Debate no âmbito da exposição “O Salto – Migrações e Exílios de Ontem e Hoje”

Sessão havida a 18 de junho 2025 Núcleo AJA Lisboa (rua de S. Bento, 170)

1 – Apresentação da Exposição

José Augusto Martins fez uma apresentação da Exposição patente na AJA até 31 de julho 2025, “O Salto – Migrações e Exílios de Ontem e Hoje” acentuando a importância da legalização feita pela França de jovens portugueses indocumentados em idade militar que fez com que uma parte significativa dos mais de duzentos mil jovens que recusaram a guerra colonial tivessem um local de refúgio após a sua saída a salto de Portugal, tornando-se a imigração portuguesa a mais numerosa em França quando se deu o 25 de abril de 1974.

Foi também evidenciada a importância das organizações que apoiaram aqueles jovens, incluindo os comités de apoio aos desertores, não só em França como em outros países da Europa, como a Bélgica, os Países Baixos, o Luxemburgo, o Luxemburgo, o Reino Unido, a Suíça, a Dinamarca e a Suécia bem como o papel essencial que as associações portuguesas nesses países tiveram na consciencialização dos jovens que aí chegavam como nas próprias populações de acolhimento.

Fernando Mariano Cardeira, autor na foto de capa desta exposição, referiu a importância da deserção coletiva de alunos da Academia Militar de que fez parte, influenciando muitos outros jovens, incluindo militares de carreira, para tomarem uma decisão semelhante, mencionando também a sua experiência na Suécia não só de apoio aos jovens portugueses, como na sua ação no âmbito do Comité de Desertores naquele país.

2 – Tendências de voto na emigração portuguesa na Europa

Amélia Resende focou em especial o crescimento recente dos partidos de extrema-direita no seio da emigração portuguesa em especial dos países europeus. Leu uma mensagem do nosso associado no Luxemburgo, António Paiva, que tem um longo percurso naquele país quer de apoio aos imigrantes portugueses desde os anos 1960, como da divulgação da luta contra a ditadura e a guerra colonial junto dos luxemburgueses.

António Paiva focou em particular a dimensão da emigração para a França e outros países da Europa nos anos 1961 a 1974 motivada não só pela duras condições de vida em Portugal naquela época como pela recusa de muitos jovens em participar na guerra colonial de muitos jovens que saíam a salto do país.

Toda esta emigração debatia-se com os problemas inerentes aos vários países de acolhimento. O salto, os documentos, a carta de estadia (séjour), a carta de trabalho, o alojamento, a segurança social, a escola, o pensamento, o desejo, a forma de vida, a reivindicação, o transmitir das mensagens e a integração eram tudo temas com os quais os imigrantes em Portugal também se debatem atualmente, verificando-se contudo que o apoio dos vários governos portugueses, tanto dentro como fora do país, deixou sempre a desejar.

A primeira geração destes imigrantes está já no final da vida, muitos deles desiludidos com os partidos tradicionais, em quem já não acreditam e que tinham a maioria dos votos da diáspora, estando as segunda e terceira gerações já relativamente integradas na sociedade de acolhimento. A emigração do século XXI (anos 2011 e 2015), formada por jovens qualificados, tem tendência a ficar no país onde geralmente encontra trabalho mais bem remunerado do que em Portugal. O nível de vida bastante elevado leva a um certo descontentamento e a sentirem-se traídos pelos sucessivos governos em Portugal.

Assim, todos estes grupos acabam por escolher o voto de protesto, sendo mais recetivos às promessas dos partidos, que, como o Chega, prometem uma mudança radical e que, com discursos populistas, apontam o dedo sobre os governos que nunca conseguiram sair do compadrio, da corrupção e do desprezo pelas forças produtivas do país, esbanjando inclusivamente os muitos subsídios acordados pela União Europeia. O voto no Chega, pensam, é, portanto, o voto da mudança que com uma estratégia de comunicação inteligente foi, por exemplo, o único partido a dirigir-se pessoalmente a cada eleitor, por meio postal, enviando um programa de reivindicações para a emigração.

No seguimento da leitura da mensagem do António Paiva, Amélia Resende contrapôs contudo, dando exemplos concretos, o percurso de alguns jovens luso descendentes, em países como o Luxemburgo, a França, a Suíça e outros, que, ao contrário, têm feito um trabalho muito positivo no sentido de  desenvolverem laços de proximidade com a cultura e a sociedade portuguesa, o que mostra que é um imperativo político das forças progressistas e de democráticas  reconhecerem este facto e valorizarem- no.

3 – Imigração em Portugal na atualidade

A última apresentação, da responsabilidade do jornalista e ativista (Vida Justa) – Nuno Ramos de Almeida mereceu- nos grande atenção:

Fazendo a ponte com a intervenção anterior (o sentido de voto dos emigrantes portugueses no Luxemburgo nas últimas eleições legislativas), Nuno Ramos de Almeida referiu a sua presença neste país recentemente durante cerca de 3 anos, onde esteve à frente da Plataforma- Contacto, um jornal on-line de projeção europeia e aproveitou para adiantar alguns dados e reflexões:

O Luxemburgo é uma das economias mais fortes da Europa e mesmo do mundo, com um pib elevado, com transportes e escolas gratuitas e com uma percentagem população imigrantes superior a 40% da população. Embora a maioria destes seja de origem europeia (portugueses, espanhóis, italianos, anteriormente de Leste), a presença dos nossos emigrantes tem arrastado outros grupos, sobretudo de cabo-Verde. Tal nunca foi problema e o país tem integrado bem estas populações, sobretudo porque a sua mão-de-obra barata lhes é favorável. Há por exemplo, uma Rádio Latina, que dá voz ás diferentes culturas e que as promove e inclui, respeitando a sua identidade.

Tal facto foi referido pelo jornalista para chamar a atenção da situação em Portugal, da população total, que tem uma imigração a rondar os 10%, que se converteu numa ” questão “. Embora sejam originários de culturas diferentes (indostânicos muitas das vezes), a experiência que temos é de comunidades pacíficas que asseguram tarefas pilares para a economia portuguesa, desde a agricultura a pescas, passando pela restauração, hotelaria e serviços. Recentemente empresários portugueses deram conta da necessidade desta mão de obra para todos os sectores de construção, e embora possamos debater as condições em que vêm e como vivem em Portugal, converter a emigração num problema, é nitidamente uma ” construção ideológica ” .

A extrema-direita, a exemplo do que tem acontecido noutras partes do mundo, faz da emigração o bode expiatório numa agenda bem clara, de xenofobia e valores nacionalistas.

Face a este ponto, há que analisar as várias vertentes e consequências da entrada de novas comunidades no espaço de uma já existente, mas ceder a estas pressões é inadmissível.

Das duas uma: ou se concede a nacionalidade a estas pessoas mediante certas condições ou permanecendo com o estatuto de emigrantes, são lhes reconhecidos direitos como trabalhadores e assegurada a sua dignidade.

Não seguir esta política é fomentar a violência, alimentar as máfias de tráfego humano e aí sim, criar distopias. Referiu ainda de forma irónica, como as forças políticas que defendem tão acirradamente a família (tradicional?), são as primeiras a opor- se ao reagrupamento familiar.

Após a última intervenção seguiu-se um debate aberto a todos, no qual os presentes, puderam como entenderam colocar questões e aprofundar outros pontos.

José Augusto Martins/Amélia Resende, Fotos Fernando Cardeira/Carlos Martins

Be the first to comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*