{"id":4777,"date":"2026-02-15T00:11:53","date_gmt":"2026-02-15T00:11:53","guid":{"rendered":"https:\/\/aep61-74.org\/?p=4777"},"modified":"2026-02-17T16:31:53","modified_gmt":"2026-02-17T16:31:53","slug":"exilios-no-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2026\/02\/15\/exilios-no-feminino\/","title":{"rendered":"Ex\u00edlios no Feminino"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Ex\u00edlios 4<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Editado por AEP61\/74 &#8211; Associa\u00e7\u00e3o de Exilados Politicos Portugueses \/ Carlos Ribeiro &#8211; mar\u00e7o 2023<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Impacto do ex\u00edlio e interroga\u00e7\u00f5es de sete mulheres de esquerda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Organizado por temas)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Inici\u00e1mos este nosso percurso pouco antes do confinamento. O nosso primeiro encontro foi presencial, numa agrad\u00e1vel esplanada do Campo Grande. Muitas de n\u00f3s n\u00e3o nos conhec\u00edamos ainda pessoalmente e foi engra\u00e7ado trocar as primeiras impress\u00f5es sobre o projeto que nos reunia: escrever um livro sobre os nossos trajetos de ex\u00edlio. A ideia pareceu-nos interessante porque se o tema do ex\u00edlio tem sido t\u00e3o pouco falado na hist\u00f3ria da resist\u00eancia ao fascismo no Estado Novo, o papel das mulheres, e tantas foram, muitas vezes como companheiras dos refugiados pol\u00edticos, desertores e refrat\u00e1rios, tem sido completamente ignorado. Faz\u00ea-las sair do sil\u00eancio, porque n\u00e3o? Durante dois anos partilh\u00e1mos mem\u00f3rias, reconstru\u00eddas em longas conversas, soltas e francas ainda que balizadas por temas previamente acordados. Lentamente, como se quer em todas as boas<br>conversas, aprofund\u00e1mos o conhecimento m\u00fatuo do que foram os nossos percursos de vida: desde a inf\u00e2ncia \u00e0 adolesc\u00eancia e juventude, o despertar para a pol\u00edtica, o salto e as experi\u00eancias do ex\u00edlio que tiveram lugar em pa\u00edses diversos como a Fran\u00e7a, a B\u00e9lgica, a Su\u00e9cia, a Su\u00ed\u00e7a e a Arg\u00e9lia. Procur\u00e1mos ainda compreender em que medida a experi\u00eancia do ex\u00edlio nos marcou e contribuiu para as nossas viv\u00eancias no Portugal democr\u00e1tico do p\u00f3s-25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as geracionais que nos caracterizam &#8211; duas gera\u00e7\u00f5es separadas por dez anos \u2013 trazem \u00e0 tona as diferentes din\u00e2micas da milit\u00e2ncia pol\u00edtica nas d\u00e9cadas de 60 e 70. A gera\u00e7\u00e3o mais velha muito influenciada pela crise acad\u00e9mica de 1962, pela ainda proximidade \u00e0s elei\u00e7\u00f5es do general Humberto Delgado (1958) e pela presen\u00e7a dominante do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP) na luta antifascista, e a gera\u00e7\u00e3o mais jovem marcada pelas dram\u00e1ticas cheias de 1967 e pela influ\u00eancia dos movimentos marxistas-leninistas que se desenvolviam em Portugal no final da d\u00e9cada de 60 e in\u00edcio de 70. A guerra colonial, sendo transversal a ambas as gera\u00e7\u00f5es, tem um impacto mais profundo na gera\u00e7\u00e3o mais jovem, sendo um fator determinante para a sua mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sa\u00edda do pa\u00eds.<br>Cedo percebemos que n\u00e3o se pode falar de &#8220;ex\u00edlio&#8221;, mas sim de &#8220;ex\u00edlios&#8221;, t\u00e3o diversas s\u00e3o as circunst\u00e2ncias e os motivos que nos levaram a renunciar ao ch\u00e3o que pis\u00e1vamos e a abra\u00e7ar esse salto no desconhecido, quantas vezes t\u00e3o doloroso. Devemos apenas considerar como ex\u00edlio aquele a que nos vimos for\u00e7ados face ao perigo iminente da pris\u00e3o&#8230; ou tamb\u00e9m o volunt\u00e1rio, o que nos leva a afastar-nos da p\u00e1tria por raz\u00f5es pol\u00edticas numa atitude de rejei\u00e7\u00e3o da ordem vigente?