e a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Foi o seu tio a principal influ\u00eancia para ingressar na Academia Militar?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, no sentido pr\u00e1tico das coisas. Era uma boa carreira, entrei na Academia Militar com 18 anos e fui logo ganhar dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u00c9 dentro da Academia Militar que come\u00e7a a ter uma opini\u00e3o vincada contra o Estado Novo e a guerra colonial?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no liceu, na Figueira da Foz. N\u00e3o foi f\u00e1cil, o meu tio chegou a incompatibilizar-se comigo quando decidi sair da Academia Militar, em 1969 [nesta altura o tio era Brigadeiro do Ex\u00e9rcito]. Fa\u00e7o quest\u00e3o de usar a palavra deser\u00e7\u00e3o porque desertar \u00e9 recusar uma guerra e recusar uma guerra tem muita for\u00e7a. Criou-se a ideia de que quem desertava era um cobarde que tinha medo da guerra, para mim foi uma coisa natural. Sempre fui uma pessoa sem medo de manifestar a minha opini\u00e3o, n\u00e3o fico com receio de perder o emprego ou os amigos e mesmo dentro da Academia Militar n\u00e3o me inibi de o fazer. Este processo \u00e9 muito longo: tinha 14 anos quando foram as elei\u00e7\u00f5es com o Humberto Delgado e j\u00e1 ouvia coisas, depois entro no Liceu e come\u00e7o a ter uma opini\u00e3o vincada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Em Maio de 1970 \u00e9 mobilizado para ir para a Guin\u00e9, e em Agosto deserta. Como foi este processo<\/em><\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ser mobilizado j\u00e1 tinha decidido que n\u00e3o queria a guerra, por isso \u00e9 que sa\u00ed da Academia Militar. Sempre disse que n\u00e3o faria a guerra e isso era incompat\u00edvel com ficar em Portugal. As primeiras reuni\u00f5es foram em Janeiro de 1970 nas Caldas da Rainha, \u00e9ramos um grupo com fortes liga\u00e7\u00f5es porque nos conhec\u00edamos h\u00e1 nove anos e a vida militar leva a que se criem esses la\u00e7os de lealdade e camaradagem. Nunca gostei da tropa, mas fiz ali amigos para toda a vida, inclusive alguns que foram para a guerra. Por isso \u00e9 que digo que a deser\u00e7\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o individual, a pessoa tem o direito de recusar participar numa guerra. H\u00e1 uma coisa acima de tudo: o direito \u00e0 vida. Cada cidad\u00e3o tem o direito \u00e0 vida e ir \u00e0 guerra \u00e9 arriscar esse direito. Ningu\u00e9m \u00e9 traidor da p\u00e1tria por isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Quando \u00e9 que se sentiu totalmente aliviado?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 em Paris! N\u00f3s sa\u00edmos de Portugal a p\u00e9 pela Serra do Ger\u00eas, depois demor\u00e1mos mais de 20 horas a atravessar Espanha at\u00e9 \u00e0 fronteira com Fran\u00e7a de autocarro. E s\u00f3 em Paris \u00e9 que senti a liberdade porque houve muitos casos de portugueses apanhados em Espanha e a Guarda Civil devolvia-os&#8230; em Paris vivemos pouco tempo, mas com grande felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Acaba depois por se fixar na Su\u00e9cia. Porqu\u00ea essa escolha?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi um encontro do acaso. Est\u00e1vamos em Paris h\u00e1 poucos dias e cruzei-me com um antigo colega do Instituto Superior T\u00e9cnico, quando me viu disse logo: \u201cJ\u00e1 sei, cavaste-te!\u201d. Ele tinha acabado de beber caf\u00e9 com o j\u00e1 falecido Fernando Baginha que estava na Su\u00e9cia h\u00e1 um ano e fic\u00e1mos de boca aberta quando soubemos o apoio que nos davam l\u00e1. Nos primeiros tr\u00eas meses davam dinheiro para alimenta\u00e7\u00e3o, vestimenta, etc, porque o governo sueco apoiava os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o em \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>A despedida quando saem de Portugal foi dif\u00edcil?