Sociedade Recreativa Operária, Edifício quinhentista Landau
A sessão teve a presença de cerca de 20 pessoas. A Mesa foi constituída por um membro da AEP61/74, Carlos Ventura, bem como por Maria Jorgete Teixeira, Ana Benavente e Luis Nascimento que efetuaram depoimentos neste livro

Carlos Ventura fez a apresentação da Mesa e explicitou o enquadramento histórico do livro e o seu sentido no quadro das publicações da AEP, bem como a sua estrutura e significado na memória do dia 25 de abril assim como a importância da diversidade e pluralidade dos depoimentos.
Luis Nascimento natural de Santarém falou da sua experiência como jovem de 19 anos no dia 25 de abril de 74 e a sua vivência na Baixa de Lisboa nesse dia. Leu o seu depoimento.
Maria Jorgete Teixeira, falou “deste livro cheio de testemunhos tão diversos e ricos que se centram nessa data que jamais esqueceremos” lendo a sua intervenção que anexamos.
Ana Benavente, natural da Região, referiu a sua experiência enquanto jovem estudante liceal em Santarém antes do 25 de Abril. Falou ainda da sua experiência como exilada política na Suíça e da actividade cívica com os emigrantes portugueses naquele país, bem como posteriormente em Portugal na área de educação em geral e em particular de adultos.
Seguiram-se varias intervenções do publico sobre o 25 de Abril e os problemas levantados pela Guerra Colonial. Pelas 20H00 foi encerrada a sessão.

Após a sessão houve um jantar de Confraternização no restaurante da Sociedade Recreativa Operária de Santarém
Intervenção de Maria Jorgete Teixeira
“25 de Abril- onde estávamos? “- Santarém
Agradeço à Associação de Exilados Portugueses o convite para estar hoje aqui convosco assim como todo o empenho que teve em levar a cabo a edição deste livro cheio de testemunhos tão diversos e ricos que se centram nessa data qpo” que esperávamos.
Da minha história já dei testemunho com a memória que me foi possível que muito ficará sempre por dizer.
Serei uma entre tantas vozes, uma grávida na Revolução como me apelidou o jornal on-line, “Mensagem de Lisboa”, na sua edição de Abril de 2024.
Por ter ansiado tanto esse dia, essa mudança que ia entrar pelas casas como diz Maria Velho da Costa e por ter combatido com toda a força da juventude o regime fascista que nos oprimia, nas lutas estudantis na Universidade de Lisboa, e ter sofrido a repressão a vários níveis, não consegui ficar em casa. Desaguei no Rossio prenhe de gente e, apesar da gravidez já muito avançada, subi e desci a rua do Chiado onde se ouviam tiros mais acima, na sede da Pide, soube mais tarde.
Era na altura uma jovem mãe com uma filha a 3 dias de fazer um ano e grávida da segunda. Saí para levar a primeira à creche mas estava fechada.
Depois foi a ansiedade, de ouvidos colados ao rádio e olhos cravados na televisão sem saber o que havia acontecido. A esperança e a dúvida até ter a certeza: o Fascismo caía, desmoronava-se como um baralho de cartas já podre.
Nessa altura estava em casa, não tinha emprego, a Faculdade tinha ficado pelo caminho por ter sido suspensa por 6 meses que depois se prolongaram por outros tantos.
Não tinha a liberdade do meu companheiro que podia dedicar-se por completo à Revolução. Enquanto não tive filhos acompanhava-o na militância, depois fiquei limitada. Era assim. A gente acomodava-se, mas sempre tentando arranjar uma brecha para intervir activamente na vida fora de portas. E, naquele dia, consegui sair porque senti que não poderia deixar de fazê-lo.
Das mulheres pouco reza a história. Embora tivessem estado lá, raramente são nomeadas.
Por isso, saliento com agrado, a inclusão de 13 testemunhos de mulheres nesta obra, 16 em 47, não é a paridade absoluta, mas o caminho faz-se de etapas e muito ainda falta cumprir nesta batalha pelos direitos efectivos das mulheres.
Da importância deste livro fala Pezarat Correia no seu Prefácio, depois de fazer uma análise, ainda que breve, dos textos:
“ Vale a pena ler este livro. Nele está muito do 25 de Abril, do porquê, do quê, do para quê.
As questões que, quem o viveu, conhecem bem mas que, nos tempos que correm, é pedagógico e indispensável revelar a quem o não viveu e relembrar a quem o esqueceu”.
Esta ponte para o presente onde se faz sentir um retrocesso de valores no nosso país e no mundo, faz parte da nossa inquietação, ansiedade e tristeza.
Nesse sentido, cito também o que escreveu Amélia Resende no seu Posfácio :
“Desafio o leitor, com base nestes testemunhos, “25 de Abril- onde estávamos? “ a questionar-se: Onde estamos hoje?”
Impossível não perguntarmos o que falhou, de que forma deixamos que se extinguissem as conquistas de Abril, a esperança numa vida digna, justa, mais fraterna, mais feliz.
Permitam-me que refira um filme que vi há pouco na Cooperativa Mula, no Barreiro , “Mulheres, Terra, Revolução” sobre a participação das mulheres na Reforma Agrária.
Aí se mostra o envolvimento das mulheres, em vários patamares, a força e vontade com que se empenhavam na mudança, com que discutiam com os homens, ombro a ombro, na liderança em alguns casos. Aí relatam o que mudou com o 25 de Abril, as primeiras abordagens à sua vida sexual e reprodutiva, elas rindo envergonhadas, afinal era o abanar de uma mentalidade castradora e repressiva que durara séculos.
Foi impossível não nos perguntarmos para onde se varreu aquela vontade de participação, de colectivamente discutir, de organizar, de decidir o trabalho, a vida.
E de ter nos olhos a esperança de um mundo mais justo, de “gente igual por fora, gente igual por dentro” que nos canta Zeca na sua “Utopia”.
E termino, ainda assim, com esta certeza presente no título do meu depoimento:
Nenhum dia teve ainda uma luz assim tão pura!
Manuel Rodrigues (fotos, Carlos Martins, Carlos Ventura, José Augusto Martins)