<br>Quando hoje nos debru\u00e7amos sobre o tema do ex\u00edlio feminino parece-nos fundamental adotar o conceito mais abrangente se queremos come\u00e7ar a construir um quadro hist\u00f3rico do papel deste n\u00famero ainda n\u00e3o determinado de jovens mulheres que abandonaram Portugal. A sua ac\u00e7\u00e3o militante junto das comunidades emigrantes foi da maior import\u00e2ncia para a consciencializa\u00e7\u00e3o destas sobre o car\u00e1ter opressivo do Estado Novo e a necessidade de organizar a recusa \u00e0 Guerra Colonial; o papel destas mulheres foi ainda relevante enquanto pontes (correios) entre o trabalho clandestino que se desenvolvia no interior de Portugal e as organiza\u00e7\u00f5es antifascistas sediadas em diversos pontos da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pa\u00edses de ex\u00edlio o trabalho pol\u00edtico desenvolvido nas associa\u00e7\u00f5es de emigrantes, quer na alfabetiza\u00e7\u00e3o, no ensino da l\u00edngua do pa\u00eds de acolhimento ou na interven\u00e7\u00e3o cultural a diferentes n\u00edveis como o teatro e a cria\u00e7\u00e3o de bibliotecas, veio a revelar-se da maior import\u00e2ncia, n\u00e3o apenas na tomada de consci\u00eancia pol\u00edtica destes setores para a verdadeira natureza do Estado Novo, mas tamb\u00e9m como fator de desenvolvimento da capacidade de integra\u00e7\u00e3o destas comunidades nos pa\u00edses de acolhimento e na tomada de consci\u00eancia por parte das mulheres de que a viol\u00eancia e repress\u00e3o machista a que estavam sujeitas n\u00e3o era uma fatalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O maio de 1968 e os movimentos emergentes constitu\u00edram momentos importantes de crescimento e de rutura pol\u00edtica, com graus de envolvimento e de ades\u00e3o diferenciados.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto do p\u00f3s &#8220;Maio de 68&#8221;, com o surgimento em for\u00e7a dos movimentos feministas, na afirma\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres j\u00e1 n\u00e3o apenas restringidos ao plano laboral, na exig\u00eancia da partilha das actividades dom\u00e9sticas, no direito ao prazer e \u00e0 viv\u00eancia de uma sexualidade plena e livre, revela-se determinante para a tomada.de consci\u00eancia da import\u00e2ncia de aliar a milit\u00e2ncia antifascista a essa nova frente de luta que se abria sob a bandeira da igualdade de g\u00e9nero. A luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres extravasa assim definitivamente o mundo laboral e entra nas \u00e1reas dos costumes sociais e da moral e provoca na gera\u00e7\u00e3o mais jovem uma atitude fortemente cr\u00edtica face \u00e0 cultura machista que dominava as organiza\u00e7\u00f5es marxistas-leninistas onde militavam. O contacto estreito com os trabalhadores e trabalhadoras emigrados, quer fosse em cumprimento da palavra de ordem &#8220;ir ao encontro das massas&#8221;, diretamente ligada \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cultural chinesa, quer fosse por necessidades objetivas de sobreviv\u00eancia, traduziu-se para algumas de n\u00f3s no abandono dos estudos em prol da procura de trabalho nas f\u00e1bricas ou em setores de atividade n\u00e3o qualificados como o das limpezas, os \u00fanicos dispon\u00edveis para imigrantes naturalmente explorados por sociedades marcadas pela xenofobia. slog soet sh<\/p>\n\n\n\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias a que estavam sujeitos os exilados portugueses na maior parte dos pa\u00edses de destino provocou um profundo impacto em quase todas n\u00f3s, jovens mulheres acabadas de sair do conforto de uma classe m\u00e9dia urbana. Fomos ent\u00e3o confrontadas com a realidade de uma desclassifica\u00e7\u00e3o social, o que envolveu, para muitas de n\u00f3s, um s\u00fabito sentimento de vulnerabilidade e de inseguran\u00e7a, mas tamb\u00e9m nos possibilitou experienciar de facto a vida e as dificuldades dos grupos mais desfavorecidos da sociedade, contributo que estruturou e sedimentou a milit\u00e2ncia pol\u00edtica anticapitalista em prol de uma sociedade mais justa que todas t\u00ednhamos abra\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental real\u00e7ar que, neste quadro de dureza e de dificuldades econ\u00f3micas vivenciadas, a solidariedade e entreajuda entre os exilados era uma realidade, quer fosse espont\u00e2nea quer organizada em torno de institui\u00e7\u00f5es ou organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O acolhimento daqueles que chegavam, a ajuda na procura de trabalho, de alojamento ou na obten\u00e7\u00e3o de documentos constitu\u00eda uma parcela muito importante da milit\u00e2ncia pol\u00edtica daqueles que tinham chegado antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es internacionais s\u00e3o referidas como parte integrante desse imenso esfor\u00e7o de acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para finalizar, algumas interroga\u00e7\u00f5es que sempre nos acompanharam ao longo destes dois anos e \u00e0s quais, temos de confessar, n\u00e3o temos a pretens\u00e3o de ter conseguido responder.