Exílios no Feminino

Exílios 4

Editado por AEP61/74 – Associação de Exilados Politicos Portugueses / Carlos Ribeiro – março 2023

Impacto do exílio e interrogações de sete mulheres de esquerda

(Organizado por temas)

Iniciámos este nosso percurso pouco antes do confinamento. O nosso primeiro encontro foi presencial, numa agradável esplanada do Campo Grande. Muitas de nós não nos conhecíamos ainda pessoalmente e foi engraçado trocar as primeiras impressões sobre o projeto que nos reunia: escrever um livro sobre os nossos trajetos de exílio. A ideia pareceu-nos interessante porque se o tema do exílio tem sido tão pouco falado na história da resistência ao fascismo no Estado Novo, o papel das mulheres, e tantas foram, muitas vezes como companheiras dos refugiados políticos, desertores e refratários, tem sido completamente ignorado. Fazê-las sair do silêncio, porque não? Durante dois anos partilhámos memórias, reconstruídas em longas conversas, soltas e francas ainda que balizadas por temas previamente acordados. Lentamente, como se quer em todas as boas
conversas, aprofundámos o conhecimento mútuo do que foram os nossos percursos de vida: desde a infância à adolescência e juventude, o despertar para a política, o salto e as experiências do exílio que tiveram lugar em países diversos como a França, a Bélgica, a Suécia, a Suíça e a Argélia. Procurámos ainda compreender em que medida a experiência do exílio nos marcou e contribuiu para as nossas vivências no Portugal democrático do pós-25 de Abril.

As diferenças geracionais que nos caracterizam – duas gerações separadas por dez anos – trazem à tona as diferentes dinâmicas da militância política nas décadas de 60 e 70. A geração mais velha muito influenciada pela crise académica de 1962, pela ainda proximidade às eleições do general Humberto Delgado (1958) e pela presença dominante do Partido Comunista Português (PCP) na luta antifascista, e a geração mais jovem marcada pelas dramáticas cheias de 1967 e pela influência dos movimentos marxistas-leninistas que se desenvolviam em Portugal no final da década de 60 e início de 70. A guerra colonial, sendo transversal a ambas as gerações, tem um impacto mais profundo na geração mais jovem, sendo um fator determinante para a sua mobilização política e saída do país.
Cedo percebemos que não se pode falar de “exílio”, mas sim de “exílios”, tão diversas são as circunstâncias e os motivos que nos levaram a renunciar ao chão que pisávamos e a abraçar esse salto no desconhecido, quantas vezes tão doloroso. Devemos apenas considerar como exílio aquele a que nos vimos forçados face ao perigo iminente da prisão… ou também o voluntário, o que nos leva a afastar-nos da pátria por razões políticas numa atitude de rejeição da ordem vigente?
Quando hoje nos debruçamos sobre o tema do exílio feminino parece-nos fundamental adotar o conceito mais abrangente se queremos começar a construir um quadro histórico do papel deste número ainda não determinado de jovens mulheres que abandonaram Portugal. A sua acção militante junto das comunidades emigrantes foi da maior importância para a consciencialização destas sobre o caráter opressivo do Estado Novo e a necessidade de organizar a recusa à Guerra Colonial; o papel destas mulheres foi ainda relevante enquanto pontes (correios) entre o trabalho clandestino que se desenvolvia no interior de Portugal e as organizações antifascistas sediadas em diversos pontos da Europa.

Nos países de exílio o trabalho político desenvolvido nas associações de emigrantes, quer na alfabetização, no ensino da língua do país de acolhimento ou na intervenção cultural a diferentes níveis como o teatro e a criação de bibliotecas, veio a revelar-se da maior importância, não apenas na tomada de consciência política destes setores para a verdadeira natureza do Estado Novo, mas também como fator de desenvolvimento da capacidade de integração destas comunidades nos países de acolhimento e na tomada de consciência por parte das mulheres de que a violência e repressão machista a que estavam sujeitas não era uma fatalidade.

O maio de 1968 e os movimentos emergentes constituíram momentos importantes de crescimento e de rutura política, com graus de envolvimento e de adesão diferenciados.

