Portimão – 27 de Abril 2026 – Sessão de apresentação do livro – 25 de Abril de 1974 – Onde Estávamos? 

Casa Manuel Teixeira Gomes

Com a presença de cerca de 25 pessoas, entre as quais a vice-presidente da Câmara, a mesa foi constituída por José Alberto Quaresma, director científico da Casa, José Augusto Martins, da direcção da AEP 61-74, Amélia Resende, autora do posfácio e Graça Fernandes de Sousa, uma das autoras dos 47 testemunhos que compõem a obra..

José Alberto Quaresma começou por salientar o facto da Casa Teixeira Gomes celebrar o 25 de Abril com um evento tão apropriado – a apresentação deste livro, editado pela AEP 61-74, referindo a propósito, entre outros dados biográficos, o exílio na Argélia do patrono da Casa, apòs se ter demitido honrosamente do seu cargo de Presidente da República face à ameaça do golpe militar de 1926, que viria dar origem à ditadura.

Por sua vez, José Augusto Martins explicou a origem da AEP 61-74, fundada há mais de dez anos, relacionada com a situação política da época, nomeadamente a ditadura e a guerra colonial, que obrigou milhares de jovens portugueses a emigrar e a exilar-se sobretudo em França e noutros países da Europa  como refractários, desertores ou mesmo faltosos, tornando-se premente dar voz a essas lutas.

Enunciou os objetivos da Associação e deu conta do trabalho já realizado, nomeadamente a nível editorial, através da publicação de vários livros de testemunhos.

Seguidamente Amélia Resende interveio, relembrando as lutas dos camponeses e das operárias/os  da região do Algarve durante o tempo da ditadura, já referidas por Margarida Glória ( convidada da sessão de Lagos e autora de um testemunho) e  também ilustradas pela magnífica exposição de fotografias ali patente.

Referiu que o livro que estavam a apresentar era ele também um sinal de resistência e um instrumento de preservação da memória, que tinha sido construído de forma colectiva, uma marca tão cara a Abril. Apresentou depois, a estrutura do livro: 47 testemunhos, 13 dos quais são de mulheres ( um número ainda minoritário) e referiu a preocupação de nele integrarem uma pluralidade de vivências e de perspectivas  das quais as situadas em Angola são um exemplo. Estava a apontar para a intervenção que viria a seguir, da autoria de Graça Fernandes Sousa ,que  tem a particularidade de abordar esta data enquanto luso-angolana, atravessando o período da independência e da transição de poderes.( em anexo)

Retomou posteriormente a palavra para citar alguns excertos do seu posfácio, cruzando a relevância dos testemunhos de luta contra a ditadura e contra a guerra colonial e o processo de descolonização tantas vezes questionado, o qual deve ser debatido sem tabus, mas com o rigor necessário à luz do que os arquivos e a investigação historiográfica contemporânea também nos permitem esclarecer.

Seguiu -se um debate sobre todas estas questões, e ainda sobre  os tempos atuais de incerteza e de conflito, dominados pelo populismo, em que mais uma vez, em vez de um caminho para a Paz e para o Diálogo, se opta pela guerra, com as suas trágicas consequências.

Hoje de novo, os jovens são confrontados com estas opções e este livro, em certa medida, pode constituir também uma oportunidade e um instrumento de reflexão colectiva.

Amélia Resende texto e Foto, (Lucília Rocha Fotos)

Intervenção de Graça Fernandes de Sousa

Boa tarde a todos. Quero começar por agradecer à Associação de Exilados Políticos Portugueses 61/74 pelo convite que me foi feito para participar, com um depoimento, neste livro que aqui nos reúne. Agradeço também o convite para pertencer a esta mesa e para partilhar memórias de um momento histórico, o 25 de Abril de 1974.

Este livro reúne 47 testemunhos. 47 vozes diferentes. De homens e de mulheres.

De pessoas que estavam em lugares geograficamente distantes… e também em lugares ideológicos diferentes.

Portugal estendia-se pelo globo — incluindo o ultramar. E havia portugueses não só nesses territórios… mas também, emigrantes e exilados, espalhados pelo mundo.

E havia portugueses não só nesses territórios… mas também, emigrantes e exilados, espalhados pelo mundo.

Há, neste conjunto de testemunhos, experiências vividas em Portugal, nas ex-colónias e noutros pontos do globo.

Há olhares que se cruzam… e outros que, por vezes, se afastam. E é precisamente isso que dá riqueza a esta obra: Não há uma memória única do 25 de Abril. Há muitas.

A minha é apenas uma delas.

Nesse 25 de Abril de 1974 eu estava em Angola. Para ser mais correcta não direi que “estava em Angola”, direi antes … eu “era de Angola”.

O meu pai e a minha família paterna não estavam ‘em Angola’. Eram de Angola.

Também o meu marido era de Angola.

E os meus filhos cresceriam com esse mesmo sentimento de pertença.