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 que a sociedade e a cultura do pa\u00eds onde vivemos os nossos ex\u00edlios influenciou (ou n\u00e3o) o nosso percurso de vida? Foi certamente diferente viver o ex\u00edlio na B\u00e9lgica, em Fran\u00e7a, na Su\u00ed\u00e7a, na Su\u00e9cia ou na Arg\u00e9lia. Pensamos que a resposta a esta pergunta exigiria um esfor\u00e7o de investiga\u00e7\u00e3o mais aprofundado, tendo em conta um universo mais alargado de exilados. Assim, cada uma de n\u00f3s poder\u00e1 falar s\u00f3 por si, no seu caso pessoal, n\u00e3o nos sendo poss\u00edvel generalizar e tirar conclus\u00f5es sobre este tema.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 que a nossa experi\u00eancia do ex\u00edlio influenciou o desenvolvimento das nossas actividades profissionais e cidad\u00e3s no p\u00f3s-25 de Abril?<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m a resposta a esta quest\u00e3o nos parece dif\u00edcil de generalizar, dada a diversidade de cursos das sete mulheres envolvidas neste projecto. Podemos concluir, sim, que todas nos afirm\u00e1mos como mulheres de esquerda, de uma forma mais ou menos militante, nos diferentes quadrantes das nossas vidas &#8211; quer nas nossas vidas profissionais (educa\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o sociocomunit\u00e1ria, investiga\u00e7\u00e3o&#8230;), quer na nossa interven\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 (actividade sindical, partid\u00e1ria, participa\u00e7\u00e3o em associa\u00e7\u00f5es diversas) &#8211; tendo em vista a defesa dos direitos das mulheres, dos imigrantes, das minorias \u00e9tnicas e da democracia e do Estado de Direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas todas consideramos que a experi\u00eancia do ex\u00edlio foi crucial nos nossos percursos de vida, quer a n\u00edvel pessoal, quer profissional, quer cidad\u00e3o. Foi uma experi\u00eancia de uma certa marginalidade que nos permitiu compreender melhor o mundo dos exclu\u00eddos, dos perseguidos, dos &#8220;condenados da terra&#8221; (Les damn\u00e9s de la terre), segundo a bela express\u00e3o de Frantz Fanon.<\/p>\n\n\n\n<p>Am\u00e9lia Resende<\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz Abrantes<\/p>\n\n\n\n<p>Fernanda Oliveira Marques<\/p>\n\n\n\n<p>Helena Cabe\u00e7adas<\/p>\n\n\n\n<p>Helena Rato<\/p>\n\n\n\n<p>Irene Flunser Pimentel<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Em\u00edlia Brederode Santos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Ex\u00edlios 4 Editado por AEP61\/74 &#8211; Associa\u00e7\u00e3o de Exilados Politicos Portugueses \/ Carlos Ribeiro &#8211; mar\u00e7o 2023 Impacto do ex\u00edlio e interroga\u00e7\u00f5es de sete mulheres de esquerda (Organizado por temas) Inici\u00e1mos este nosso percurso pouco <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2026\/02\/15\/exilios-no-feminino\/\" title=\"Ex\u00edlios no Feminino\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":4778,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"yes","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[242],"tags":[],"class_list":{"0":"post-4777","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-publicacoes"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4777","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4777"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4777\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4852,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4777\/revisions\/4852"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4778"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4777"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4777"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aep61-74.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4777"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}