O impacto do pós “Maio de 68”, com o surgimento em força dos movimentos feministas, na afirmação dos direitos das mulheres já não apenas restringidos ao plano laboral, na exigência da partilha das actividades domésticas, no direito ao prazer e à vivência de uma sexualidade plena e livre, revela-se determinante para a tomada.de consciência da importância de aliar a militância antifascista a essa nova frente de luta que se abria sob a bandeira da igualdade de género. A luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres extravasa assim definitivamente o mundo laboral e entra nas áreas dos costumes sociais e da moral e provoca na geração mais jovem uma atitude fortemente crítica face à cultura machista que dominava as organizações marxistas-leninistas onde militavam. O contacto estreito com os trabalhadores e trabalhadoras emigrados, quer fosse em cumprimento da palavra de ordem “ir ao encontro das massas”, diretamente ligada à revolução cultural chinesa, quer fosse por necessidades objetivas de sobrevivência, traduziu-se para algumas de nós no abandono dos estudos em prol da procura de trabalho nas fábricas ou em setores de atividade não qualificados como o das limpezas, os únicos disponíveis para imigrantes naturalmente explorados por sociedades marcadas pela xenofobia. slog soet sh

As condições de vida precárias a que estavam sujeitos os exilados portugueses na maior parte dos países de destino provocou um profundo impacto em quase todas nós, jovens mulheres acabadas de sair do conforto de uma classe média urbana. Fomos então confrontadas com a realidade de uma desclassificação social, o que envolveu, para muitas de nós, um súbito sentimento de vulnerabilidade e de insegurança, mas também nos possibilitou experienciar de facto a vida e as dificuldades dos grupos mais desfavorecidos da sociedade, contributo que estruturou e sedimentou a militância política anticapitalista em prol de uma sociedade mais justa que todas tínhamos abraçado.

É fundamental realçar que, neste quadro de dureza e de dificuldades económicas vivenciadas, a solidariedade e entreajuda entre os exilados era uma realidade, quer fosse espontânea quer organizada em torno de instituições ou organizações políticas. O acolhimento daqueles que chegavam, a ajuda na procura de trabalho, de alojamento ou na obtenção de documentos constituía uma parcela muito importante da militância política daqueles que tinham chegado antes.

Também as organizações internacionais são referidas como parte integrante desse imenso esforço de acolhimento.

Para finalizar, algumas interrogações que sempre nos acompanharam ao longo destes dois anos e às quais, temos de confessar, não temos a pretensão de ter conseguido responder.

Como é que a sociedade e a cultura do país onde vivemos os nossos exílios influenciou (ou não) o nosso percurso de vida? Foi certamente diferente viver o exílio na Bélgica, em França, na Suíça, na Suécia ou na Argélia. Pensamos que a resposta a esta pergunta exigiria um esforço de investigação mais aprofundado, tendo em conta um universo mais alargado de exilados. Assim, cada uma de nós poderá falar só por si, no seu caso pessoal, não nos sendo possível generalizar e tirar conclusões sobre este tema.

Como é que a nossa experiência do exílio influenciou o desenvolvimento das nossas actividades profissionais e cidadãs no pós-25 de Abril?

Também a resposta a esta questão nos parece difícil de generalizar, dada a diversidade de cursos das sete mulheres envolvidas neste projecto. Podemos concluir, sim, que todas nos afirmámos como mulheres de esquerda, de uma forma mais ou menos militante, nos diferentes quadrantes das nossas vidas – quer nas nossas vidas profissionais (educação, intervenção sociocomunitária, investigação…), quer na nossa intervenção cidadã (actividade sindical, partidária, participação em associações diversas) – tendo em vista a defesa dos direitos das mulheres, dos imigrantes, das minorias étnicas e da democracia e do Estado de Direito.

Mas todas consideramos que a experiência do exílio foi crucial nos nossos percursos de vida, quer a nível pessoal, quer profissional, quer cidadão. Foi uma experiência de uma certa marginalidade que nos permitiu compreender melhor o mundo dos excluídos, dos perseguidos, dos “condenados da terra” (Les damnés de la terre), segundo a bela expressão de Frantz Fanon.

Amélia Resende

Beatriz Abrantes

Fernanda Oliveira Marques

Helena Cabeçadas

Helena Rato

Irene Flunser Pimentel

Maria Emília Brederode Santos

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