Sábado, dia 28 de março 2026, às 15h, no Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu foi feita a apresentação do livro editado pela AEP 61-74 “25 de Abril de 1974, Onde Estávamos?”
Antes da sessão, houve um almoço de confraternização, num restaurante de Viseu com 19 comensais.
A sessão teve a presença de cerca de 40 pessoas . A Mesa foi constituída por Manuel Rodrigues da Direcção da AEP61/74, pela Dra Odete Paiva Directora do Museu Nacional Grão Vasco, bem como por Manuela Tavares, António Minhoto e Carlos Vieira e Castro, depoentes do Livro, da Região de Viseu.
Manuel Rodrigues fez a apresentação da Mesa e explicitou o enquadramento do Livro nas publicações da AEP. A Dra Odete Paiva falou sobre a sua experiencia pessoal no dia 25 de Abril de 1974. Manuela Tavares fez uma intervenção focada no papel das Mulheres no 25 de Abri.
Foi de seguida lida uma intervenção do depoente Carlos Pereira Martins que não pode estar presente por motivos de saúde, que convidou os presentes para um breve passeio carregado de história pela cidade de Viseu.
António Minhoto intervíu sobre a sua experiência no 25 de Abril, integrado no Exército Português em Luanda e Carlos Vieira concluiu as intervenções da Mesa, abordando as problemáticas da guerra colonial e das guerras actuais.Seguiram-se varias intervenções do público sobre o 25 de Abril e os problemas actuais na sociedade portuguesa. Pelas 17H30 foi encerrada a sessão.
Manuel Rodrigues (texto e foto), Fernando Nunes (foto)
Manuela Tavares
Quero agradecer à Associação de Exilados Portugueses o convite para estar aqui convosco a falar deste livro. E pego no início do depoimento de Guadalupe Magalhães Portelinha:
“Tempos de sorte a minha! Poder assistir, respirar o mesmo ar de um tempo inolvidável, esse ar de revolta e firmeza, de risco e coragem, de alegria e emoção extraordinários.
Vivíamos num tempo de fechamento, de ditadura, de gente triste
Eu que frequentava terras de grande obscurantismo, extremamente preconceituosas, perdidas na tristeza de mulheres com lenços negros, apertados no queixo e olhos no chão, ou terras pequenas provincianas, bisbilhoteiras, em que ser diferente era pecado, quase mortal”.
Depois aconteceu 0 25 de Abril, esse tempo misto de sonho e de uma realidade quase impossível.”
Creio que todos/as nós sentimos a esperança de uma vida diferente: os que eram operários, camponeses, presos políticos, professores, advogados, jornalistas, artistas de teatro, estudantes, empregados de serviços, técnicos da Função Pública, militares milicianos. A revolta contra a guerra colonial levou muitos deles a fugir do País, a enfrentar condições de vida difíceis, no estrangeiro. Alguns só voltaram após 0 25 de abril e lamentam não ter vivido esse dia, que segundo Jorgete Teixeira tinha uma luz pura e muito especial.
MUDAR DE VIDA era o mote principal. Lembram-se da canção do José Mário Branco: “E se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhe as voltas, que ainda o dia é uma criança”
Lembram-se também da canção do Sérgio Godinho: “Só há liberdade a sério quando houver, a Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação, quando pertencer ao povo o que o povo produzir.
Esta última frase teve especial impacto no PREC, o chamado Período Revolucionário em Curso, que foi um tempo histórico de grandes aprendizagens.
A força sentida num povo que tinha perdido o medo, que ousava fazer ocupações de casas, antes fechadas, para creches e casas para quem vivia em barracas e galinheiros.
As mulheres tiveram um papel especial nestas ocupações, mobilizaram moradoras, solidarizaram-se trazendo comida e café. E ficaram mesmo dentro das casas ocupadas, enfrentando proprietários e polícia. O direito à sacrossanta propriedade privada e à sua gestão estava a ser posta em causa!