Tinha 27 anos, era casada tinha dois filhos – dois rapazes. Estava grávida, em fim de gestação, da que viria a ser a nossa menina. Vivia em Sá da Bandeira (actual Lubango) e era professora de matemática. Esta descrição simples contém tudo aquilo que eu era naquele momento: uma jovem mulher, com uma vida construída… e profundamente enraizada naquela terra. Porque Angola não era, para mim, uma colónia. Era a minha terra.

Em Abril de 1974 eu vivia uma revolução que se iniciara em 1961, quando era ainda adolescente. Essa data, que marcou o início da luta de libertação de Angola do jugo colonial, marcou também uma nova era naquele território. O governo português pareceu ter-se apercebido que a política até aí vigente naquela colónia estava errada. Alterou procedimentos.

A partir de 1961 iniciou-se uma transformação profunda. Houve grande investimento no desenvolvimento da agricultura, das pescas, da indústria, da saúde e da educação. A escola chegou a mais lugares, os liceus multiplicaram-se, e começaram a surgir estruturas de ensino superior. Também, e sobretudo, no plano social se deu um passo importante: a inclusão dos povos autóctones foi uma prioridade. Esclareça-se que por inclusão dos povos autóctones não estou a referir a sua inserção numa civilização europeia. Não era apologista da adulteração dos seus valores culturais, mas sim da sua capacitação – escolarização, formação cívica e profissional – de modo a poderem integrar-se numa sociedade moderna e competitiva. Continuando o que estava a proferir: Os resultados da integração racial tornou-se visível.

Fiz-me mulher, portanto, nessa luta empenhada. Acreditava que os movimentos de libertação conseguiriam a independência para Angola e que ela iria ser um país próspero, uma pátria para todos os seus filhos, independentemente da cor da pele, da ideologia política e da crença religiosa.

E isso explica aquilo que senti nesse dia 25 de Abril. Quando as primeiras notícias começaram a chegar, através das rádios, eu senti um misto de grande alegria e de enorme apreensão.

E esta frase, tão simples, talvez seja a que melhor resume o meu 25 de Abril.

Alegria — porque Portugal se libertava de uma ditadura.

Alegria — porque Angola podia finalmente caminhar para a independência.

Mas também apreensão.

E permitam-me que partilhe convosco o porquê dessa apreensão: Sabia que Angola, como território imensamente rico, era cobiçada por grandes potências mundiais. Mas havia fragilidades. Décadas de desigualdade não se resolvem em poucos anos. 14 anos, os que decorreram entre 1961 e 1975, foram pouco. E isso tornava muitas pessoas vulneráveis a promessas fáceis… que nem sempre serviam os verdadeiros interesses do novo país.

Os portugueses e seus descendentes – que se consideravam angolanos brancos – eram obstáculo à pretensão que essas potências tinham de explorar Angola. Temia que se promovesse a saída dessa classe mais preparada, em que me incluía. Ou seja… temia perder a minha terra.

Hoje sei que muitos desses receios se confirmaram. A forma como se processou a descolonização foi, em minha opinião, profundamente catastrófica! E sei que assim foi porque permaneci em Angola até 1995, com a família reduzida ao marido e aos três filhos. Sei-o porque ainda hoje mantenho o  contacto com esse país.

“O 25 de Abril trouxe liberdade. Trouxe independência. Mas trouxe também ruturas. Enquanto muitos milhares — que amavam e ainda amam aquela terra — se viram decepados das suas raízes, Angola perdeu a maior parte dos quadros qualificados. E isso teve consequências no seu desenvolvimento. Hoje, as riquezas da terra servem sobretudo o bem-estar de uma classe dominante… enquanto grande parte do povo vive, ainda, na miséria.”

Mas o meu testemunho não é apenas de perda.

É também de identidade construída entre dois mundos.

Transformei-me em luso angolana, com Angola como amor primeiro e maior, e Portugal uma segunda pátria que me acolheu e me considera cidadã de corpo inteiro.

É assim que me vejo.

E talvez seja também isso que este livro nos mostra: que o 25 de Abril não foi apenas um acontecimento político. Foi uma experiência humana profunda — vivida de formas muito diferentes, por pessoas diferentes e com repercussões também diferentes.

E é nessa diversidade que está a sua verdade.

No meu caso… vivo o 25 de Abril, ainda hoje, como um momento de luz e de sombra. Mas não há sombra que impeça a intensidade da luz. Talvez por isso, termino como terminei o meu testemunho escrito:

“Mau grado os referidos senãos, só posso dizer em voz firme: Viva o 25 de Abril!”

Este viva o 25 de Abril tem de soar mais forte, mesmo muito forte, no momento que atravessamos em que a democracia está tão posta em causa em Portugal e no mundo.

Viva o 25 de Abril.

Muito obrigada.

25 de Abril de 1974 – Onde Estávamos?