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 54 anos, mas tudo est\u00e1 bem vivo na nossa mem\u00f3ria. Essa \u00e9 a parte dif\u00edcil: o desertor \u00e9 mal visto pela sociedade, e \u00e0s vezes at\u00e9 pela fam\u00edlia. N\u00e3o foi f\u00e1cil, alguns j\u00e1 eram casados e com filhos, mas fomos amadurecendo a ideia. Em Maio marc\u00e1mos a data de ida [23 de Agosto] e nesses meses houve alguma ansiedade. Mas hoje faria igual, sem d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Como \u00e9 que se explica um pa\u00eds que n\u00e3o queria a guerra, mas que via com maus olhos quem n\u00e3o queria ir para a guerra?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o concordo com essa afirma\u00e7\u00e3o, havia muita gente que queria a guerra. No in\u00edcio da guerra colonial batiam-se palmas aos barcos, s\u00f3 a partir de 1965 \u00e9 que as coisas come\u00e7am a mudar, quando come\u00e7am a vir os caix\u00f5es e os jovens sem pernas e sem bra\u00e7os&#8230; a Europa tem uma hist\u00f3ria de domina\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias e o portugu\u00eas ficava orgulhoso de sermos um pa\u00eds t\u00e3o grande!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Foi f\u00e1cil a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 Su\u00e9cia?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A nossa estadia na Su\u00e9cia passa por duas fases: primeiro o deslumbramento por vivermos num pa\u00eds democr\u00e1tico e livre ao inv\u00e9s de Portugal que era um pa\u00eds cinzento. Mas depois come\u00e7aram a aparecer os problemas: eu era de engenharia, mas n\u00e3o tinha diploma. Fui para Lund, no sul da Su\u00e9cia, para terminar o curso, mas era muito dif\u00edcil estudar em sueco sem dominar a l\u00edngua. Fomos pais em 1972 e a nossa vida mudou, acabei por desistir do curso em 1973 [viria a terminar em Portugal em 1977]. Havia falta de perspectivas e para sobreviver fiz tudo e mais alguma coisa, aqueles trabalhos ligados \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o, agricultura, \u00e9ramos tipos desenrascados!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mesmo com todas as dificuldades, intensificam a luta contra o regime. Essa divulga\u00e7\u00e3o do que se passava em Portugal era t\u00e3o importante como ir para \u00c1frica?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Claro! A primeira coisa que eu fiz para terminar com a guerra foi desertar, porque sem homens n\u00e3o se fazem guerras.&nbsp; Simples! Em 1971 cri\u00e1mos o Comit\u00e9 de Apoio aos Desertores Portugueses porque quem quisesse ir sabia que tinha ali um apoio e foi muito \u00fatil! D\u00e1vamos apoio a quem recusava a guerra, houve pessoas que dormiram em minha casa at\u00e9 estarem orientados. Por isso, mantenho a luta pela dignifica\u00e7\u00e3o da atitude da deser\u00e7\u00e3o. Os desertores s\u00e3o t\u00e3o combatentes da liberdade como quem passou dez anos em Caxias. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es diferentes, mas todos lutaram pelo mesmo objectivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Lembra-se como recebeu a not\u00edcia do 25 de Abril?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1973 o 25 de Abril era inevit\u00e1vel, era uma quest\u00e3o de tempo. Tinha amigos na tropa, ainda hoje ao almo\u00e7o encontrei o Duran Clemente! E quando vejo o 16 de Mar\u00e7o [Levantamento das Caldas] fico realmente entusiasmado! Por isso, quando se d\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi uma surpresa para mim. Embora a presen\u00e7a de algumas pessoas, nomeadamente o Sp\u00ednola que era um militar muito conservador, nos fizessem pensar que n\u00e3o seria assim t\u00e3o simples. At\u00e9 ao 1.\u00ba de Maio foi uma semana de muita expectativa, com a alegria da liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos, e s\u00f3 no 1.\u00ba de Maio \u00e9 que senti mesmo que as coisas tinham mudado. Foi uma alegria muito grande, o 25 de Abril mudou este pa\u00eds, h\u00e1 quem n\u00e3o goste, que n\u00e3o gostem!