Algumas das mulheres respondiam ao coronel no dia da ocupação do seu palacete para uma creche no Pragal, quando ele gritava “Esta propriedade é minha”, elas respondiam “Fique lá com a sua propriedade, nós queremos é que ela sirva as crianças do Pragal e não os seus amigos alemães”, quando vêm de férias”
Como é que muitos/as de nós nos cruzámos na História, sem sequer nos conhecermos? Amélia Resende afirma que tal proximidade aconteceu numa geração que lutou e sonhou Abril. Contudo afirma, “há situações que ainda hoje nos espantam em que, a coragem, a perseverança, a criatividade, a capacidade de resistir e combater se manifestam, como é o caso de Manuel Rodrigues que, clandestino, escapou à Pide, dentro do próprio quartel em que esta o tinha prendido”.
Quando Pezarat Correia na introdução a este livro afirma que .com 0 25 de abril, o povo português aderiu ao golpe de Estado do MFA, depois foi o MFA que aderiu à revolução do povo português, nas ruas”, não deixa de ser verdade!
Contudo, a dita revolução não cumpriu com algo que lhe podia dar maior consistência: a propriedade dos meios de produção e consequentemente do poder político, ou seja, de pertencer ao povo o que o povo produzir, como diz a canção do Sérgio Godinho.
Mas a História não se faz dos nossos desejos em relação a factos passados, mas das condições concretas para que determinados avanços pudessem ter sido feitos, apesar de ocupações de fábricas, de manifestações de 6 mil operários da Lisnave a caminho do Ministério do Trabalho a 12 de setembro de 1974, que muitas vezes é ignorada na História do 25 de abril.
Hoje há quem interrogue, “como se chegou ao País que hoje temos” e acrescentam “Valeu a pena?” Sim, Valeu a Pena!
E, quando nos querem denegrir esses tempos, temos que afirmar cada vez mais os valores de Abril, mas de forma que a juventude atual os compreenda! Não bastam slogans! Tem que se mostrar como as pessoas viviam antes do 25 de abril.
Quando um dia falei a uma aluna minha como a minha avó matema vivia e que dava aos filhos/as pão duro com um bocadinho de banha e açúcar amarelo por cima, ela ficou espantada e perguntou: mas ela não trabalhava? Sim, trabalhava nas limpezas com um salário de miséria, que mal dava para pagar a renda de uma casa velha. Ela era mãe solteira e tinha vindo de terras beirãs a fugir à fome. Será que não encontramos na sociedade atual situações deste tipo? A mocinha com os olhos brilhantes, disse: a professora tem razão e deu-me um abraço.
Na sociedade atual o conservadorismo e os ataques da extrema direita a direitos como os das mulheres, acusando de “ideologia de género” as sessões em escolas de prevenção da violência no namoro, de afirmação da Igualdade entre mulheres e homens, sucedem-se. É preciso fazer frente. É preciso desconstruir esta forma de pensamento com credibilidade e dados científicos.
Enfrentar esta gente e as suas redes sociais é uma tarefa gigantesca.
Neste ano em que a UMAR faz 50 anos, tem que se criar condições para iniciativas que juntem muitas mulheres nesta luta e possamos dar resposta adequada a este avanço da ideologia fascista e neofascista.
UNIDOS/AS PELA LIBERDADE.
INSUBMISSAS por um NOVO ALVORECER.
Viva 0 25 de Abril!
