{"id":4433,"date":"2024-09-09T17:53:48","date_gmt":"2024-09-09T17:53:48","guid":{"rendered":"https:\/\/aep61-74.org\/?p=4433"},"modified":"2024-09-09T17:53:55","modified_gmt":"2024-09-09T17:53:55","slug":"quando-fugir-era-a-unica-opcao-joaquim-nunes-carlos-ventura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2024\/09\/09\/quando-fugir-era-a-unica-opcao-joaquim-nunes-carlos-ventura\/","title":{"rendered":"Quando fugir era a \u00fanica op\u00e7\u00e3o &#8211; Joaquim Nunes &#8211; Carlos Ventura"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"542\" src=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/quando-fugir-nao-era-opcao-1024x542.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4434\" srcset=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/quando-fugir-nao-era-opcao-1024x542.jpg 1024w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/quando-fugir-nao-era-opcao-300x159.jpg 300w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/quando-fugir-nao-era-opcao-768x406.jpg 768w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/quando-fugir-nao-era-opcao-1536x812.jpg 1536w, https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/quando-fugir-nao-era-opcao.jpg 1764w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption><br>Por T\u00e2nia Soares, 7 de Agosto 2024 na Voz de Tr\u00e1s os Montes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A Guerra do Ultramar fez-se n\u00e3o s\u00f3 por aqueles que estiveram na frente do campo de batalha, mas tamb\u00e9m por aqueles que dela fugiram. E n\u00e3o foram poucos: entre 1961 e 1974, pelo menos nove mil homens desertaram. Alguns fugiram j\u00e1 depois de estar em Angola, Mo\u00e7ambique ou Guin\u00e9, mas outros fugiram logo a partir de Portugal e atravessaram, a p\u00e9, os pa\u00edses vizinhos, \u00e0 procura da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles foi Joaquim Nunes, natural do Mar\u00e3o. Conta que come\u00e7ou a ter uma liga\u00e7\u00e3o \u00e0 milit\u00e2ncia muito cedo, desde os 16 anos, e uma das quest\u00f5es que mais o incomodava era precisamente a da Guerra Colonial. &#8220;Eu comecei a ler uma s\u00e9rie de escritores, coisas que me despertaram a aten\u00e7\u00e3o, e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que a hist\u00f3ria da guerra estava muito mal contada, que era uma injusti\u00e7a e que realmente s\u00f3 tinha uma op\u00e7\u00e3o: era faz\u00ea-la ou n\u00e3o a fazer&#8217;. E decidiu ent\u00e3o fugir logo a seguir a ter sido destacado para Guin\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A CAMINHADA<\/p>\n\n\n\n<p>Regressemos ent\u00e3o a 22 de setembro de 1972. Joaquim, com apenas 21 anos, parte a p\u00e9 para Franca com mais tr\u00eas companheiros. Iniciaram a caminhada, em Vila Franca de Xira, para passar a fronteira para Espanha. &#8220;N\u00e3o pod\u00edamos ir para hot\u00e9is, nem para pens\u00f5es. Ent\u00e3o, and\u00e1vamos de noite, com muitas perip\u00e9cias e sempre perseguidos pela pol\u00edcia&#8221;, relembra. Para n\u00e3o se perderem, o truque foi seguir a linha ferrovi\u00e1ria da linha internacional. Durante o dia, escondiam-se no monte. E foi assim que conseguiram chegar a Espanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo fora da orla da PIDE, um dos seus colegas foi apanhado e &#8220;devolvido ao regime&#8221;. &#8220;Foi complicado&#8221;, desabafa, relembrando uma situa\u00e7\u00e3o na cidade de Rodrigo, em Espanha. Quando disseram a um taxista que queriam ir para Salamanca, este respondeu &#8220;que ia avisar a esposa, porque era uma viagem grande&#8221;, O instinto de Joaquim disse-lhe para fugirem e, confirmando os seus medos, &#8220;passados uns minutos, a Guarda Civil tinha cercado aquilo tudo&#8221;. Tinham sido denunciados. Assim, em vez de fazerem os cerca de 90 quil\u00f3metros de t\u00e1xi, correram o m\u00e1ximo que puderam para fugir e caminharam o restante caminho at\u00e9 Salamanca. Cidade esta onde Joaquim relembra um dos momentos mais vividos que tem em mem\u00f3ria. Ao encontrar uma lixeira que tinha estado a arder, deitaram-se nela. &#8220;Dormimos no meio daquilo porque era quentinho. E \u00e0s vezes ainda hoje tenho a sensa\u00e7\u00e3o daquele mau cheiro da lixeira&#8221;, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho n\u00e3o se fazia esperar e, com medo de serem encontrados, puseram novamente p\u00e9s a caminho. Depois de Salamanca, prosseguiram de Madrid para Bilbau e da\u00ed para S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Depois, atravessaram os Pirin\u00e9us e chegaram finalmente a Fran\u00e7a no dia 2 de outubro, dez dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o em territ\u00f3rio franc\u00eas que conheceu um &#8220;mundo novo&#8221; e, enfim, a liberdade. Em Portugal, relembra, &#8220;se d\u00e9ssemos um beijo na namorada, \u00edamos para a esquadra, se fum\u00e1ssemos um cigarro na rua, vinha o policia perguntar pela licen\u00e7a de Isqueiro, se quer\u00edamos ver um filme mais audaz, n\u00e3o pod\u00edamos porque a censura cortava&#8221;, Para Joaquim, a realidade de Paris foi realmente &#8220;um choque&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a passou Carlos Ventura, que partiu de Chaves para fugir, em 1971, local onde tinha passado os \u00faltimos tr\u00eas meses do seu ano de tropa. Cumpriu o servi\u00e7o militar apenas para aprender a manusear armas, porque &#8220;desde cedo&#8221; que era contra a guerra, que considerava &#8220;absurda&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de Joaquim Nunes, Carlos Ventura teve a sua fuga mais facilitada por um amigo que estava na avia\u00e7\u00e3o e o levou maior parte do caminho. Apenas passou a p\u00e9 as fronteiras e conta que de Portugal para Espanha, os guardas n\u00e3o o chateavam e, estando fardado, at\u00e9 lhe faziam contin\u00eancia. No entanto, isso n\u00e3o o impediu de sentir medo. &#8220;\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o perigosa, e, portanto, as coisas podiam ter corrido mal nas fronteiras, porque havia acordos entre as Pol\u00edcias&#8221;, mas l\u00e1 conseguiu chegar, sem problemas maiores, tamb\u00e9m a Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>ESQUECIDO<\/p>\n\n\n\n<p>Joaquim diz que os fugidos da guerra &#8220;foi um tema esquecido durante muitos anos&#8221;, admitindo que ele pr\u00f3prio, achasse que isto fosse uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria&#8221;, garante que nunca sentiu isso na pele, &#8220;possivelmente at\u00e9 por me meter sempre em c\u00edrculos bastante abertos&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>A Guerra do Ultramar fez-se n\u00e3o s\u00f3 por aqueles que estiveram na frente do campo de batalha, mas tamb\u00e9m por aqueles que dela fugiram. E n\u00e3o foram poucos: entre 1961 e 1974, pelo menos nove <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2024\/09\/09\/quando-fugir-era-a-unica-opcao-joaquim-nunes-carlos-ventura\/\" title=\"Quando fugir era a \u00fanica op\u00e7\u00e3o &#8211; Joaquim Nunes &#8211; Carlos Ventura\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[253],"tags":[],"class_list":{"0":"post-4433","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-testemunhos"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4433"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4435,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4433\/revisions\/4435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}