Concentração dia 31 de janeiro às 15h00 no Largo Soares dos Reis no Porto

Junta-se a seguir o Depoimento de José Castro, que integra o livro 25 de abril 1974, Onde estávamos? relativo à tomada da sede da Pide na cidade do Porto, e a proposta de constituição de um Museu da Liberdade e Resistência naquelas instalações.
José Castro
Advogado,
25 anos em 25 de Abril de 1974

O 25 de Abril na cidade do Porto
Podia ser uma quinta-feira semelhante a muitas outras. Mas aquela que aconteceu em 25 de Abril de 1974 foi absolutamente extraordinária. Mudou para muito melhor a vida de milhões de pessoas em Portugal, tornou-se para mim, então com 25 anos, e para muita gente, o dia mais feliz das nossas vidas.
As notícias que as rádios transmitiram na madrugada, dando conta de movimentações do MFA, não eram ainda muito conhecidas. No Porto, ao princípio da manhã do dia 25 de Abril de 1974, não se viam militares na rua. O Quartel-General da Região Militar Norte na Praça da República tinha sido tomado por um punhado de oficiais, sargentos e praças que se deslocaram do quartel do CICA1, na rua D. Manuel II, numa ação sem grande aparato, que passou quase despercebida.
Mas na seguradora onde trabalhava chegou pelas 11 horas a ordem da administração em Lisboa para encerrar os serviços. Quem não se tinha ainda apercebido, ficou a saber que estava a acontecer qualquer coisa importante.
Dirigi-me para a Praça dos Leões que ficava ali ao lado do local de trabalho. E no quartel do Carmo da GNR uma novidade, o portão estava encerrado, o que não era habitual durante o dia.
Começava a surgir mais gente na baixa do Porto. E ao princípio da tarde na Praça Filipa de Lencastre aconteceu o que seria impensável: agentes da PSP a fugir à frente de populares.
O comandante, muito ligado ao regime fascista, tinha ordenado aos seus homens para fazerem o costume, dispersar ajuntamentos, usar o cassetete. Mas as coisas não correram como até ao 24 de Abril: desta vez, na tarde do dia 25, o povo fez frente aos agentes da PSP e foram eles a fugir da população. E foi uma enorme alegria ver os polícias fardados a correr, praça abaixo, tentando desesperadamente refugiar-se nas carrinhas da PSP pintadas de azul e cinzento.
| Saída dos PIDEs do edifício da PIDE no Porto(autoria do fotojornalista Pereira de Sousa ©, natural do Porto e que autoriza a sua publicação) |
Naquele dia almoçar ou jantar não era preocupação, um café ou uma simples sande comprada no comércio ainda aberto e já estava resolvida a questão. Nos Aliados e na Praça da Liberdade começava a juntar-se uma multidão.
Nas vitrinas dos jornais (Jornal de Notícias e Comércio do Porto) que ali tinham instalações, liam-se as notícias, com poucas linhas e escritas à mão, sobre um golpe militar e da fuga de Marcelo Caetano e alguns ministros para o quartel da GNR em Lisboa.

Mais para o fim da tarde, desloquei-me com alguns amigos e companheiros para a rua do Heroísmo, onde se situava a sede da PIDE/DGS. Não se via qualquer movimentação exterior de guardas da GNR ou de agentes da PIDE. Mas crescia a todo o momento, a presença da população.
Conhecia as prisões privativas daquelas instalações, tinha sido o preso politico nº 28993 justamente no ano anterior em Abril de 1973, por “actividades contra a segurança do Estado”, como era comum constar da “biografia prisional”. Tirada a habitual fotografia em três perfis (de frente, lado esquerdo e lado direito), sem relógio, sem óculos, sem cinto e sem cordões dos sapatos lá tinha estado numa das celas subterrâneas com janela e grades voltadas para a rua do Heroísmo por onde entrava durante o dia o ruído dos passos de quem circulava no passeio.
Depois passei para as celas do 1º andar, donde Palma Inácio se tinha evadido anos antes numa ação espetacular, área do edifício que foi entretanto demolida aquando da criação pelos comandantes militares do Museu Militar do Porto em 1 de Abril de 1977. A multidão no exterior aumentava e rapidamente se ouviram gritos de morte à PIDE e libertação dos presos. Só no dia 26 de Abril foi libertado o último preso politico Jorge Carvalho. Os agentes da PIDE que se mantiveram no edifício tinham sido retirados num camião do exército e soltos numa estrada a poucos quilómetros do Porto, por decisão das chefias militares.
Instalação no local de um Museu da Vergonha foi a exigência feita por populares. Para que não se apagasse a memória da resistência à violência e repressão do fascismo que durante 48 anos oprimiu o povo português e os povos das colónias.
Apesar do formidável papel libertador do 25 de Abril de 1974, apesar do contributo do 25 de Abril de 1974 para a democratização doutros países da Europa (como a Espanha e a Grécia) e a sua importância para os povos de todo o mundo, apesar das iniciativas desenvolvidas pelo NAM -movimento cívico Não Apaguem a Memória, pela URAP (União de Resistentes Antifascistas Portugueses) e por outros colectivos e movimentos cidadãos, apesar da aprovação pela Assembleia da República em 19 de julho de 2019 da Resolução nº 153/2019 que Recomendou ao governo “que disponibilize através do Ministério da Defesa Nacional o prédio da rua do Heroísmo onde funcionou a delegação do Porto da ex-PIDE/DGS em que está instalado o Museu Militar do Porto, para a criação de um Espaço de Memória da Resistência ao Fascismo”, passados 50 anos do 25 de Abril de 1974, não foi ainda concretizada a tão justa aspiração democrática e popular à instalação de um Museu da Liberdade e da Resistência no Porto. Mas não desistiremos de lembrar a resistência ao fascismo e aquela manhã clara e limpa que foi o 25 de Abril de 1974.
.