Intervenção de Carlos Vieira e Castro
Antes do mais, devo fazer esclarecimentos sobre duas inexatidões ou percepções incorrectas, no meu depoimento:
1.º – este livro é editado pela Associação de Exilados Políticos Portugueses 61-74”. Ora, eu não cheguei a estar exilado. Apenas me preparava para fugir ao serviço militar por discordar da guerra colonial. Na dúvida, entre desertar durante a recruta ou depois de ser mobilizado para África, e ser refractário, fugindo do país, antes de ser incorporado, optei por esta última hipótese, porque não queria disparar nem contra os guerrilheiros africanos que lutavam pela sua liberdade e pela independência dos seus países (se tivesse que lutar seria ao lado deles), nem contra os soldados portugueses que eram obrigados a ir combater e nem todos acreditavam ingenuamente que estavam a defender a Pátria. Muitos sabiam que estavam a defender apenas a ditadura e meia dúzia de grandes empresários monopolistas e latifundiários que enriqueceram à custa da miséria do povo, condenado a passar fome ou a emigrar em massa. Como conto no meu depoimento, assim que acabei o curso comercial, decidi ir frequentar o 6º ano do liceu, em regime nocturno para poder arranjar um emprego e obter algum dinheiro para a prevista fuga, e aprender mais uma língua, o Alemão, para o caso de ir parar a um país de língua germânica. Porque eu não tinha apoios, nem fazia ideia para onde iria. Avisei os meus pais de que iria fugir quando chegasse a hora. O meu pai chamou cobarde aos desertores, o que desde logo criou um muro indizível entre nós, a ensombrar o amor mútuo. Só uns anos mais tarde, graças à minha mulher, eu percebi que o meu pai, apesar de ser conservador, não era salazarista, era um homem bom e apenas teve medo que eu partisse para longe e acabasse mal ou nunca mais me visse (quem podia imaginar que a ditadura acabaria tão em breve?..).
O 25 de Abril apanhou-me prestes a fazer 19 anos e livrou-me da tropa e do exílio. Concluí o 7º ano do Liceu e fiz o exame à Faculdade de Direito. Passei, mas não me inscrevi. Quis ir logo trabalhar para ser independente do meu pai, um pequeno comerciante, com parcos rendimentos. De resto, comecei a envolver-me na política. Acreditava (e acredito ainda) que era possível construir um país socialista, sem desigualdades sociais, com liberdade, paz, pão, habitação, saúde e educação (como na canção do Sérgio Godinho).
Quando a minha mulher me incentivou a continuar a estudar, descobri que tinha de voltar atrás e fazer o 12.º ano. Deram-me a escolher dois tipos de Inglês; escolhi o de menor carga horária, uma vez que estudaria em regime nocturno. Quando fui inscrever-me na Escola Superior de Educação, no curso de Jornalismo, como trabalhador-estudante, disseram-me que aquele nível de Inglês não dava. Então, optei pelo curso de professor de EVT, por já ter gostado de dar aulas (sem habilitação própria) e por ter apetência para as artes visuais.
E aqui fica o
2.º ESCLARECIMENTO: como vêem não sou jornalista, como apareço referenciado no livro talvez devido a uma errada percepção, por saberem das minhas colaborações quase toda a vida com rádios e jornais locais e até nacionais, como o JN. Tenho carteira de Colaborador de Imprensa, mas nunca fui jornalista profissional.
Conto no livro que a única acção subversiva que fiz durante a Ditadura: a edição não autorizada de um jornal escolar quando estudava na Escola Comercial, que me valeu uma ameaça de expulsão, por conter textos censurados pelo professor coordenador, um cónego, com referências ao prémio nobel da Literatura Bertrand Russell (suponho que por ter escrito o “Porque Não Sou Cristão?”), uma alusão ao massacre de My Lai, 504 civis, 182 mulheres, (17 grávidas) e 173 crianças, pelos EUA na guerra do Vietname,(como vêem, a prática do Império já é muita!!) e ainda citações de Mao Tsé Tung. Um primo do meu pai, colono em Moçambique, trouxe-nos o opúsculo “Genocídio contra Portugal”, com fotografias do massacre da UPA em Angola, de portugueses, brancos e negros, barbaramente assassinados à catanada, em 15.03.1961. Fiquei impressionadíssimo. Só mais tarde descobri que este massacre foi uma retaliação pelo massacre tão ou mais bárbaro que a Força Aérea portuguesa cometeu três meses antes ao bombardear com napalm (bombas incendiárias criadas na Suiça e vendidas por Israel, em depósitos fornecidos pelos EUA) 17 aldeias, queimando 5 a 10 mil camponeses angolanos que se tinham revoltado e entrado em greve, na Baixa do Cassange, em dezembro de 1960 nas explorações da Cotonang, companhia de algodão luso-belga, obrigados a trabalho quase escravo e impedidos de cultivar os próprios alimentos.
