Editado por AEP61/74 – Associação de Exilados Políticos Portugueses – março 2016 – Fernando Cardoso
Disponível em formato pdf em:
https://aep61-74.org/wp-content/uploads/2015/10/LIVRODEXILIOS1-2%C2%AASITE1.pdf
Tudo estava em paz…
Nasceu este projeto de conversas entre camaradas. O Puxa, o Barbas, vasco e eu próprio. Tem “barbas” este assunto.
É quase tão velho como o 25 de Abril. Morreu o Barbas e resolvemos em silêncio, enterrar o projeto com ele. Não fizemos uma reunião para tomar essa decisão mas sabíamos, dentro de nós, que era o que havia a fazer. Durou anos este enterramento.
Os nossos arquivos foram acumulando mais poeira, as nossas memórias ficando cada vez menos cinzentas, um doce e ácido esquecimento pousando nas prateleiras.
Os protagonistas de uma parte da história portuguesa contemporânea, esquecidos. Tudo estava em paz.
Por razões ainda pouco claras e, de repente, gerou-se um movimento de querer dar a ver, querer testemunhar as dificuldades, os momentos dolorosos e felizes, a festa, a revolta, as saudades de uma pátria triste e violenta., dizer, escrever o livro dos exílios., dizer de uma Europa de asilo que nos acolheu e ajudou, tanto. De uma Europa de cidadãos solidários com a nossa causa, com as nossas paixões. Escrever o aperto do coração quando o “salto” nos atirou para uma língua desconhecida que aprendemos na língua e na boca de ouvir e amar. Escrever o que passámos nos frios do Norte com o Sol escondido e o Mediterrâneo tão longe. Escrever as cartas todas por dizer a nós próprios e aos amigos. Escrever um passado tão antigo, mas que hoje, de repente, grita dentro de nós para que se oiça. Está este livro escrito na direccão do Norte: Franca, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Dinamarca e Suécia porque pensamos ser uma das possibilidades de o organizar, à semelhança dos exílios que também viajaram nessa direcção.
No princípio deste livro diz-se “Testemunhos de Exilados e Desertores na Europa (1961/1974)”. Sim, vai ser isso, desta página para a frente. Os exílios clandestinos, os nomes de guerra, os disfarces, a incomunicabilidade, os pensamentos estanques, as vidas duplas e triplas, o indizível, expõem-se. Não sei porquê, mas parece que perdemos a vergonha. Foram anos difíceis, os anos do exílio. As histórias que se seguem dão conta disso sem vaidade, sem grandes estilos. São histórias nuas de uma geração que não pactuou com o fascismo nem com a guerra colonial. Uma geração que se foi embora, sempre com a ideia de voltar, para tentar derrubar um estado podre, repressivo, agressor, policial.
Uma geração antimilitarista que foi mal recebida, até pelos militares de Abril que não compreenderam muito bem a questão da deserção. De facto, muitos de nós, quando no dia 25 de Abril de 1974, vimos nas várias televisões da Europa, as imagens da Junta de Salvação Nacional, tememos o pior. Aquelas figuras fardadas e hirtas recordavam-nos outras situações de outros golpes militares noutros continentes.
Mas não foi assim e, estar a escrever isto, é a prova de que não foi assim.
25 de Abril, sempre
FERNANDO CARDOSO
| Ana Rosenheim | Irene Pimentel | Rui Guimarães |
| António Paiva | Joaquim Saraiva | Rui Mota |
| Carlos Estevão | Jorge Leitão | Teresa Couto |
| Carlos Neves | José Torres | Teresa Perdigão |
| Carlos Ribeiro | Manuel Branco | Tino Flores |
| Fernando Cardeira | Maria Irene Martins | Vasco Martins |
| Fernando Cardoso | Merita Andrade | |
| Hélder Mateus da Costa | Rui Bebiano |
Inclui cd de Tino Flores


Be the first to comment