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Em 2020, 50 anos depois, lan\u00e7ou o livro \u201cCr\u00f3nica de uma deser\u00e7\u00e3o &#8211; Retrato de um pa\u00eds\u201d. F\u00ea-lo para mem\u00f3ria futura ou sentiu necessidade de combater movimentos saudosistas?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi para deixar o registo para mem\u00f3ria futura, incentivado por amigos. Meti m\u00e3os \u00e0 obra em 2018 e andei quase tr\u00eas anos de volta do livro. \u00c9 um documento hist\u00f3rico, n\u00e3o quis romancear. Tenho muito orgulho neste livro. O crescimento de movimentos fascistas preocupa-me e o livro \u00e9 tamb\u00e9m uma arma contra isso, mas n\u00e3o foi feito com esse objectivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Presidiu at\u00e9 h\u00e1 poucos meses ao movimento c\u00edvico \u201cN\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria\u201d [NAM], acho interessante o nome. Come\u00e7a a faltar a mem\u00f3ria?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas est\u00e3o a esquecer-se. Os mais jovens t\u00eam de saber o que se passou para ficarem mais capacitados para entender o que se passa \u00e0 nossa volta e tamb\u00e9m para intervirem na pol\u00edtica. N\u00e3o apagar a mem\u00f3ria \u00e9 reavivar a hist\u00f3ria e estas associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito importantes. O Museu do Aljube, que est\u00e1 numa antiga pris\u00e3o, foi impulsionado com o contributo do NAM, e estamos neste momento a tentar criar um Museu da Resist\u00eancia na antiga pris\u00e3o da PIDE, no Porto, que actualmente \u00e9 um Museu Militar. Houve quem quisesse colocar uma unidade hoteleira no Forte de Peniche e isso era apagar a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mant\u00e9m contacto com os oficiais que desertaram consigo?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente tr\u00eas dos dez j\u00e1 morreram, mas mantemos todos o contacto. \u00c9 sempre bom quando estamos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ainda se sente com for\u00e7a para lutar contra as guerras?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Olhe, a Palestina \u00e9 uma coisa que me toca porque \u00e9 uma injusti\u00e7a enorme. S\u00f3 vejo mortes e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Como \u00e9 a sua vida actualmente?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tento manter-me activo intelectual e fisicamente em torno destas quest\u00f5es. Ainda ontem fui \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de um livro no Museu do Aljube, com muito calor, e isto j\u00e1 exige esfor\u00e7o da minha parte, mas tento manter-me activo. E fa\u00e7o muita investiga\u00e7\u00e3o pessoal, porque eu sempre fui engenheiro e cumpri o meu dever de of\u00edcio, mas \u00e9 isto que me d\u00e1 prazer. E felizmente tenho sempre coisas para fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Fernando Mariano Cardeira recusou combater na guerra colonial: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 traidor da p\u00e1tria por isso\u201d Entrevista de Ricardo Rodrigues &#8211; a barca (texto e fotos) Cresceu em Fanhais, um lugar rural no concelho da Nazar\u00e9. <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2024\/09\/07\/desertar-em-nome-da-paz\/\" title=\"Desertar em nome da paz\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[253],"tags":[254,224],"class_list":{"0":"post-4429","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-testemunhos","7":"tag-desercao","8":"tag-fernando-cardeira"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4429"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4429\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4431,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4429\/revisions\/4431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}