Temos de ajudar as novas gerações a desconfiar das narrativas oficiais e da História contada pelos vencedores. Temos de acabar com a “afasia colonial” que nos tem impedido de reconhecer as nossas responsabilidades enquanto povo perante os povos das ex- colónias, que com a sua luta pela liberdade ajudaram os portugueses a libertar-se da ditadura. A eles devemos o 25 de Abril! Amílcar Cabral, o grande líder africano que dizia aos guerrilheiros do PAIGC que o seu inimigo era o exército colonial e não o povo
português que também era vítima da ditadura, afirmou que “o fim do fascismo pode não
significar o fim do colonialismo; mas o fim do colonialismo significará forçosamente o fim do fascismo”. Assim foi!
A melhor maneira de honrarmos a memória dos mais de 100 mil africanos mortos na guerra colonial, os cerca de 10 mil soldados portugueses que morreram nesses 13 anos de guerra, os mais de 15 mil deficientes físicos das forças armadas (1.852 amputados e 220 paraplégicos), os 140 mil militares vítimas de stress de guerra, e ainda os 200 mil a 250 mil jovens que se recusaram a ir para a guerra (como refractários, desertores ou simplesmente emigrando antes da serem chamados para a tropa, às vezes enviados pelos
próprios pais) é não deixar apagar a memória, sobretudo agora que os saudosistas da ditadura e os nostálgicos do colonialismo estão aí a manipular as mentes, sobretudo as dos jovens que não viveram o fascismo, instigando o racismo, a xenofobia e outros preconceitos, usando com total impunidade as mentiras e as “fake news”, incluindo informações falsas com os logótipos do Público, do Expresso e da Rádio Renascença. Lembremos, pois, os restantes massacres cometidos pela ditadura em África: MUKUMBURA e WIRIYAMU (1972) 400 moçambicanos civis assassinados pelo exército.
MUEDA (Moçambique, 1961: 500 mortos numa manifestação por melhores condições de vida.
PORTO DE PIDGIGUITI (Bissau) 1959: 50 estivadores assassinados por fazerem greve.
BATEPÁ (São Tomé e Princípe) 1953: 1.032 mortos por tortura e afogamento pelos colonos latifundiários, por ordem do governador.
Sem falar na aprovação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a 25 de março de 2026, há 3 dias, de uma resolução histórica que declara o tráfico transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a humanidade. Aprovada por 123 países, com apenas votos contra dos EUA, Israel e Argentina e a abstenção de 52 países, incluíndo os que traficaram escravos para as colónias americanas, Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Países Baixos. Recordo que Portugal traficou mais escravos do que Espanha, França e Inglaterra juntos.
Portugal está mais de meio século atrasado em relação à Convenção da UNESCO de 1970 que obriga a restituir objectos de apropriação indevida de património ancestral, material e simbólico. E à Resolução da Assembleia Geral da ONU de 2020 “Devolução ou Restituição de bens culturais ao seus países de origem, por consenso de 193 países, que já levou a que museus de todo o mundo, dos EUA ao Japão, passando pela Austrália, Berlim e Londres restituíssem objectos. Pouco fizemos na Inventariação e investigação sobre a procedência das nossas colecções. As nossas ex-colónias africanas não têm feito grande pressão, mas Timor já reivindicou a devolução de 35 crânios de timorenses degolados, que estão no departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. Nunca desprezei qualquer fonte de informação. Hoje, continuo a cruzar notícias e informações contraditórias em busca da bissetriz da verdade. Quando Guterres disse que o ataque do Hamas no 7 de Outubro não tinha acontecido no vácuo, referia-se à limpeza étnica e aos consecutivos massacres que Israel tem cometido desde 1948 , e mesmo antes, sobre os palestinianos, com cerca de 20.000 mortos. A somar aos mais de 75.000 mortos do genocídio em curso, sendo 42.200 mulheres, crianças e idosos (estudo da revista “Lancet”).
