
Conheci o Tião e a Lélia sua companheira de sempre em 1969 em Paris na Cidade Universitária Internacional. Moravam na Casa do Brasil e eu na Casa da Turquia. Fazíamos parte da pequena comunidade de portugueses e brasileiros que viviam naquelas residências universitárias, de que fazia também parte a Rosa Amélia que viria a ser minha companheira por mais de vinte anos. Muitos como o Tião, a Lélia e eu próprio escaparam às perseguições das duas ditaduras, nós portugueses vivendo em França muitas vezes também por recusarmos a guerra colonial contra os povos africanos da Guiné, Angola e Moçambique.
O Tião fazia na altura um doutoramento em Economia, e foi adquirindo interesse e progressivamente experiência de fotografia. Tinha um pequeno laboratório fotográfico no quarto da residência, revelando por vezes fotos de amigos. Revelou-me uma vez fotos de uma viagem que fiz a Itália com a Rosa Amélia e a irmã Fátima.
Foi depois trabalhar na Organização Internacional do Café em vários países africanos onde a paixão pela fotografia se foi mostrando, fotografando aquilo que o prendia à terra, aos seus habitantes e aos seus modos de vida sempre difíceis, começando as suas fotos a serem publicadas. Mantivemos uma relação forte de proximidade nessa época e contrbuiu tambem despertar o meu interesse pela fotografia
Depois do 25 de abril 1974 e do nosso regresso a Portugal, fomos mantendo o contacto, estando connosco várias vezes em Portugal, no Algarve, em Válega (Ovar) e Lisboa, tendo tido o privilégio de o acompanhar em várias situações nos anos de 1974 e 1975 ligadas ao Processo Revolucionário em Curso.
Mais tarde em Moçambique encontrámo-nos num encontro com fotógrafos moçambicanos onde estava, entre outros, Ricardo Rangel já falecido, tendo-o também acompanhado, juntamente com Lélia, em duas exposições em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (1993) e na Cordoaria Nacional (2016).
Tião e Lélia participaram, em 2021, na edição dos Exílios 3 da AEP61/74 com um texto e três fotografias.
Mais recentemente estivemos juntos quando da atribuição a do Prémio Gulbenkian de 2023 Gulbenkian Prize for Humanity, Lélia Wanick Salgado pelo seu trabalho de recuperação ambiental desenvolvido no Instituto Terra.
Sebastião tem um trabalho extraordinário de documentação sobre a espécie humana e o ambiente no Planeta de que destacamos algumas: Outras Américas, sobre a pobreza na América Latina, Sahel: O Homem em Pânico cobrindo a seca no Norte da África, Trabalhadores, documentando o trabalho manual em todo o mundo, Povos Indígenas Natureza e Justiça, , Genisis, sobre a situação ambiental atual no Planeta.
O Tião deixa dois filhos, Juliano cineasta que realizou com Wim Wenders, o documentário O Sal da Terra, sobre o trabalho de seu pai e Rodrigo, nascido em 1979, que tem síndrome de Down. Rodrigo poucos dias antes do Falecimento de Sebastião tinha a inauguração de vitrais que concebeu, na Catedral de Reims.
Sebastião Salgado morreu aos 81 anos, em Paris, debilitado por uma exposição longa às situações difíceis da condição de fotógrafo.
À Lélia, filhos e netos enviamos aqui um forte abraço solidário de tristeza.
À família a AEP 61/74 Associação de Exilados Políticos Portugueses endereça as suas sentidas condolências.
José Augusto Martins (foto Instituto Terra)

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