Durante a guerra colonial dizíamos que “nenhum povo pode ser livre enquanto oprimir outros povos!” Da mesma forma, hoje devemos exigir aos nossos governantes que deixem de ser cúmplices, por acção ou omissão, do governo genocida de Israel, como estão a ser os EUA e a UE. A cobardia dos dirigentes e dos membros da UE, com excepção da Espanha, em acusar os EUA pelo ataque injustificado ao Irão deve envergonhar-nos e revoltar-nos!
E aos que como o secretário-geral da NATO (a organização a quem devemos a ditadura mais prolongada da Europa ocidental, que aceitou na sua fundação em 1949 e andou 4 décadas a organizar atentados terroristas de falsa bandeira com centenas de mortos, e golpes de Estado em países europeus democráticos, como a Itália), Mark Rutte, que chamou papá ao fascista Trump a quem agradeceu há dias o ter obrigado os europeus a pagar 2% para a Defesa e já terem aceitado pagar 5%, devemos, à boa maneira portuguesa, fazer um manguito!
Recordo que a Holanda, o país de Rutte, foi um dos países que mais acolheu muitos exilados portugueses, dando-lhes estadia, passaportes, bolsas de estudo e direito à Segurança Social, quando tinha como maior partido o Partido Trabalhista, e chegou a apoiar no Parlamento holandês a saída da NATO se Portugal não fosse expulso da aliança que deu apoio militar secreto ao colonialismo e fascismo português, conforme Amilcar Cabral denunciou na Assembleia Geral da ONU.
De que nos vale o rearmamento se o maior inimigo da Europa é hoje os EUA que gasta mais em armamento do que todos os outros países do mundo juntos?
A nossa melhor defesa é o ataque…à ignorância que dá pasto ao ódio racista e fascista.
Como disse Simone de Oliveira, há dois dias, ao ser homenageada no dia do Teatro: “Sem cultura não há democracia; e sem artes não há civilização”.
A única guerra que temos de travar é contra o colapso climático, como temos visto recentemente. Os jovens de hoje estão a liderar a lutar pelo seu futuro e pelo futuro da Humanidade.
Como disse numa entrevista recente à revista Manifesto, o prefaciador deste livro, general Pedro Pezarat Correia (militar de Abril): “Quanto mais nos preparamos para a guerra, mais a guerra nos parece inevitável!” e (refutando o mantra dos vendedores de armas de que nos devemos preparar para a guerra, cortar no social para investirmos em armamento, se não vêm aí os russos ou os iranianos invadir a Europa) conclui dizendo: SE QUERES A PAZ, PREPARA… A PAZ! “
E, contra o pessimismo actual sobre o futuro da humanidade, espalhemos as palavras sábias de Laborinho Lúcio: “Só não alcançamos a utopia, porque a maior parte das vezes nos apeamos do combóio demasiado cedo”. Não nos apeemos na estação nostálgica do 25 de Abril de 1974, como meros saudosistas da utopia desvanecida, “à espera do comboio na paragem do autocarro”…não é Sérgio? Porque “vimos de longe, vamos para longe/ com o que temos para nos dar” e “Essa coisa é que é linda”, não é Zé Mário? “Uma cidade sem muros nem ameias”, não é Zeca?… “A cidade prevista” de Carlos Drummond de Andrade “:
“(…) Irmãos, cantai esse mundo/ que não verei, mas virá um dia, dentro em mil anos, talvez mais… não tenho pressa./ Um mundo enfim ordenado,/ uma pátria sem fronteiras, / sem leis e regulamentos,/ uma terra sem bandeiras,/ sem igrejas nem quartéis,/ sem dor, sem febre, sem ouro, / um jeito só de viver,/ mas nesse jeito a variedade,/ a multiplicidade toda / que há dentro de cada um. /Uma cidade sem portas,/ de casa sem armadilha /,um país de riso e glória /como nunca houve nenhum./ Este país não é meu / nem vosso ainda, poetas./ mas ele será um dia / o país de todo Homem.”
Desistir, nunca!, não é Jorge?: “Enquanto houver estrada para andar/ a gente vai continuar”
Carlos Pereira Martins
Por estar impossibilitado de comparecer a esta Apresentação enviou este texto para ser lido na sessão
Convido para um breve passeio por Viseu

Viseu, cidade dita também de sete colinas como algumas outras em Portugal, terra de Viriato e de encanto perene, é um convite constante a um passeio repleto de história, arte e memórias gravadas nas pedras antigas das suas ruas e praças.
Sinto uma enorme tristeza por hoje não poder estar aqui convosco, no Museu que é uma das minhas casas, Membro que sou do GAMUS, retido imobilizado em casa devido a grave queda e cirurgia.
Participo neste livro com muita honra com um texto sobre o meu dia 25 de Abril, vindo de Lisboa, com um bebé nos braços, para Viseu!
Um grande “abraço dos rijos” e o meu agradecimento por nos acolherem neste espaço histórico, às minhas muito estimadas amigas viseenses ilustres, Dra Odete Paiva, Directora do Museu, e Ora Sandra Ferraz que muito bem gere o GAMUS.
Comecemos no coração da cidade, o Rossio, a praça da República. Aqui, entre fontes, bancos e um acolhedor café e esplanada à sombra das frondosas tílias e do aroma que delas vem, é o local ideal para acolher conversas sem pressa. O coreto que ali existiu, foi testemunha de inúmeras melodias e ranchos folclóricos com destaque para o das Tricanas de Vildemoinhos, que ainda existe. Dos bancos laterais, observam-se os passantes que sobem e descem, entre cafés e lojas que mantêm a alma comercial da cidade viva. Daqui, seguimos pela rua Formosa, nome que lhe
assenta bem, pois, ladeada por edifícios de traça tradicional, transporta-nos numa viagem pela Viseu de outrora.
Recordo com saudade o Banco Nacional Ultramarino onde sempre meu pai trabalhou, e a Pastelaria Lisboa, local de tantos lanches e de excelente qualidade. Ali ao lado, o antigo mercado, agora reformulado, o Mercado 2 de Maio onde a banca da senhora Albertina era o local de abastecimento quase diário de minha mãe, muitas vezes com um rosário de pinhões que a vendedora me oferecia. Hoje, os pinhões, podem vender-se na ourivesaria Brinca, ali ao lado.
Chegamos à Praça D. Duarte, primeiro Duque de Viseu, onde a estátua do rei sonhador nos recorda a ligação da cidade à monarquia portuguesa. É impossível não nos perdermos nos detalhes da Sé e da Igreja da Misericórdia, que enfrentam uma a outra numa dança de estilos arquitectónicos. A Sé, imponente e austera, esconde dentro de si um claustro de beleza singular. A Misericórdia, com a sua fachada barroca, convida-nos a olhar para cima e apreciar os ornamentos delicados.
Descemos em direcção à Ribeira, onde o rio Pavia serpenteia discretamente entre margens de vegetação luxuriante e, nos dias de muito sol, se torna um espelho reflector das muitas casas e arvores nas suas margens. Os mais antigos ainda recordam o tempo em que as lavadeiras aqui vinham, dobradas sobre as águas, faziam barrelas entre cantigas e conversas. Ao lado, ergue-se a estátua de Viriato, o guerreiro lusitano que vigia a cidade. Ao lado, o terreiro da Feira de São Mateus lembra-nos que esta é a cidade da feira mais antiga da Península Ibérica, onde gerações se perderam entre barracas, farturas e a emoção dos carrinhos de choque.
Cruzamos a cidade até ao Solar do Vinho do Dão, já bem perto do Fontelo, onde os vinhos da região contam histórias de tradição e saber. A Quinta Agrária, espaço de ensino e experimentação agrícola, recorda-nos que a terra e a vinha são elementos essenciais na identidade de Viseu.
Subimos em direcção ao Fontelo, onde o estádio e a mata convidam ao desporto e ao descanso. Os pavões, senhores do parque, desfilam entre as árvores centenárias, enquanto as sombras frescas convidam a um passeio mais demorado. Daqui, seguimos para Santa Cristina, onde a igreja imponente e o Seminário Maior se afirmam para os crentes como marcos sagrados de fé e história. Aqui mesmo, ergue-se a estátua do Bispo D. António Alves Martins, figura incontornável da cidade e defensor acérrimo de uma Igreja equilibrada e próxima do povo. Os dizeres na sua estátua resumem a sua visão clara sobre a religião: “A religião deve ser como o sal na comida: nem demais, nem de menos”. A sua influência marcou a sociedade viseense, sendo recordado não só pelo seu pensamento progressista, mas também pelo seu papel na política e na educação.
Entramos na Rua Alexandre Lobo, nome de escritor e jornalista viseense, antes de rumarmos à Pousada que, em tempos, foi o Hospital de São Teotónio, lugar de cuidados e histórias de vida e morte. Hospital onde quem vos escreve nasceu e foi operado ao apêndice quinze anos depois, no mesmo quarto onde nasceu.
Daqui, descemos a Avenida 25 de Abril, com os seus cafés e lojas, até ao Liceu de Viseu, onde tantas gerações foram moldadas. Passamos pelo Largo do Massorim, onde uma paragem é exigida aos passeantes, mesmo os mais apressados.
Voltamos ao Rossio, com a Gamara Municipal e onde ali mesmo ao lado se pode beneficiar de uma paragem no bonito e muito florido Jardim das Mães com a estátua do mesmo nome. Um espaço de ternura e lembrança, que nos convida a um momento de contemplação.
A Casa-Museu Almeida Moreira, com a sua coleção eclética, merece uma visita atenta, tal como a Rua Nunes de Carvalho, onde as pedras da calçada, o enorme penedo lateral e, ao fundo, o arco por cima da rua, nos contam segredos ant1gos.
Chegados exactamente ao Arco e ao Penedo, onde o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo, e de seguida poderemos entrar na pequena capela no Largo Pintor Gata, espaço de recolhimento e simplicidade. Terminamos no Largo da Sé, onde o Museu Grão Vasco nos recorda que Viseu sempre foi um berço de arte e cultura. Não poderemos deixar de nos deter alguns minutos em frente do quadro São Pedro do pintor Grão Vasco e outras obras suas.
Este passeio, longo e carregado de história, não esgota a beleza de Viseu. Há sempre uma nova rua a descobrir, um novo recanto a explorar, um novo motivo para voltar. E assim, como quem regressa a casa, deixamo-nos envolver pela cidade, guardando no olhar e na alma o encanto de cada pedra, de cada praça, de cada memória.
Por fim, “last but not least”, uma referência à Aguieira, ali mesmo ao lado da antiga estação da CP, que já não existe e do terreiro da Feira de São Mateus. Aí mesmo, passou o autor toda a sua juventude antes de rumar a Lisboa e a Económicas!
Carlos Pereira Martins
